segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mixed signals

O sinal se abriu. Ou não.
O condutor, ainda confuso com o breve lampejo de realidade ou ilusão, tentava em vão decidir qual seria seu próximo passo. Sabia que não sabia o que viria pela frente, e lembrou-se de caminhos andados e de sinais indecisos que já encontrara. Dividia-se em dois, fez-se carro e condutor e fez-se indecisão. Partiu em dois a realidade que o cercava e achou que fosse nítida a divisão. Se tivesse atentado mais para cada momento, perceberia que são entrelaçados, os dois mundos, o carro e o condutor, o sinal aberto e o fechado, o sim e o não. Constituem-se de entremeados eternos, que somente se desfazem no momento da decisão, para se refazerem novamente, na próxima encruzilhada, ou antes. Entre tantos devaneios, quase se esqueceu do sinal, que alternava entre aberto e fechado. Tinha certeza que de nada adiantaria forçar para que abrisse, e mesmo assim sua insistência beirou a falta de lógica. No entanto, sabia também que há tempos atrás esse sinal nada significava para ele e não entendia como agora poderia significar tanto; talvez ele mesmo tivesse criado essa significação, na busca de algo em que se segurar, algo para perseguir, um objetivo a alcançar. Pensou que talvez o mais importante não fosse o sinal, e sim o caminho percorrido até ele e o que seria percorrido após ele.
E com esse pensamento, o sinal se abriu. Ou não.

São Paulo, 26 de abril de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Aforismo nº 5

Nada realmente definitivo pode vir de outro lugar que não você.

São Paulo, 23 de abril de 2010

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Aforismo nº 4

O grande truque é não levar muito a sério.

Rio, 7 de abril de 2010

Sem título de 7 de abril de 2010

Não somente se dar nomenclaturas ou pertencer a certo grupo (religioso, político, social, etc.) restringe o ser humano, mas também a uniformidade de pensamento, a coerência no modo de se exprimir. Há de se permitir ser toda e qualquer coisa que o momento lhe propicia. 

Não é questão de se negar, mas de não negar a negação. De permitir que ela esteja ali, espreitando, do cantinho, como um diabrete que espia o seu sono e sabe que a qualquer momento pode se chamado ao trabalho. Ser outra pessoa não é um problema, porque é impossível! Sempre, aquela pessoa que você for no momento, é você. Nunca entendi muito bem essa história de "Você não está sendo você mesmo...". Ah, é? Então quem eu estou sendo? E, além do mais, quem sabe o suficiente sobre qualquer pessoa, inclusive sobre si mesmo, pra dizer que aquela é a sua faceta real, o seu eu definitivo? 

Num mundo de relativos, não há espaço para o permanente. Tudo muda. Ou melhor, nada muda, porque nada chega a ser algo; a transformação é constante. Desse modo, não é contradição dizer: "Nada muda. Tudo muda." Tudo e nada são faces do mesmo plano relativo, e no relativo não há espaço para verdades absolutas.

Sei lá, é meio complicado, eu acho. Acho não, tenho certeza. Mas tenho mais certeza ainda que triste é quem morrer sem nunca se contradizer.

PS: Esses títulos são uma constante no meu computador, sempre que escrevo alguma babaquice que nem essa coloco o nome de "Sem título de xxxx", mas quando venho postar aqui, penso em algum título bonitinho ou pseudo-super intelectual. Agora vai, então, sem máscara e sem medo. Ou talvez, isso seja apenas mais uma máscara. Não sei.

PS2: Me deu uma vontade indescritível de passar um negrito nas frases que eu gostei mais, tenho esse TOC. Mas tô tentando resistir... se algum negrito aparecer, o TOC foi mais forte.

Rio, 7 de abril de 2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Transforme

É preciso ser transformado por aquilo que permeia; deve-se permitir que a beleza do mundo o toque, e com ela virão a crueldade, a secura, o amor, as águas, sempre, tudo, nada. Cada transformação é um nascimento, é preciso deixar-se renascer, mais e mais e mais e mais. Das cinzas do gesso o mundo tira a plasticidade da argila; de cada um de nós há o que colher, mas apenas se permitirmos o plantio. É preciso ser lama, ser água, ser vida, ser tudo. Somente assim seremos alguma coisa.


São Paulo, 2 de abril de 2010