sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Conto de Natal (de 2007)

(Três anos atrás, foi isso que eu escrevi.)

O suor pingava-lhe do rosto, assim como de todo o corpo. Seus músculos, doloridos, clamavam por descanso e cuidados – coisas que não viam fazia muito. Os dedos, calejados, enviavam constantes mensagens de dor, que ele insistia em tentar ignorar. Mas nem por isso parava. Minto. Parava, para comer o prato que sua esposa lhe preparara horas mais cedo. Frio. Seco. Mas nem por isso seria recusado. O estômago reclamava tanto quanto os braços, ou até mais. Ouviu o alarme. Ainda não havia terminado o prato, mas isso não era motivo para atraso. Sabia o que o patrão fazia com atrasados. Levantou-se, deixando de lado o prato que mais tarde serviria de jantar aos ratos da região. O suor pingava-lhe do rosto, assim como de todo o corpo...

Após a vertiginosa e cansativa subida de onde morava, avistou, enfim, seu lar. A única lâmpada pendia do teto, acesa. O rádio fazia um chiado estranho, uma sinfonia de ruídos ininteligíveis. Sua mulher o aguardava, sentada no sofá, apenas para lhe dar um beijo e deitar-se. O dia dela havia sido tão fatigante quanto o dele. Seus filhos já dormiam, havia tempo que ele não passava momentos felizes com eles. Suas lembranças começavam a escassear. Nunca fora bom de lembranças. Temia esquecer-se de viver, de amar. Os três compartilhavam um colchão surrado. Beijou-lhes a testa, preferiu não acordá-los, sabia que haviam adentrado um mundo de alegria, felicidade e fartura e não sentia-se no direito, muito menos no desejo, de roubá-los de lá. Deitando-se ao lado da mulher, adormeceu quase que instantaneamente. Seus músculos agradeceram.

Naquele dia, não iria trabalhar. Conseguira que o cobrissem no emprego, pelo menos por hoje. Tinha planos. Aguardou, pacientemente, a ida das crianças à casa da avó e a saída a mulher ao trabalho, presenteando cada um dos quais com beijos carregados de sentimento. Ao vê-los desaparecer ladeira abaixo, partiu em missão. Já sabia onde encontraria o que procurava, portanto era tudo uma questão de tempo. Correu. Seus músculos preparam-se para o que vinha adiante.

Pronto. Tudo estava pronto. Ajeitou, pela última vez, o laço cuidadoso que havia feito. Sabia que nada podia dar errado, seria um esforço vão se desse. Ajeitando mais uma vez o laço, subiu no banco e apagou a luz. A porta se abriu, com um estrondo. Ele acendeu a luz. Houve um momento de tensão, no qual ele aguardava a reação deles. “Surpresa!”, bradou, jorrando toda a felicidade do mundo nessas oito letras. Os três pararam de supetão, com a mãe atrás, emoldurados pela porta numa pintura que ficaria para sempre em sua fraca memória. E então, o quadro foi desfeito quando a mais nova correu para abraçá-lo e, em seguida, em direção ao canto da sala. Lá estava uma pequenina árvore de natal, com as poucas luzes que tinha a brilhar e alguns enfeites. E embaixo dela, os laços que tão insistentemente arrumara enlaçavam presentes para cada um deles. A mulher correu e beijou-o, como há muito tempo não fazia. E então avistou a mesa, com uma pequena ceia preparada para os cinco, e o beijo despejou tanto amor que ele achou que transbordaria a qualquer instante de si. E então ela, também, foi ver seus presentes. Ele sentou-se no sofá, apreciando o segundo quadro daquela noite que ficaria para sempre em sua memória. Seus músculos reclamavam, mas ele não os ouviria. Não dessa vez. Porque, naquele instante, ele soube, e teve a certeza de que o cansaço, o trabalho, a labuta, tudo... tudo valia a pena. Tudo.
Rio, 6 de dezembro de 2007

Sem título de 24 de dezembro de 2010


 para N.C.F.

Caminho a passos lentos e curtos pelo corredor da velha casa onde agora só os fantasmas vêm, percebo água a escorrer do meu rosto; estranhamente ela sai dos meus olhos sem que seja minha, é como se algo chorasse por mim, enchesse o cálice e me fizesse transbordar. As decorações são de anos atrás e a solidão me grita no silêncio do vento que sopra e, batendo nas janelas, traz a impressão de um terremoto; algo vai ceder, dar fim, há de vir o novo, o eterno, as folhas molham o chão com seu orvalho matinal e eu com meus canais lacrimais; não percebo nada na casa, o mofo é o mesmo, as pessoas mortas que me sorriem das fotos são exatamente iguais, não mudam, eu que mudo, envelheço, fico velha e choro pelos cantos a reclamar da vida e da velhice e da solidão e do choro. Sou eternamente grata a tudo que fui e busco sê-lo novamente, enquanto ainda posso, sem perceber que jamais o serei outra vez, porém que tenho isso dentro de mim enquanto rio e enquanto corro. Poderia descrever a sensação de não falar com ninguém durante dias, e esquecer como se cumprimenta ao amanhecer um ser que caminha do outro lado da rua e lhe sorri; poderia dizer como a poltrona já se moldou a meu corpo de forma a não mais reconfortá-lo; poderia chorar a partida de seres queridos, alguns mortos, outros abandonantes de mim mesma. Diria a eles tudo que digo a esse papel e sei que eles me amariam por isso, ou talvez me odiassem. A casa inunda com minhas lágrimas e a corrente carrega-me para fora, quebrando portas e paredes e janelas. Do lado de fora, ele me espera e diz que sou a pessoa mais linda do mundo. Abraçamo-nos e caminhamos, agora a passos largos e eternos.

Rio, 24 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um ano














Na verdade, um ano e vinte e seis dias. Só hoje eu me lembrei de escrever algo aqui. Na verdade, até lembrei antes, mas não tive tempo ou saco pra ir até o fim. E agora, quando finalmente o tempo e o saco me acham, faz 26 dias desde o dia 26 de novembro (e isso não foi premeditado MESMO — os numerólogos de plantão que decifrem). De qualquer forma, não tem muita coisa pra dizer porque não pensei muita coisa pra dizer e não tô afim de dizer muita coisa. Nesses 365 dias foram 39 textos (a maior parte meus), 52 comentários (grande parte meus), e umas 3.200 visitas (quase todas minhas). De qualquer forma, quando esse lugarzinho de palavras faz anos, eu também faço. Dezenove a mais que ele.

Não sei mais o que falar. É difícil escrever algo sobre uma coisa em que você escreve, porque me parece que ela já se auto-escreve, a cada letra vista aqui durante esse um ano. É isso que fica, então. Não o que eu queria que fosse, não o que você quer que te lembre, mas o que é. E eu não faço a menor idéia do que seja. Pode parecer que eu estou falando apenas do blog, mas... quem sabe? A vida tá aqui do meu lado me dizendo que isso cabe perfeitamente pra dizer dela.

Rio, 26 dias depois do dia 26 de novembro de 2010

Sem título de 22 de dezembro de 2010

Os olhos falam muito mais do que as palavras. Derramando seu conteúdo sem necessidade de pôr-se em contacto com convenções comunicativas, faz-se ponte entre dois, mostrando-lhes que são, em essência, um. Por prescindir de um entendimento fragmentário, o olhar permite o entendimento total. A velocidades supralumínicas a informação chega de bloco, estando ao mesmo tempo no que olha, no que é olhado, e no espaço vazio entre e dentro dos dois. A magia do olhar nos remete a um tempo em que éramos dois e nenhum, quando ao caminhar os braços se entrelaçavam e os perfumes se completavam. As flores nos olham quando choramos e é por elas que as lágrimas secam e molham o chão, num eterno ir e vir de mudanças de estado. Um olhar pode mover montanhas, derreter calotas polares e trazer abaixo construções inteiras. Por isso, ao olhar-me, diga o que queres no fundo do teu coração e, certo de que entendi, seguiremos a caminhar até o próximo olhar, em silêncio e dizendo muito mais do que aqueles que gritam.

