quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

A boneca dela

A menina sorri enquanto agacha para pegar sua boneca do chão, após a queda lá do alto de uma prateleira que lhe parecia ter, no mínimo, uns duzentos metros de altura. Olha para cima, contemplando aquela enorme abismo invertido e pensa que talvez um dia vá crescer o suficiente para poder colocar a boneca lá de novo. Com esse pensamento — coisas de criança! — faz a si mesma uma promessa: “Juro pra Papai do Céu que essa boneca só vai ficar na prateleira de novo quando eu tiver tamanho pra botar ela lá sozinha. Juro, juro, juro!” e dá três beijinhos no seu dedo mindinho, fazendo uma espécie de pacto sombrio consigo mesma e quem quer que lhe observasse naquele instante.

Os centímetros se passam, os meses também, e a menina fica cada dia mais próxima de seu objetivo. Cada centímetro ganho é comemorado com um fuzuê de gritos e histeria que seu pai custa a entender.

E assim se vão cinco anos, ou meses, ou dias, ou minutos.

O pai entra no quarto, fita métrica em mãos, e se surpreende ao verificar que a prateleira está vazia e todas as velhas bonecas, guardadas numa caixa.
- E então, filhota? Conseguiu guardar a boneca na estante?
- Pai, fala sério. Tipo, tô super velha pra brincar de boneca.
A boneca, amontoada com suas velhas amigas, sorri amarelo enquanto a caixa se fecha sobre sua cabeça, trazendo uma escuridão que não mais findaria.

E os sonhos, planos, objetivos e metas nada foram, como nada seriam e nada serão até serem constituídos da única matéria-prima real: o aqui e agora.

Rio, 13 de janeiro de 2010

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