segunda-feira, 21 de junho de 2010

Sem título de 21 de junho de 2010

Transcendes meu olhar, sabendo que desafio-te a transcendê-lo e vens até a porta. Caminhando lentamente, sobes meu coração e, lá de cima, para mim és quase um ponto, mas para ti sou menos que isso, e enquanto sabes, é tortura. Se não soubesse, nada faria, pois nada é errado enquanto nada é certo. Então, o medo que tens, medo de si, medo de mim, medo do mundo, medo de tudo, te derruba — e a queda é interminável, como sopro e leveza, como fim e começo, como tudo no mundo. Que vontade insuportável de gritar “Acorda! Acorda e vê a verdade que sou, que és, que somos, que sentes!”, mas segues dormindo e meu grito não sai. Não sai talvez também por medo de ser o que sou, isto é: nada. Nada sou. Nada és. Mas sei que se te falar isso vais crer que é o “nada” da ausência, da impossibilidade, da não-existência. E em vão, tentarei explicar-te que é justamente o contrário. É o nada da presença de tudo, de todas as possibilidades, de todas as existências em potencial. Pois só pode ser tudo, o que nada é. E nada somos. Podemos ser tudo, e seríamos se acordássemos. Mas a queda é tua vida agora, e não conheces nada além dela, esquecestes de como é a ilusão do chão sob teus pés. Vives agora, caindo. O que não sabe é que não vives, morres. Acorda no sonho! Não "do" sonho, pois isso significaria o fim dele e tu nada serias literalmente. Serias o nada da não-existência. Acordas dentro do sonho! Pois que, sabendo que é sonho, tudo não é nada. E tudo sendo nada, tudo é possível, tudo é possibilidade. E então, somos nada. E somos tudo. Abre os olhos, lentamente, e vê a verdade. Veja a mim, como realmente sou, em meu vazio. Veja o vazio que tudo é. O vazio que é tudo, que tudo contém, que tudo abraça, que tudo aceita. E agora, de olhos abertos, caminhemos juntos pelos campos do sonho, sabendo que sonho é e que sonho somos.

Rio, 21 de junho de 2010

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Um pouquinho de metalinguagem

pra esclarecer esse tal de "Reações" que eu coloquei embaixo de cada postagem.

Leitor hipotético: — Reações: sim, mais ou menos, não... isso seria tipo, gostei, gostei mais ou menos e não gostei?
Eu: — Sim. Mais ou menos. Ou não.

Tá, isso foi sacanagem. Sério. Tanto que depois a conversa continuou.

Leitor hipotético: —Ah cara, não entendi, que coisa complicada! "Sim" é tipo "concordo", "sim" é tipo "ficou legal"? "Mais ou menos" é tipo "depende", "mais ou menos" é tipo "não ficou tão bom"? "Não" é tipo "discordo", "não" é tipo "ficou um cocô"?
E eu: —Mas foi exatamente por isso que eu coloquei desse jeito! O "sim" é tudo que você quiser que ele seja e, ao mesmo tempo, tudo que eu entender que seja. (A mesma coisa serve pro "mais ou menos" ou pro "não".) Se quiser fazer algum comentário explicado, é melhor fazer um comentário. Literalmente. Se não, clica em qual das três palavras vc se identifica mais ao pensar no texto que vc acabou de ler. Simples assim.

Né?

Rio, 16 de junho de 2010

PS: Já até prevejo alguém bem engraçado clicando "Não" nessa postagem, só de sacanagem...
PS 2: E por "leitor hipotético", é claro que eu quero dizer "minha irmã". Aliás, brigado!

terça-feira, 15 de junho de 2010

O que importa em tempos de Copa

Sempre que começam esses grandes eventos esportivos é a mesma mentirada. Todo mundo dizendo que é uma “grande confraternização entre países”, uma “festa do esporte mundial”, etc. No caso do Brasil, o que melhor demonstra essa mentirada é a Copa do Mundo de Futebol. Nas Olimpíadas, a gente até vai com o coração aberto, são tantas competições, e o país não tem lá um histórico que gere grandes expectativas no âmbito olímpico geral. Olimpíadas de Inverno, então, nem se fala. Deve ter uns cinco brasileiros... assistindo. Mas na Copa do Mundo não. A Copa do Mundo é diferente. O Brasil é o país que foi mais vezes campeão, o único país a ser campeão fora de seu continente e o único país a participar de TODOS os campeonatos! Pra Copa do Mundo a gente vai de cabeça erguida, sempre sabendo que somos favoritos e criando grandes expectativas.