Rio, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem título de 19 de dezembro de 2010

Enclausurados na necessidade de sermos livres, não percebemos ser escravos. Continuamente buscando estabelecer grupos para pertencer, pensamentos a concordar e discordar, somos eternamente escravos de nós mesmos, de nossa concepção falida que há de desabar para o renascer de algo novo e eterno. Ao olhar para dentro e perceber o que não se deseja perceber, aproximamo-nos um passo do renascimento tão pregado por tantos antes de nós. Dando chance ao novo ser que há de caminhar sob o sol como um rei e por ele ser iluminado em todo seu esplendor; dando voz ao novo som, que há de vibrar cristalino por entre árvores e mortos; dando um passo de cada vez, rumo ao encontro de Nós Mesmos. A verdadeira alforria não nos pode ser concedida por decretos, ou por idéias, ou ações. Ela está presente, quanticamente, em cada um, e só por esse cada um pode ser alcançada, para o colapso da onda. A necessidade de ser livre é uma ilusão criada pelas próprias correntes. Havemos de perceber que, no jogo universal, as próprias correntes são uma ilusão. Não para serem desprezadas, mas apreciadas como ilusão. Cada sopro traz a vida e a vida traz mudanças; o sopro do novo há de limpar-nos a face e a alma, sendo a primeira e única lei realmente áurea.

Rio, 19 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pequeno amor

[para ler ao som de  ]


Eu quero um pequeno amor que faça sorrir. Que abrace forte, cante comigo e ria. Que chore ao meu lado e silencie ao me ver chorando — não ofereça palavras mortas em um consolo fútil, mas o entendimento silencioso que tudo acolhe. Que  tropece comigo e levante, nas quedas que devemos experimentar. Que mexa nos cabelos enquanto, num filme, seu olhar se perde no horizonte sem fim. Quero um pequeno amor que durma ao meu lado, num quarto de fim ou início de estação, com a natureza a nos gritar em sussurros fora e dentro. Que viva ao meu lado, que seja ao meu lado, que morra ao meu lado. Quero um pequeno amor que, ao fim da vida, possa olhar e ser olhado, beijar e ser beijado, sentir e ser sentido, viver e ser vivido. Que, nos últimos momentos, nossos olhos se encontrem, para dizer pela última vez, sem palavras, aquilo que sempre dissemos e que é só nosso. Então saberei — como sei agora — que, da vida, o que fica, como sempre ficou, são os pequenos amores.


Rio, 15 de dezembro de 2010

Aforismo nº 12

Todos os que já fui e serei, agora e sempre, são em mim.

Rio, 15 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Serão

Eu queria saber ser eu.
Quantas vezes sou tantos
e perco-me de mim.

Sumo atrás da colina,
apareço na outra esquina,
e a sinceridade me grita lá de casa.
Volto, então, e reencontro-me
e percebo que em todas as vezes que me perco
quem se perde sou eu mesmo, dentro de mim.

Eu queria saber ser outro.
Quantas vezes sou tantos
e encontro-me neles.

Rio, 13 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Gilberto Gil nº 1

(do CD "Banda Larga Cordel")
Não tenho medo da morte

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

aí nesse instante então
sentirei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Conclusão do 2º período de Bacharelado em Teatro, na UniverCidade

Trabalho apresentado à profa. Ms. Thereza Rocha como requisito ao ingresso no terceiro período do curso de teatro.

A respeito do uso da primeira pessoa em texto dissertativo, veja http://omundoqualquer.blogspot.com/2009/12/conclusao-do-1-periodo-de-bacharelado.html 

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As pontes do ser

"O que for, quando for, é que será o que é."
- Fernando Pessoa ou Alberto Caeiro?


     Uma ponte, um rio, duas margens. Essa é a imagem que se forma enquanto tento transmutar em palavras as vivências dos meses de estudo no segundo período do curso de teatro. Penso que foi durante a leitura do livro “Técnica para o ator”, da atriz Uta Hagen, que pela primeira vez esse conceito abstrato, já presente em divagações, se tornou algo um pouco mais concreto. No capítulo “Identidade”, ela nos apresenta a noção de que, na atual sociedade, nós “compartimentamos e caracterizamos nosso comportamento até que nossa auto-imagem se torna um clichê ou um estereótipo, tal como faz nossa preconcepção a respeito dos personagens que queremos interpretar” (HAGEN, 2007: p. 37). Em seguida, a atriz e diretora americana propõe uma desconstrução da visão que se tem sobre si próprio e que impede, muitas vezes, uma aproximação mais particularizada e humana das circunstâncias propostas pelo dramaturgo. Não vejo, no entanto, essa desconstrução como negar o que se é, mas sim como perceber que isso difere do que se acredita ser. O que existe é uma ampliação daquilo que o ator se possibilita vivenciar e que o fará identificar-se com o ser humano por trás das ações. É aí que vejo algumas pontes ligando as margens. Entre sua auto-imagem e a imagem que faz do personagem, está o ator no ato da experimentação cênica; entre a palavra cotidiana e a literária, está a palavra como elemento do jogo teatral; entre o que se acredita ser e o que se permite ser, está o que se é naquele momento. Percebo também que o ator não simplesmente transita por ali, mas se faz ponte; e ao contrário das outras, não fica acima do rio, mas dentro e fora dele, encharcada e seca, objeto e reflexo. Ele permite, então, que a vida no palco, como um rio que nunca é o mesmo, se dê aqui e agora nas duas margens — e difira de ambas.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
HAGEN, Uta. Técnica para o ator: a arte da interpretação ética. São Paulo: Martins, 2007.

domingo, 28 de novembro de 2010

Quando eu me for

Quando eu me for
e o corpo vazio restar entre árvores
não me façam estátuas
não me forjem placas
não me façam mito
não me ergam monumentos.

Quando eu estiver longe e perto
e a vida sem nome planar entre pássaros
lembrem, mas não se apeguem
guardem, mas não endureçam
chorem, mas não por tristeza
vejam, mas não se fixem.

Quando tudo for justo
e o plano findar, escrito em linhas longas,
vejam meus olhos
doem meus órgãos
cremem meu corpo
joguem meus restos.

Aonde?
Não sei. Nem me interessa...
Não sou meus restos, não sou meu corpo, não sou meus órgãos, não sou meus olhos,
Não sou Gabriel, não sou José, não sou Fernando, não sou humano.
Sou vocês, sou as árvores, as estátuas, as placas, os mitos e os monumentos,
Sou eu mesmo, sou os pássaros, sou os olhos, os órgãos, os corpos e os restos.

E em tudo que lembrar a minha presença, saiba que ali não estou.
E estou, justamente, ali.

