quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Conclusão do 1º período de Bacharelado em Teatro, na UniverCidade


Antes, algumas explicações: no trabalho de dissertação de fim de período, no curso de Bacharelado em Teatro, nos é permitido escrever na 1ª pessoa (tanto do singular quanto do plural), pois soaria muito estranho um ator falando da sua própria experiência usando algo do tipo "e então, o ator sentiu isso". Tendo isso em vista, abaixo transcrevo o trabalho de avaliação final na disciplina "Introdução ao Teatro - Teoria", cujo tema era "a descoberta mais significativa que você fez nesse 1º período".

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O teatro através do espelho:
A artificialidade como ferramenta criadora da verdade cênica


     Creio ter sido quase instantânea a minha escolha do assunto que seria tratado nesse texto. O fato é que, assim que a professora Thereza nos sugeriu o tema de “uma descoberta importante”, minha mente viajou até uma aula de Interpretação do professor Vítor Lemos, ocorrida durante o mês de setembro. Na mencionada aula, assistindo à improvisação (ainda sem falas) de dois colegas, foi que entendi o que verdadeiramente era o jogo teatral.

     Talvez, para falar sobre isso, eu devesse voltar ainda mais, mencionando minhas experiências com o teatro antes de me unir ao corpo discente da UniverCidade. Isso porque nos cursos antes feitos por mim (à exceção, talvez, de um) o prisma sob o qual o teatro foi visto era o da representação, do fingimento. No entanto, creio que eles foram fundamentais para meu amadurecimento como ator e como pessoa, na medida em que me trouxeram ao lugar onde estou agora. E esse é somente o início da interminável jornada pela busca do teatro como jogo, verdade e espaço de auto-investigação.

     Lembro-me, como se fosse hoje, do momento em que realmente os pontos se ligaram. Foi durante a improvisação de dois colegas, Leandro Argon e Gabriel Pimentel, na qual o antecedente era que Leandro havia “ficado” com a namorada de seu melhor amigo, Gabriel, que descobrira tudo. A cena se dava num reencontro, onde o objetivo do primeiro era que o segundo o desculpasse e o deste, que aquele saísse da casa. Ainda está vívida na minha memória a imagem do momento em que Leandro entra na sala, olha para Gabriel e pára. Pelo modo como ele observa seu colega de cena, noto algo de estranho, de anti-natural. Por um instante fico perdido, tentando decifrar o que seria aquele estranhamento. Então percebo: ele está ali, literalmente, atravessado pela circunstância, respondendo sinceramente aos estímulos, lutando por um objetivo real e buscando se investigar. E aí as peças do quebra-cabeça se uniram. Girando em parafuso, digo a mim mesmo: “Isso é o jogo teatral, isso é estar em cena.” Enfim eu me encontrava com o teatro.

     Esse encontro, que fez cair por terra tantas construções e idéias pré-concebidas, por si só teria bastado para muitas noites de indagações. No entanto, na aula seguinte, chegou a minha vez de improvisar com meu colega Aaron Santos, baseado no mesmo antecedente que mencionei acima. Durante o trabalho, procurei realmente jogar com meu companheiro de cena, me libertando de quaisquer noções da dita “naturalidade”. Não era preciso representar que algo estava acontecendo, pois algo realmente estava acontecendo. O resultado foi uma qualidade de atenção enorme e uma escuta indescrítivel – do outro, de mim mesmo e de tudo que acontecia naquela sucessão de fugazes momentos presentes – como na imagem que nos traz Peter Brook:

Na Índia, os grandes contadores de história que narram o Mahabharata nos templos nunca perdem contato com a grandeza do mito que estão fazendo reviver. Têm um ouvido voltado para seu interior e o outro para fora. É o que deveria fazer todo ator de verdade: estar em dois mundos ao mesmo tempo. (BROOK, 1999: p. 27)

     Ao término da improvisação, era perceptível para mim como cada momento fora vivenciado intensamente. Esse fato me confirmou a idéia de que a cena é como o arco e a flecha de que nos fala Herrigel, que “[...] são, por assim dizer, nada mais do que pretextos para vivenciar algo [...]” (HERRIGEL, 2007: p. 19).

