segunda-feira, 31 de maio de 2010

Uma tarde qualquer

- Eu... eu queria te falar uma coisa.
- Fala, ué.
- Assim? Agora?
- Sei lá, você que puxou o assunto.
- Eu sei, mas é porque eu queria te falar que eu queria te falar uma coisa, mas não queria te falar a coisa agora, entendeu?
- ... Não, mas tudo bem.
- Tá.
- Peraí. Simplifica: você vai falar agora ou não?
- Não.
- Ah...
- Mas se você quiser muito, eu até posso falar agora. Só não acho apropriado.
- Não, não, tudo bem, eu espero.
- Tem certeza?
- Tenho, tenho. Não esquenta.
- Tá.
- ...
- ...
- Chuvinha chata, né?
- É, sei lá, nada de mais.
- É que eu prefiro... eu prefiro quando o tempo se define, sabe. Essa história de mormaço não é maneira. Tem que ser oito, oitenta. Ou tá sol ou tá chuva. Ou quarenta graus ou quinze. Esse papo de vinte e oito não é comigo.
- Eu sou o quê, então?
- Você... Como assim?
- Qual temperatura eu sou?
- Você, sei lá, você é... você... sei lá, mas com certeza não é vinte e oito.
- Brigada.
- Nada.
- Fala agora?
- O quê?
- Aquele negócio que você falou que queria falar que queria me falar uma coisa, mas não ia falar a coisa.
- Então, o quê?
- A coisa, né.
- Ah... deixa pra lá.
- ...
- E eu? Quantos graus você acha que eu sou?
- ... Vinte abaixo de zero.
- ...
- Tenho que ir, tô atrasada já. [se beijam] Tchau. [levanta e vai embora]
- Me liga, tá? [ela continua andando e, sem se virar, levanta lentamente o dedo do meio acima da cabeça] Merda.


Rio, 31 de maio de 2010

segunda-feira, 24 de maio de 2010

História sem fim

A angústia, a solidão, o medo, o desejo, o prazer, os arranha-céus, as estradas esburacadas, as lembranças boas, as lembranças ruins, as lembranças, o apego, os móveis, os outros... Com tudo isso e muito mais o ser humano tenta tapar o vazio que existe dentro de si. Triste destino de nunca conseguir. Não há coisas suficientes para encher esse vazio, nem nunca haverá; nem todo o conhecimento, nem todo o universo preencheriam esse vazio, inerente à condição humana.

Mas e se ao invés de fugir desse buraco, o ser humano mergulhasse nele e se tornasse vazio, se tornasse o agora, se tornasse sem fim? Perceberia, então, que todo o conhecimento e todo o universo estavam lá dentro. Ele é que não sabia.

Rio, 24 de maio de 2010

Aforismo nº 7

Nada é mais importante que tudo.

Rio, 24 de maio de 2010

domingo, 9 de maio de 2010

Aforismo nº 6

A única coisa que temos realmente em comum é o fato de sermos todos diferentes.

Rio, 9 de maio de 2010