Rio, 19 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Sem título de 20 de novembro de 2010

Parti minha máquina de escrever ao meio e ela sangrou. Teclas voavam num balé coreografado pelo vento, o ritmo era ditado pelo pipocar das engrenagens a reclamar sua ex-vida, o sangue escorria entre a tinta, que só o tornava mais escuro e fazia pensar em você. O sol não brilhou naquele dia, nenhuma vez. Apareceu negro, subiu negro, desceu e sumiu negro. Nenhuma flor tinha cheiro, nenhum animal vida, só você passeava pelas paredes e me dizia pra ficar quieto e sentar à beira do mar. Mas sem você o mar não era mar, era água salgada. A praia não era praia, era grãos de areia. Sujos. A máquina me chamava ao conserto e somente a percebi quando não havia mais o que consertar, já estava partida, sangrando, voando e pipocando. A tinta sujou minhas mãos e eu corri para dentro do sangue, achando que me limparia. Mas o sangue não limpa, sangra. E então, sangrei. Por você, por mim, pela máquina, pela praia, pelas flores e por nada, sangrei até a morte. Morri à beira da máquina, ela me servia de lápide, com uma folha ainda presa em sua engrenagem, que dizia: “Aqui jaz”. O fim, como todo fim de filme cult, é em aberto. Não sei o que foi de mim após morrer, como não sei o que foi antes. Minha função nunca foi saber, sempre foi viver. E vivi. O pouco tempo que tive foi teu e se alguns segundos sobraram os entrego a ti com muito amor e prazer. O sangue correu, o mar molhou, o vento subiu, e o homem morreu. ... ... ... E foi então que algo aconteceu: uma fênix pousou em cima da minha máquina. Eu, em repouso, e ela me acompanhava com seu canto; a melodia me fez abrir os olhos, vi o chão, limpo, a máquina, inteira, o sol, brilhando, a vida, pulsando, e a luz, banhava, tudo. Você estava lá e me olhava como se fosse a primeira vez. E era.

Rio, 20 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fernando Pessoa nº 1 (Alberto Caeiro nº1)

(do poema "O Guardador de Rebanhos")


XXII

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que o sinta
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

sábado, 6 de novembro de 2010

Avaliação teórica 1 da disciplina "Ator e Ação - Corpo"

Texto produzido para a disciplina "Ator e Ação - Corpo" (Profa. Esther Weitzman), como avaliação teórica do segundo período do curso de Bacharelado em Teatro da UniverCidade. 

Sobre a utilização da 1ª pessoa do singular no texto dissertativo, veja http://omundoqualquer.blogspot.com/2009/12/conclusao-do-1-periodo-de-bacharelado.html

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O ator invisível e o ator secundário

“Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”
- Mário Quintana, “Das utopias”


   Logo ao sair da peça, decidi que seria sobre ela que escreveria. Um momento específico me parecia muito expressivo em relação à questão que Yoshi Oida nos propõe em seu livro “O Ator Invisível”, quando conta:

No teatro kabuqui, há um gesto que indica “olhar para a lua”, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: “Oh, ele fez um belo movimento!”. Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico. Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível. (OIDA, 2001: p. 21)

   Porém, assistindo ao documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, uma outra questão se infiltrou no processo de raciocínio, gerando, no fim, uma terceira idéia. Uma ressalva: não proponho, aqui, uma análise aprofundada do trabalho do ator no cinema ou na televisão, já que não é a nossa proposta (ao menos nesse momento do curso), e sim a utilização dessas linguagens como comparativos para melhor compreender o ator de teatro no mundo contemporâneo.
   Na peça Marcha para Zenturo, em cartaz no Espaço SESC, as companhias teatrais Espanca e XIX de Teatro nos propõem uma reflexão sobre o tempo, questão essencial no teatro e também na vida, e suas implicações na relação entre os seres. A peça se passa num futuro distante (por volta de 2400 se não me engano) e desde o princípio provoca uma estranheza ao lidar com atores em tempos diferentes. Explico-me: é como se cada ator estivesse alguns minutos atrás (ou à frente) do outro, e portanto suas reações ocorrem em tempos distintos, com alguns respondendo a um “Olá!” apenas cinco minutos depois, enquanto o outro já estava em outro assunto, e assim por diante. Isso implica, naturalmente, em uma ausência total de relações corporais de toque, pois no toque não há escapatória, o que toca e o tocado se unem em um campo unificado temporal, na percepção de ambos. Isso fica evidenciado na peça quando, em dado momento, um dos atores toca em uma atriz e traz todos para o mesmo tempo presente, durante a duração do toque (que aliás é tido como uma ofensa na sociedade futurista de relações praticamente inexistentes entre os humanos).
   Mas não seria esse meu ponto principal sobre a peça, e sim um momento quase ao término da mesma, quando um ator rompe o espaço destinado à encenação e se aproxima da platéia, segurando um cubo de gelo entre os dedos. Enquanto nos conta da inexorabilidade do fluxo temporal, mostra o gelo como prova dela. Levanta o cubo acima de sua cabeça, e nesse momento é como se o ator não importasse tanto, como se ele fosse secundário. É como se o cubo de gelo fosse a lua e o ator apontasse para ele, levando nossa atenção não aos dedos que habilmente o segurava, mas ao cubo em si e, mais além ainda, ao que ele representava naquele contexto. Vejo, então, (ou justamente não vejo?) o “ator invisível” de que nos fala Oida.
   Já o documentário de Eduardo Coutinho põe, como nos sugeriu o próprio professor Carlos Eduardo, uma “lente de aumento sobre o nosso ofício”. Misturando mulheres que contavam suas histórias reais de vida com atrizes que as interpretavam, o documentarista nos faz refletir sobre o próprio ato de atuar (ou mesmo de agir; to act). Em uma das entrevistas, uma mulher nos conta sua história de vida, de modo completamente natural e sincero, fazendo com que cada um de nós acredite ser ela a “dona da história”. Ao término de sua fala, ela olha para a câmera, seu ar muda e ela diz: “Foi isso que ela me disse”, levando todos os espectadores a uma sonora surpresa onomatopaica, com a revelação de que era uma atriz.
   Esse trecho específico me pôs a pensar sobre a invisibilidade do ator no teatro e sobre a própria utilização da palavra “invisibilidade”. É um fato que a atriz do filme se tornou invisível, por diversos motivos, entre os quais estava o de que o próprio filme permitia a presença de não-atrizes contando suas histórias e, portanto, pressupunha que algumas realmente seriam as personagens, e também o próprio fato de ela não ser uma atriz conhecida de nenhum de nós. Seria possível, no teatro, tal invisibilidade ao ponto de o espectador sinceramente ser surpreendido com a revelação final de que era uma atriz? Certamente, em certos tipos de teatro (teatro contemporâneo, performances, etc). Mas me parece que dentro das predominantes linhas dramatúrgicas a que estamos adequados nos limites de um palco, essa invisibilidade é completamente utópica e até mesmo indesejada.
   O uso da palavra “invisível”, a meu ver, se torna um empecilho à real compreensão de seu significado no contexto do livro citado. Não é tanto uma invisibilidade, pois que se o ator fosse literalmente invisível, ao apontar seu dedo para a lua, ninguém a veria, pois o dedo também teria sua invisibilidade. Imagino que “ator secundário” se aplicaria melhor ao produto final obtido pelo ator de teatro que Oida nos fala. Um ator que é secundário não ao processo teatral em si, mas ao produto final, que deve ser primariamente aquilo que ele aponta.
   Um ditado oriental nos diz, como Oida, que as religiões são como um dedo que aponta para a lua. O homem, no entanto, se atém mais às especificidades do dedo do que à lua propriamente dita. O espectador de teatro, no entanto, penso agora ser o oposto. Ele já vai para o espetáculo desejoso de ver a lua, propenso a ver além do que é proposto. O estudante e ator, por vezes, busca apreender a técnica do colega no palco, mas a platéia, de um modo geral, já senta nas cadeiras preparando sua imaginação e sua criatividade.
   Todo esse exercício de auto-questionamento me fez chegar à questão de por que Yoshi Oida teria utilizado essa palavra (certamente não impensada). Alguns pontos foram fundamentais na busca de uma resposta: o fato de que no teatro (salvo exceções já mencionadas), o ator nunca será realmente invisível pois a platéia o sabe ator e reconhece o palco como um palco; e, do outro lado, o fato de que, justamente por reconhecê-lo como tal, a platéia já vai disposta a aceitá-lo como o que não é. Mas é fato sabido que nenhuma platéia saberá fazer por si própria o trabalho completo – e nem deveria, pois o processo de aperfeiçoamento do ator enquanto profissional se tornaria obsoleto e bastaria a eles um qualquer que fizesse qualquer coisa para que embarcassem com tudo que lhes é devido. Portanto, o ator, exatamente por sua impossibilidade de se tornar invisível num palco, deve buscar sê-lo. Pois atingirá, quem sabe, exatamente o meio do caminho (ou seria o caminho do meio?): o ator secundário. Onde o dedo que aponta para a lua é visto, mas somente para levar o espectador à lua em si. Um dedo que é canal para a atenção da platéia, assim como o ator é canal para as intensidades de si mesmo e do personagem. O ser humano, então, será visto em todo seu esplendor e complexidade, assim como a lua – e até mais do que ela.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
OIDA, Yoshi. O Ator Invisível. São Paulo: Beca Produções Culturais, 2001.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Fênix I

