quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Aureliano puxou o gatilho

Aureliano puxou o gatilho. Por tudo quanto conseguisse se lembrar havia sentido – primeiramente no estômago, por fim no corpo todo – vontade de matar alguém. Aureliano puxou o gatilho. E lembrou-se de tempos idos, tempos aqueles dos quais a rememoração nada é senão um breve relance sobre fotos borradas, filmes em sépia, flashes incontroláveis; é olhar por sobre as fotos e derramá-las, ao invés de lágrimas. Um soluçar não anunciado chamou sua atenção de volta à pessoa que lhe olhava nos olhos, ajoelhada à sua frente, como que a suplicar que não perpetrasse o ato. Aureliano puxou o gatilho. A rememoração voltou, trazendo consigo a dor de crimes sempre concluídos, amores nunca sentidos, trazendo consigo a fome, a droga, o ódio; dessa dor emergiu a raiva, com sua baba verde a escorrer pelos cantos da boca, e sangue a bombear os olhos de vermelhidão intensa. Aureliano puxou o gatilho. Olhou para o ser humano, que desprezava, a sua frente, ainda a lhe suplicar. Ajoelhado, vestindo trapos, sujo, de chinelo, como um rato, uma barata, um pedaço de lixo que lhe parecia apenas servir para enfeiar sua vida e sua cidade, pingando de suor, com outros três cadáveres ao seu lado, somente pra aumentar o asco da cena ensangüentada. Aquela criatura, de cabelos mal raspados, cicatrizes espalhadas por todo o corpo, vítima de uma sociedade que não lhe aceita, nem vê; aquela pessoa, ainda que não fosse tratada como tal. Aureliano sentia as lembranças jorrarem fora da cabeça como um hidrante desregulado e irritante; imagens vivas se formavam à sua frente, como a lhe implorar que se mantivesse são. Sua mãe, medíocre, sempre se contentando com o pouco quase nada que lhe foi dado a vida toda – morta; seu pai, subserviente, aceitando desacatos dia sim outro também, de forma a poder sustentar a família e levar uma vida que considerava digna – morto; seus irmãos, também nas ruas como ele, filhos de uma geração que partiu de sertões infindáveis em busca de algo melhor, apenas para encontrar um novo sertão, mais seco, mais cruel, mais urbanizado, mais moderno, mais arranha-céu, mais roupas de grife – mortos. Seco, era assim que ele se sentia. Seco. Nada havia que lhe banhasse o ser, nada nem ninguém lhe penetrava o coração, tudo lhe era indiferente, sua própria vida não mais lhe importava. Nada havia, nada sentia, nada tocava, nada era. Aureliano se levantou. A pessoa que lhe encarava, também. Apontou a arma e, finalmente, puxou o gatilho. O sangue sujou o espelho prostrado à sua frente.

Rio, 2009

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