     Após essa experiência, tornou-se gritante para mim a diferença de qualidade entre alguns trabalhos que seguiam uma linha de “imitação da realidade” e outros que buscavam realmente jogar. É como nos diz o já citado diretor inglês: “Vamos ao teatro para um encontro com a vida, mas se não houver diferença entre a vida lá fora e a vida em cena, o teatro não terá sentido” (BROOK, 1999: p. 8). Entendi o que o professor tentara dizer à turma nas vezes em que comentara que o ator não deveria buscar “uma naturalidade, mas sim a verdade” (Vítor Lemos). Concluí, também, que talvez um dos mais fáceis meios de se criar o Teatro Morto, entediante, de que nos fala Brook seja através desse pseudo-naturalismo, pois “quando novas peças se propõem a imitar a realidade, nós percebemos mais o que é imitativo do que o que é real” (BROOK, 1996: p. 44, tradução minha).

     Em contraste com minhas prévias experiências com o trabalho interpretativo, eu agora notava que o real teatro só acontecia quando o ator se permitia estar no momento presente, jogando com seu(s) parceiro(s). Opondo-se à idéia de criar a impressão que o mundo no palco é igual ao mundo lá fora, surgia-me a idéia de que “criar uma ilusão da realidade é apenas criar uma ilusão” (GRANT, 1988: p. 254). É preciso, portanto, que o ator saiba diferenciar o seu trabalho do trabalho do mágico/ilusionista pois, como nos diz Tennesse Williams em sua peça The Glass Menagerie, “Ele [o mágico] lhes dá a ilusão com aparência de verdade. Eu [o dramaturgo] lhes dou a verdade, sob o agradável disfarce de ilusão” (WILLIAMS, 1999: p. 4, tradução minha). O ator, para permitir que a possibilidade de vivenciação entre em cena, talvez precise ser de uma terceira categoria: deve oferecer a verdade, sem disfarce algum. Restará ao espectador a escolha de travesti-la de ilusão ou não.

      Concluo, portanto, que o verdadeiro teatro talvez seja composto desses intocáveis momentos de realidade pura onde o ator se permite ser, entre outras coisas, artificial e verdadeiro. Nesses breves instantes, a cena ganha a possibilidade de ser um mergulho através do espelho, de dentro para fora dele. E então, nós temos a oportunidade de ter um vislumbre da verdade que tanto nos falta do lado de dentro do espelho.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BROOK, Peter. The Empty Space. New York: Touchstone, 1996.
_____. A porta aberta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.
GRANT, Joan. O Faraó Alado. São Paulo: Pensamento, 1988.
HERRIGEL, Eugen. A arte cavalheiresca do arqueiro Zen. São Paulo: Pensamento, 2007.
WILLIAMS, Tennessee. The Glass Menagerie. New York: New Directions Books, 1999.


Rio, 8 de dezembro de 2009

5 comentários:

Monalisa Marques disse...

Li o título e não consigo mais parar de pensar no segundo livro da Alice (no país dos espelhos).

Vou tirar isso da cabeça e volto, renovada, pra ler seu texto.

:)

Gabriel Falcão disse...

Até agora você foi a única que pegou a idéia, então.

Beijo!

luisa disse...

gabriel, acho apenas que se você diminuir o uso de adjetivos e advérbios sua escrita irá amadurecer... hahahah

Gabriel Falcão disse...

HAHHAHHAHAAHAHHA
Acho que eu já ouvi isso antes...

Farei o meu melhor.

Anônimo disse...

A primeira coisa que pensei quando li o título do seu texto foi a mesma coisa que a Monalisa Marques falou. Alice Através do Espelho. Um dos melhores livros que já li, que traz muitas coisas de formas tão sutis e tão leves que se você não ler direito não capta. Mas enfim seu texto reflete muito sobre todo o livro e sim, tudo o que disseste faz muito sentido, nós decidiremos o que é ilusão ou não. Obrigada por distribuir a nós todos seus melhores pensamentos e sua opiniões.