sê novo a cada instante
se reinvente e recrie
das cinzas a fênix renasce
dá as costas ao mundo antigo
abraça o mundo novo
o braço é teu e todo
só novo e cinza e fogo
sou eu, finalmente, tudo

Rio, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

De rotina e algemas

A rotina constantemente busca te sufocar, mas suas intenções são as melhores: ela espera que você a transcenda, perceba que na verdade ela não existe, pois tudo é novo, tudo é frescor, tudo é vida, nada se repete, nada é igual. Nós é que deixamos que ela se imponha superficialmente, mas não é preciso! O prazer de quebrar a rotina somente é possível quando a falha de permitir que ela se instale é não-intencional. Fora isso, não há prazer, não há rotina, não há eu. Quando a intenção de notar que cada momento é único deixa de ser intenção, passa a ser conceito, deixa de ser conceito e passa a ser vivência, todas as nomenclaturas falham. Não há A nem Z, não há começo nem fim, e sim um eterno transitar de formas no espaço. Não há rotina. Há um eterno escolher, e o escolher somente leva em consideração a rotina ao se remeter ao passado. Ao manter-se no presente, o escolher é livre de todo e qualquer resquício de sufocamento. Não há, finalmente, algemas das quais se libertar, pois tudo é chave — inclusive as próprias algemas.

Rio, 20 de outubro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma ilha

Todo homem é uma ilha. Náufrago de si mesmo, continuamente a buscar pontes, criar linguagens, formas de comunicação, de atravessar a nado as aparentemente intransponíveis léguas de pura água. Cada homem é uma ilha e nessa ilha não há nada; não há árvores, areia, terra, chão, céu, água ou mesmo ar; na ilha de cada um há somente o intangível, o imutável, o verdadeiro, o eterno. Ao aceitar o fato de que estamos permanentemente sós, é fácil notar que o mundo não nos dá o que não tem, impossibilidade de suas próprias limitações. Somente pode nos dar a nós mesmos, e isso é o que busca com suas pontes de madeira, que nunca alcançam a ilha em si. E do outro lado, no nível mais profundo, é puramente lógico notar que se cada ilha é nada, todas as ilhas são uma. Um imenso e amoroso nada, buraco-negro sempre a nos sugar em sua direção, embora teimemos em ser contrários ao caminho que nos mostra. Nesse nada, vê-se que o aparente oposto é também verdadeiro: nenhum homem é uma ilha, pois todos os homens são uma ilha. John Donne nos dizia e ainda nos diz a verdade de sua própria ilha, que não é outra senão a de todos nós. Estamos lado a lado sempre, em cima e embaixo, sonoramente em silêncio e caminhamos rumo à nossa própria aceitação. A ilha, então, procura sempre ser percebida e aceita, como ilha que não é prisão e, sim, libertação. 

Rio, 24 de setembro de 2010

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Vira-vira

Absurdo atrás de absurdo,
a vida vira ilusão;
mentira atrás de mentira,
ilusão vira sonho;
e sonho vira a gente.
Quando a gente vira o sonho,
de cabeça pra baixo,
a vida vira vida.
E a vida, agora virada,
vira a gente, que
vira nada
e vira tudo que vier.
E virá.

Rio, 1 de setembro de 2010

domingo, 22 de agosto de 2010

Eldorado

Ainda que falasse tudo e entendesse
como não foi, como nunca será,
certamente, do fundo dos meus olhos
uma lágrima nasceria, somente pra te dizer
que tudo que é você e tudo que eu te sou
é nada perto do que seria
se fôssemos, como fomos, um.

De quando, os longos braços dizem adeus,
somente para se abraçar de novo no dia seguinte.
E as mãos, ao se tocarem, perceberão o que há;
mas nunca nos dirão que viram
o raiar do dia de um, dentro do outro.

E o sol, brilhando sobre o ouro,
um dia fará ver a cidade perdida, dentro de mim,
dentro de ti, dentro de nós, a cidade partida
que só anseia pela unidade, quer ser toda,
ser cheia, ser uma, outra vez.

É esse fogo que me consome,
e te consome
sem perceber.
E esse fogo, seria fogo,
será meu fogo,
e meu somente
pois sem você. 

Rio, 22 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma história

Enquanto seus olhares se interpenetram, seja deitados na cama ou sentados no chão, o futuro e passado tornam-se dispensáveis, inexistentes, estúpidos; há apenas o olhar, somente existe o olho, todo o resto é coisa, tudo é sem foco. Através do olho, adentram a alma um do outro e vêem a si mesmos, em sua infinitude. Isso é sem nome e é sem rótulo, e graças a nós que é assim. No entanto, talvez a não-presença de um rótulo nos impeça de percebê-lo pelo que é realmente, vendo-o apenas pelo que parece ser, acostumados que estamos a rotular tudo.

Notam mais aqueles momentos em que são embaçados, de quando em quando, pelo medo, que ali busca fingir que habita. Como um muro, entre um e outro, entre um e si mesmo, entre o que há e o que pode haver, entre o amor e o amor, entre tudo e nada, o medo estimula o medo. E assim perpetua-se a si mesmo, como vício sem começo e sem fim. Em breves relances de olhar-por-cima-do-muro, o que vêem é campo, é flor, é sem fim, é mar, é paz; mas então a gravidade puxa de volta para baixo e outra vez há apenas tijolos à frente. E então se vão, confusos sobre o que nunca será e o que nunca deixará de ser.

E enquanto caminha, cabisbaixo, o rapaz pensa no que seria e no que não será; enquanto caminha, vacilante, a moça pensa no que não seria e no que será. A diferença sutil de pensamento é que os faz caminhar em direções diferentes, com passadas iguais. (Estarão se afastando, ao prosseguirem assim? Ou o planeta onde se encontram é pequeno demais, e acabarão se encontrando em algum ponto?)

Cada um teme ter tomado o caminho errado mas, no fim, perceberão que todos os caminhos são certos quando se é sincero consigo mesmo e com o próximo. E os caminhos, certos e errados, levarão invariavelmente ao mesmo ponto. Só não se sabe qual.

Uma coisa é certa: ao tentar demais, nada se consegue. O esforço em prol de uma "ação supostamente correta" é vazio, é gasto, é em vão. É somente percebendo o que realmente se quer no nível mais profundo, aqui e agora, que se atinge a verdade. O resto é história.

Rio, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eckhart Tolle nº 1

(do livro "Um Novo Mundo"*)  


No final da década de 1970, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos no restaurante do centro de graduação da Universidade de Cambridge, onde estudava. Havia um homem numa cadeira de rodas que algumas vezes se sentava próximo a nós, em geral acompanhado de três ou quatro pessoas. Um dia, quando ele estava sentado à mesa diretamente oposta à minha, não pude deixar de observá-lo e fiquei chocado com o que vi. Seu corpo parecia quase todo paralisado. Magro ao extremo, a cabeça pendendo para a frente. Um de seus acompanhantes colocava a comida na sua boca com todo o cuidado, porém uma grande parte dela sempre caía de volta no pratinho que outra pessoa segurava embaixo do queixo dele. De vez em quando, o homem emitia sons roucos ininteligíveis. Então alguém aproximava o ouvido da sua boca e, de forma incrível, interpretava o que ele estava tentando dizer.

Mais tarde, perguntei ao meu amigo se ele sabia quem era aquele homem. "Claro que sei. É um professor de matemática. As pessoas que o acompanham são seus alunos de graduação. Ele tem uma doença que paralisa progressivamente todos os músculos do corpo. Viverá, no máximo, uns cinco anos. Esta deve ser uma das mais terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano."

Poucas semanas depois, eu estava saindo do prédio enquanto ele estava entrando. No momento em que segurei a porta para que a cadeira de rodas pudesse passar, nossos olhares se cruzaram. Com surpresa, vi que os olhos dele estavam límpidos. Não mostravam nenhum sinal de infelicidade. Percebi no ato que aquele homem havia abandonado a resistência — estava vivendo no estado de rendição.

Anos depois, enquanto comprava um jornal numa banca, fiquei impressionado ao vê-lo na primeira página de uma renomada revista internacional. Ele não só continuava vivo, como tinha se tornado o mais célebre físico teórico do mundo, Stephen Hawking. Havia uma bela frase no artigo que confirmava o que eu sentira quando nossos olhares se cruzaram, muitos anos antes. Comentando a própria vida, ele disse (agora por meio de um sintetizador de voz): "Quem poderia querer mais?"

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Para saber mais sobre Eckhart Tolle, acesse: Wikipédia (português), Wikipedia (inglês), EckhartTolle.com (inglês), EckhartTeachings (youtube - inglês)

*(disponível em Americanas.com, Saraiva.com.br, Livraria Cultura)

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Atlas rumo a Occam

Por isso carrego tudo: por não saber carregar. Cada peso, cada coisa, traz consigo o mundo inteiro e a recíproca é verdadeira. Só existe o medo de soltar o peso e ele te esmagar. Saímos de si, saímos de tudo para nos julgarmos donos de algo, senhores de alguma verdade relativa que só existe dentro de nossos próprios cérebros. Somos nada. Senhores de coisa alguma. Temos, em nossas mãos, o destino do mundo inteiro e nem por isso nos tornamos chefes do que quer que seja. Somos o futuro, mas nem por isso ele nos pertence; somos o passado, mas nem por isso ele nos obedeceu; somos o presente, e continuaremos a ser inconstantes a cada passo. Humanos demais, e graças a Deus, ironicamente. Somos uma multidão de Atlas a levantar com os ombros esse peso insuportável de ser normal. Porque é tão difícil soltar? Porque é tão difícil saber, sentir, tocar, amar, pensar? Não é! Não é! Não é! O problema, no fim das contas, é que é fácil demais. E, numa escolha, a nossa última escolha seria a de Occam. Mas assim tem que ser, pois depois dela não existe nada. Ou melhor, existe o vazio. Existe tudo. Existe nós, de verdade, sem máscara e sem forma e sem nome e sem nada. E com tudo.

Rio, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Aforismo nº 10

A vida é um sopro. Leve, fugaz e preciosa como um sopro.

Rio, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Música e sorrisos / Céu estrelado

para Rafael Mascarenhas, sempre.

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Música e sorrisos

Vai em paz, meu amigo querido!
Só harmonia trouxe a tua estada.
Mas a vida sempre se bifurca
e estamos sós, pela estrada.

Mais à frente, com certeza,
seremos juntos outra vez
fazendo música e sorrisos,
como aqui você já fez.

No entanto, enquanto isso,
vou cumprindo meu serviço,
em lágrimas, que me afogo.

Só queria muito te dizer,
e sei que hás de entender,
não “Adeus”, mas “Até logo”.

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Céu estrelado

Para nós, quando crianças
nossos pais bem nos diziam
que as pessoas que morriam
viveriam nas lembranças...

e, então, as mãos nas minhas
me contavam, sem maldade,
pra eu saber que a verdade:
é que “Elas viram estrelinhas”.

Hei de, então, vencer o medo
e contar o meu segredo,
só cumprindo meu papel:

a saudade aqui já está
e espero a noite, enfim, chegar
pra te procurar no céu.

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Às vezes, as palavras não fazem a menor diferença e o único discurso que pode ser feito é de lágrimas. As palavras não conseguem, em horas como essas, expressar a saudade e a dor e o amor e tudo que há; elas apenas ajudam a sarar um pouquinho, e mesmo que seja só um pouquinho, se eu posso pedir uma coisa, só uma, juro, é que cheguem até ele como um abraço muito apertado, que era tudo que eu queria poder fazer agora. Só um abraço... Agora, que sua música e sua alegria vão encantar outros ares, nosso mundo ficou um pouco mais silencioso. Você foi luz, é luz e vai sempre ser luz nos nossos corações, vidas e lembranças. Vai em paz, meu parceiro, meu amigo, meu irmão. Muito amor e muita luz e muita paz e muito obrigado por tudo!

Rio, 20 de julho de 2010 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Auta de Souza nº 1

Macaíba - RN, 12 de setembro de 1876 — Natal - RN, 7 de fevereiro de 1901

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(do livro "Horto")

Ao Pé do Túmulo

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais...

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
"Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais". 

Mais sobre Auta de Souza em: Wikipédia (português)

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sem título de 21 de junho de 2010

Transcendes meu olhar, sabendo que desafio-te a transcendê-lo e vens até a porta. Caminhando lentamente, sobes meu coração e, lá de cima, para mim és quase um ponto, mas para ti sou menos que isso, e enquanto sabes, é tortura. Se não soubesse, nada faria, pois nada é errado enquanto nada é certo. Então, o medo que tens, medo de si, medo de mim, medo do mundo, medo de tudo, te derruba — e a queda é interminável, como sopro e leveza, como fim e começo, como tudo no mundo. Que vontade insuportável de gritar “Acorda! Acorda e vê a verdade que sou, que és, que somos, que sentes!”, mas segues dormindo e meu grito não sai. Não sai talvez também por medo de ser o que sou, isto é: nada. Nada sou. Nada és. Mas sei que se te falar isso vais crer que é o “nada” da ausência, da impossibilidade, da não-existência. E em vão, tentarei explicar-te que é justamente o contrário. É o nada da presença de tudo, de todas as possibilidades, de todas as existências em potencial. Pois só pode ser tudo, o que nada é. E nada somos. Podemos ser tudo, e seríamos se acordássemos. Mas a queda é tua vida agora, e não conheces nada além dela, esquecestes de como é a ilusão do chão sob teus pés. Vives agora, caindo. O que não sabe é que não vives, morres. Acorda no sonho! Não "do" sonho, pois isso significaria o fim dele e tu nada serias literalmente. Serias o nada da não-existência. Acordas dentro do sonho! Pois que, sabendo que é sonho, tudo não é nada. E tudo sendo nada, tudo é possível, tudo é possibilidade. E então, somos nada. E somos tudo. Abre os olhos, lentamente, e vê a verdade. Veja a mim, como realmente sou, em meu vazio. Veja o vazio que tudo é. O vazio que é tudo, que tudo contém, que tudo abraça, que tudo aceita. E agora, de olhos abertos, caminhemos juntos pelos campos do sonho, sabendo que sonho é e que sonho somos.

Rio, 21 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um pouquinho de metalinguagem

pra esclarecer esse tal de "Reações" que eu coloquei embaixo de cada postagem.

Leitor hipotético: — Reações: sim, mais ou menos, não... isso seria tipo, gostei, gostei mais ou menos e não gostei?
Eu: — Sim. Mais ou menos. Ou não.

Tá, isso foi sacanagem. Sério. Tanto que depois a conversa continuou.

Leitor hipotético: —Ah cara, não entendi, que coisa complicada! "Sim" é tipo "concordo", "sim" é tipo "ficou legal"? "Mais ou menos" é tipo "depende", "mais ou menos" é tipo "não ficou tão bom"? "Não" é tipo "discordo", "não" é tipo "ficou um cocô"?
E eu: —Mas foi exatamente por isso que eu coloquei desse jeito! O "sim" é tudo que você quiser que ele seja e, ao mesmo tempo, tudo que eu entender que seja. (A mesma coisa serve pro "mais ou menos" ou pro "não".) Se quiser fazer algum comentário explicado, é melhor fazer um comentário. Literalmente. Se não, clica em qual das três palavras vc se identifica mais ao pensar no texto que vc acabou de ler. Simples assim.

Né?

Rio, 16 de junho de 2010

PS: Já até prevejo alguém bem engraçado clicando "Não" nessa postagem, só de sacanagem...
PS 2: E por "leitor hipotético", é claro que eu quero dizer "minha irmã". Aliás, brigado!

terça-feira, 15 de junho de 2010

O que importa em tempos de Copa

Sempre que começam esses grandes eventos esportivos é a mesma mentirada. Todo mundo dizendo que é uma “grande confraternização entre países”, uma “festa do esporte mundial”, etc. No caso do Brasil, o que melhor demonstra essa mentirada é a Copa do Mundo de Futebol. Nas Olimpíadas, a gente até vai com o coração aberto, são tantas competições, e o país não tem lá um histórico que gere grandes expectativas no âmbito olímpico geral. Olimpíadas de Inverno, então, nem se fala. Deve ter uns cinco brasileiros... assistindo. Mas na Copa do Mundo não. A Copa do Mundo é diferente. O Brasil é o país que foi mais vezes campeão, o único país a ser campeão fora de seu continente e o único país a participar de TODOS os campeonatos! Pra Copa do Mundo a gente vai de cabeça erguida, sempre sabendo que somos favoritos e criando grandes expectativas.

Na verdade, quando eu disse que a Copa não tem confraternização, não foi bem a verdade. Tem sim. De quarenta minutos. É o tempo que dura a cerimônia de abertura (aliás, realizada duas horas antes do primeiro jogo, que é pra não perder tempo com essa história de musiquinha, dancinha, discursozinho). Os outros cinco mil setecentos e sessenta minutos serão passados em ferrenhas disputas entre 22 gladiadores, cercados pelos urros e vuvuzelas ensurdecedores de até noventa mil espectadores, sem contar os milhões assistindo em seus países (também aos urros e com vuvuzelas). Uma coisa é certa: existe a confraternização, mas ela não é do “esporte”, ou “entre países”. Ela é de cada país consigo mesmo, numa espécie de delírio ufanista.

Sejamos realistas e práticos. Há dois caminhos: ou o Brasil vai ser campeão ou não vai. Se ele for campeão, esqueceremos todos os problemas (que não são poucos) de nosso país por alguns dias, enchendo as ruas de cores convencionadas. Se o Brasil não for campeão, é porque em algum momento ele foi eliminado. Nesse momento, talvez uns cinco ou seis indivíduos, entre os duzentos milhões que habitam esse país, aceitem a derrota e o fato de que o outro país provavelmente jogou melhor. Os outros cento e noventa e nove milhões novecentos e noventa e quatro (ou cinco) estarão muito ocupados xingando a mãe do juiz, ou do Dunga, ou de algum dos vinte e dois escolhidos para representar nosso país; talvez optem pelo caminho alternativo, e xinguem as mães dos jogadores e técnico do outro país, que a partir daquele momento estará, para sempre, rebaixado no status diplomático com o Brasil. Ou pelo menos até que vençamos dele, recuperando nosso orgulho como seres humanos.

Então não me venham com esse papo de confraternização mundial ou do esporte ou de coisa alguma, a não ser duzentos milhões de pessoas. O que importa, para esses milhões, não é competir, é ganhar. E os estrangeiros que se cuidem.

Se alguém duvidar, é só sair com uma camisa de Portugal na rua. Ou se acharem uma da Coreia do Norte ou da Costa do Marfim, podem tentar também. A tal da confraternização vai por água abaixo.

Rio, 15 de junho de 2010 
(15 minutos antes do primeiro jogo do Brasil)

PS: Aliás, eu aprendi essa expressão "vuvuzela" outro dia, tipo... ontem. Pra mim sempre foi corneta. Qual o problema em falar corneta?

PS2: Acabei de descobrir que "vuvuzela" é uma corneta específica, da África do Sul. Vivendo e aprendendo. De qualquer forma, deixei no texto "vuvuzela" porque é uma palavra tão esdrúxula que vale a pena.

sábado, 12 de junho de 2010

Jiddu Krishnamurti nº 1

Madanapalle - Índia, 11 de maio de 1895 — Ojai - Califórnia, 17 de fevereiro de 1986
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(editado em 14 de junho de 2010 - o texto que eu tinha colocado aqui, originalmente, pode ser visto aqui [em inglês] e aqui [em português - a tradução é do Google, então é meio difícil entender algumas coisas])

You may remember the story of how the devil and a friend of his were walking down the street, when they saw ahead of them a man stoop down and pick up something from the ground, look at it, and put it away in his pocket. The friend said to the devil, “What did that man pick up?” “He picked up a piece of Truth,” said the devil. “That is a very bad business for you, then,” said his friend. “Oh, not at all,” the devil replied, “I am going to let him organize it."

Vocês devem lembrar a história de como o diabo e um amigo estavam andando por uma rua, quando viram um pouco mais à frente um homem se agachar e pegar algo do chão, olhar para aquilo, e guardar em seu bolso. O amigo disse para o diabo, "O que aquele homem pegou?" "Ele pegou um pedaço da Verdade," disse o diabo. "Isso é bem ruim pra você, então," disse seu amigo. "Oh, de modo algum," o diabo respondeu, "eu vou deixar o homem organizá-lo." 

Mais sobre Krishnamurti em: Wikipedia (inglês), Wikipédia (português), Krishnamurti Foundation of America (inglês), Instituição Cultural Krishnamurti (português)

Libertação

para "vovó" Célia 

Eu sempre fui um rapaz pequeno. Talvez pequeno até demais. Pequeno, pois nunca tive espaço para crescer. É como a semente que germina enclausurada numa caixa minúscula, e termina por gerar uma árvore pequena, espremida, amedrontada.

Meus últimos anos foram passados dentro de um quarto minúsculo. Isso porque meus pais haviam falecido em um incêndio criminoso. Desde aquele dia eu morava, para minha total infelicidade, com minha madrinha. E, desde aquele dia – talvez até antes dele – eu a odiava. Quatro metros quadrados de chão por dois de altura. Esse foi o todo o espaço que eu tive para crescer durante todos esses anos.

Eu nunca vou esquecer da senhora que me salvou. Provavelmente beirando os oitenta anos, estatura diminuta, cabelos brancos já ralos e o corpo envergando pelos desprazeres que a terceira idade traz. Seus óculos, grossos e largos, tornavam seus olhos duas bolas de tênis. Seu sorriso, gentil, amaciou meus ânimos, assim como meu coração. Sua voz soou para mim como a mais bela música já tocada.

“Meu filho”, disse, “você está vivo.”
Ora, mas que coisa, “É claro que estou vivo”, respondi.
“Você, meu filho, ultrapassou as barreiras da fome, da dor, da necessidade e das doenças. Você está livre. Livre como nunca.”

Foi como se um filme passasse pela minha cabeça em frações de segundo. Então a verdade, como um caminhão, me atingiu. Eu estava morto. 

“Nã... não. Não pode ser”, balbuciei.
"Filho, entenda, o que lhe aconteceu não foi uma punição. Foi um presente. Foi amor, foi libertação."

Ao ouvir essa última palavra, meus olhos se abriram e eu vi tudo enquanto não via nada. Estava em todos os lugares, mas ao mesmo tempo, em lugar algum. A beleza do mundo se chocou contra mim como a água que cai de uma cachoeira. O frescor da água, o toque suave do vento e a beleza impecável da floresta. Todos reunidos em uma coisa só. 
Dois pontos distantes se aproximavam rapidamente. Num piscar de olhos, eles estavam ali, a um palmo de meu nariz. 
“Pai. Mãe."

Eu disse sem falar, ouvi sem escutar e pensei sem saber como pensar. Aquela senhora tinha razão. Eu estava livre. Livre como nunca. Livre como sempre.

Rio, ? de ? de 2006

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Paulo Waldemar Ribeiro Falcão nº 2

(do livro "O Cristalino Espírito da Vida")

Meu neto Gabriel

O riso do meu neto é indescritível
É misto de amor com luz e mel
Deixar de admirá-lo é impossível
O nome do meu neto é Gabriel

Bochecha do meu neto é coisa incrível
Macia e fofa como um bom pastel
Deixar de dar-lhe um beijo é impossível
O nome do meu neto é Gabriel

Os olhos do meu neto são incríveis
Azuis e transparentes como o céu
Deixar de amar seus olhos, impossível
O nome do meu neto é Gabriel

A simpatia dele é irresistível
Derruba até um muro de quartel...
Se alguém acha que isto é inadmissível
Eu escrevo e certifico num papel

Quanto mais velho, mais gostoso o vinho
Por isso a gente guarda num tonel
Hei de guarda o amor do meu netinho
Por toda a eternidade do meu céu...

PS meu (GF): Meus olhos depois viraram verdes, mas... e daí?

Paulo Waldemar Ribeiro Falcão nº 1

Fortaleza - CE, 13 de abril de 1925 — Rio de Janeiro - RJ, 21 de abril de 2002

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(do livro "O Cristalino Espírito da Vida")


Vox Cordis

Todo poeta é sempre um desligado
A viver sempre em seu interior
Com o próprio coração ao seu dispor
O amor à alma condicionado

Juntar a emoção ao sentimento
Unir o coração à própria mente
Procurar ser veraz e coerente
Ter a verdade como um monumento

Ser-se poeta embora se pareça
Com o atuar sem usar a cabeça
Agindo aéreo, vago, sem noção

Contudo, nunca um ser é tão preciso
Jamais age tão certo e tão conciso
Pois canta pela voz do coração!...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Aforismo nº 9

Você pode chamar uma girafa de "elefante", mas isso não vai fazer dela um elefante.

Rio, 10 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O aeroporto

O aeroporto, o avião, as aeromoças, o piloto, as cadeiras semi-confortáveis, a altitude, tudo é inebriante como um sonho. O primeiro, com suas paredes cinzas e seu ar-condicionado central; seus seguranças e varredores; seus banheiros e avisos; nos remete ao mundo ideal (para alguns), onde a temperatura é controlada, o chão encerado de hora em hora, os seguranças são gentis, e a voz de Deus vem lhe avisar dos próximos compromissos de um modo extremamente sensual, embora irritante após um certo tempo. O segundo, com sua tentativa eterna de se mostrar como conforto pleno. Enquanto tento, em vão, ajustar-me à posição um tanto quanto incômoda da cadeira excessivamente espremida de um avião idem, me vem um pensamento à memória. Tento agarrá-lo, mas ele foge, arisco como um gato selvagem, e perde-se nos caminhos turvos da mente. Olho para o lado, uma senhora, mãos espalmadas uma contra a outra, na frente do rosto, faz suas preces a todos os santos que possam manter o avião planando (tenho a impressão de ouvir ela apelar para o próprio Jesus uma hora, mas não posso afirmar com certeza). Mais adiante, em direção à outra janela, um jovem escuta sua música através de fones, certamente em níveis ensurdecedores. E exatamente agora, em algum lugar do mundo, alguém está nascendo, alguém está amando, alguém está sofrendo, alguém está morrendo. Nesse exato momento presente, o mundo inteiro está acontecendo. E a gente nem nota.

Rio, ? e 4 de junho de 2010

Um pouquinho de História: encontrei metade desse texto hoje, arrumando arquivos aqui no computador. Ia deletá-lo, mas foi mais forte que eu e acabei escrevendo mais e postando aqui, sei lá porquê.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Uma tarde qualquer

- Eu... eu queria te falar uma coisa.
- Fala, ué.
- Assim? Agora?
- Sei lá, você que puxou o assunto.
- Eu sei, mas é porque eu queria te falar que eu queria te falar uma coisa, mas não queria te falar a coisa agora, entendeu?
- ... Não, mas tudo bem.
- Tá.
- Peraí. Simplifica: você vai falar agora ou não?
- Não.
- Ah...
- Mas se você quiser muito, eu até posso falar agora. Só não acho apropriado.
- Não, não, tudo bem, eu espero.
- Tem certeza?
- Tenho, tenho. Não esquenta.
- Tá.
- ...
- ...
- Chuvinha chata, né?
- É, sei lá, nada de mais.
- É que eu prefiro... eu prefiro quando o tempo se define, sabe. Essa história de mormaço não é maneira. Tem que ser oito, oitenta. Ou tá sol ou tá chuva. Ou quarenta graus ou quinze. Esse papo de vinte e oito não é comigo.
- Eu sou o quê, então?
- Você... Como assim?
- Qual temperatura eu sou?
- Você, sei lá, você é... você... sei lá, mas com certeza não é vinte e oito.
- Brigada.
- Nada.
- Fala agora?
- O quê?
- Aquele negócio que você falou que queria falar que queria me falar uma coisa, mas não ia falar a coisa.
- Então, o quê?
- A coisa, né.
- Ah... deixa pra lá.
- ...
- E eu? Quantos graus você acha que eu sou?
- ... Vinte abaixo de zero.
- ...
- Tenho que ir, tô atrasada já. [se beijam] Tchau. [levanta e vai embora]
- Me liga, tá? [ela continua andando e, sem se virar, levanta lentamente o dedo do meio acima da cabeça] Merda.


Rio, 31 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

História sem fim

A angústia, a solidão, o medo, o desejo, o prazer, os arranha-céus, as estradas esburacadas, as lembranças boas, as lembranças ruins, as lembranças, o apego, os móveis, os outros... Com tudo isso e muito mais o ser humano tenta tapar o vazio que existe dentro de si. Triste destino de nunca conseguir. Não há coisas suficientes para encher esse vazio, nem nunca haverá; nem todo o conhecimento, nem todo o universo preencheriam esse vazio, inerente à condição humana.

Mas e se ao invés de fugir desse buraco, o ser humano mergulhasse nele e se tornasse vazio, se tornasse o agora, se tornasse sem fim? Perceberia, então, que todo o conhecimento e todo o universo estavam lá dentro. Ele é que não sabia.

Rio, 24 de maio de 2010

Aforismo nº 7

Nada é mais importante que tudo.

Rio, 24 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Aforismo nº 6

A única coisa que temos realmente em comum é o fato de sermos todos diferentes.

Rio, 9 de maio de 2010

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mixed signals

O sinal se abriu. Ou não.
O condutor, ainda confuso com o breve lampejo de realidade ou ilusão, tentava em vão decidir qual seria seu próximo passo. Sabia que não sabia o que viria pela frente, e lembrou-se de caminhos andados e de sinais indecisos que já encontrara. Dividia-se em dois, fez-se carro e condutor e fez-se indecisão. Partiu em dois a realidade que o cercava e achou que fosse nítida a divisão. Se tivesse atentado mais para cada momento, perceberia que são entrelaçados, os dois mundos, o carro e o condutor, o sinal aberto e o fechado, o sim e o não. Constituem-se de entremeados eternos, que somente se desfazem no momento da decisão, para se refazerem novamente, na próxima encruzilhada, ou antes. Entre tantos devaneios, quase se esqueceu do sinal, que alternava entre aberto e fechado. Tinha certeza que de nada adiantaria forçar para que abrisse, e mesmo assim sua insistência beirou a falta de lógica. No entanto, sabia também que há tempos atrás esse sinal nada significava para ele e não entendia como agora poderia significar tanto; talvez ele mesmo tivesse criado essa significação, na busca de algo em que se segurar, algo para perseguir, um objetivo a alcançar. Pensou que talvez o mais importante não fosse o sinal, e sim o caminho percorrido até ele e o que seria percorrido após ele.
E com esse pensamento, o sinal se abriu. Ou não.

São Paulo, 26 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Aforismo nº 5

Nada realmente definitivo pode vir de outro lugar que não você.

São Paulo, 23 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Aforismo nº 4

O grande truque é não levar muito a sério.

Rio, 7 de abril de 2010

Sem título de 7 de abril de 2010

Não somente se dar nomenclaturas ou pertencer a certo grupo (religioso, político, social, etc.) restringe o ser humano, mas também a uniformidade de pensamento, a coerência no modo de se exprimir. Há de se permitir ser toda e qualquer coisa que o momento lhe propicia. 

Não é questão de se negar, mas de não negar a negação. De permitir que ela esteja ali, espreitando, do cantinho, como um diabrete que espia o seu sono e sabe que a qualquer momento pode se chamado ao trabalho. Ser outra pessoa não é um problema, porque é impossível! Sempre, aquela pessoa que você for no momento, é você. Nunca entendi muito bem essa história de "Você não está sendo você mesmo...". Ah, é? Então quem eu estou sendo? E, além do mais, quem sabe o suficiente sobre qualquer pessoa, inclusive sobre si mesmo, pra dizer que aquela é a sua faceta real, o seu eu definitivo? 

Num mundo de relativos, não há espaço para o permanente. Tudo muda. Ou melhor, nada muda, porque nada chega a ser algo; a transformação é constante. Desse modo, não é contradição dizer: "Nada muda. Tudo muda." Tudo e nada são faces do mesmo plano relativo, e no relativo não há espaço para verdades absolutas.

Sei lá, é meio complicado, eu acho. Acho não, tenho certeza. Mas tenho mais certeza ainda que triste é quem morrer sem nunca se contradizer.

PS: Esses títulos são uma constante no meu computador, sempre que escrevo alguma babaquice que nem essa coloco o nome de "Sem título de xxxx", mas quando venho postar aqui, penso em algum título bonitinho ou pseudo-super intelectual. Agora vai, então, sem máscara e sem medo. Ou talvez, isso seja apenas mais uma máscara. Não sei.

PS2: Me deu uma vontade indescritível de passar um negrito nas frases que eu gostei mais, tenho esse TOC. Mas tô tentando resistir... se algum negrito aparecer, o TOC foi mais forte.

Rio, 7 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Transforme

É preciso ser transformado por aquilo que permeia; deve-se permitir que a beleza do mundo o toque, e com ela virão a crueldade, a secura, o amor, as águas, sempre, tudo, nada. Cada transformação é um nascimento, é preciso deixar-se renascer, mais e mais e mais e mais. Das cinzas do gesso o mundo tira a plasticidade da argila; de cada um de nós há o que colher, mas apenas se permitirmos o plantio. É preciso ser lama, ser água, ser vida, ser tudo. Somente assim seremos alguma coisa.


São Paulo, 2 de abril de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

O que há

Nada começa, nada termina, nada pausa. Tudo apenas está. E isso é o que existe: uma interminável sequência de “estás”, um atrás do outro, afogantes, asfixiantes, liberadores, vivos, intensos e intangíveis. Talvez por isso fujamos tanto do presente – porque achamos que, ao tentar tocá-lo, ele já não estará lá. Mas, se não é o presente que está lá, então o que é? O passado, o futuro? Não, é ele mesmo, o eterno presente, mas com uma diferença: ele é outro. A cada instante, a cada fração de segundo, o presente muda; não há no que se agarrar, não há coisas em comum, não há corda para descer ou subir, há apenas o fato de que tudo muda – e isso nos assusta. Mas não deveria, pois ao notar que tudo muda, percebe-se o outro lado da moeda: nada muda, pois nada há para mudar, nada há com o que comparar, apenas há.

“Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.”
- Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


São Paulo, 15 de março de 2010

sábado, 6 de fevereiro de 2010

domingo, 24 de janeiro de 2010

Aforismo nº 2

Sua total insignificância se evidencia ao notar quão ínfima parte do Todo você é; sua essencial importância reside no fato de que o Todo, sem você, é incompleto.

Rio, 23 de janeiro de 2010

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A boneca dela

A menina sorri enquanto agacha para pegar sua boneca do chão, após a queda lá do alto de uma prateleira que lhe parecia ter, no mínimo, uns duzentos metros de altura. Olha para cima, contemplando aquela enorme abismo invertido e pensa que talvez um dia vá crescer o suficiente para poder colocar a boneca lá de novo. Com esse pensamento — coisas de criança! — faz a si mesma uma promessa: “Juro pra Papai do Céu que essa boneca só vai ficar na prateleira de novo quando eu tiver tamanho pra botar ela lá sozinha. Juro, juro, juro!” e dá três beijinhos no seu dedo mindinho, fazendo uma espécie de pacto sombrio consigo mesma e quem quer que lhe observasse naquele instante.

Os centímetros se passam, os meses também, e a menina fica cada dia mais próxima de seu objetivo. Cada centímetro ganho é comemorado com um fuzuê de gritos e histeria que seu pai custa a entender.

E assim se vão cinco anos, ou meses, ou dias, ou minutos.

O pai entra no quarto, fita métrica em mãos, e se surpreende ao verificar que a prateleira está vazia e todas as velhas bonecas, guardadas numa caixa.
- E então, filhota? Conseguiu guardar a boneca na estante?
- Pai, fala sério. Tipo, tô super velha pra brincar de boneca.
A boneca, amontoada com suas velhas amigas, sorri amarelo enquanto a caixa se fecha sobre sua cabeça, trazendo uma escuridão que não mais findaria.

E os sonhos, planos, objetivos e metas nada foram, como nada seriam e nada serão até serem constituídos da única matéria-prima real: o aqui e agora.

Rio, 13 de janeiro de 2010