Na verdade, quando eu disse que a Copa não tem confraternização, não foi bem a verdade. Tem sim. De quarenta minutos. É o tempo que dura a cerimônia de abertura (aliás, realizada duas horas antes do primeiro jogo, que é pra não perder tempo com essa história de musiquinha, dancinha, discursozinho). Os outros cinco mil setecentos e sessenta minutos serão passados em ferrenhas disputas entre 22 gladiadores, cercados pelos urros e vuvuzelas ensurdecedores de até noventa mil espectadores, sem contar os milhões assistindo em seus países (também aos urros e com vuvuzelas). Uma coisa é certa: existe a confraternização, mas ela não é do “esporte”, ou “entre países”. Ela é de cada país consigo mesmo, numa espécie de delírio ufanista.

Sejamos realistas e práticos. Há dois caminhos: ou o Brasil vai ser campeão ou não vai. Se ele for campeão, esqueceremos todos os problemas (que não são poucos) de nosso país por alguns dias, enchendo as ruas de cores convencionadas. Se o Brasil não for campeão, é porque em algum momento ele foi eliminado. Nesse momento, talvez uns cinco ou seis indivíduos, entre os duzentos milhões que habitam esse país, aceitem a derrota e o fato de que o outro país provavelmente jogou melhor. Os outros cento e noventa e nove milhões novecentos e noventa e quatro (ou cinco) estarão muito ocupados xingando a mãe do juiz, ou do Dunga, ou de algum dos vinte e dois escolhidos para representar nosso país; talvez optem pelo caminho alternativo, e xinguem as mães dos jogadores e técnico do outro país, que a partir daquele momento estará, para sempre, rebaixado no status diplomático com o Brasil. Ou pelo menos até que vençamos dele, recuperando nosso orgulho como seres humanos.

Então não me venham com esse papo de confraternização mundial ou do esporte ou de coisa alguma, a não ser duzentos milhões de pessoas. O que importa, para esses milhões, não é competir, é ganhar. E os estrangeiros que se cuidem.

Se alguém duvidar, é só sair com uma camisa de Portugal na rua. Ou se acharem uma da Coreia do Norte ou da Costa do Marfim, podem tentar também. A tal da confraternização vai por água abaixo.

Rio, 15 de junho de 2010 
(15 minutos antes do primeiro jogo do Brasil)

PS: Aliás, eu aprendi essa expressão "vuvuzela" outro dia, tipo... ontem. Pra mim sempre foi corneta. Qual o problema em falar corneta?

PS2: Acabei de descobrir que "vuvuzela" é uma corneta específica, da África do Sul. Vivendo e aprendendo. De qualquer forma, deixei no texto "vuvuzela" porque é uma palavra tão esdrúxula que vale a pena.

sábado, 12 de junho de 2010

Jiddu Krishnamurti nº 1

Madanapalle - Índia, 11 de maio de 1895 — Ojai - Califórnia, 17 de fevereiro de 1986
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(editado em 14 de junho de 2010 - o texto que eu tinha colocado aqui, originalmente, pode ser visto aqui [em inglês] e aqui [em português - a tradução é do Google, então é meio difícil entender algumas coisas])

You may remember the story of how the devil and a friend of his were walking down the street, when they saw ahead of them a man stoop down and pick up something from the ground, look at it, and put it away in his pocket. The friend said to the devil, “What did that man pick up?” “He picked up a piece of Truth,” said the devil. “That is a very bad business for you, then,” said his friend. “Oh, not at all,” the devil replied, “I am going to let him organize it."

Vocês devem lembrar a história de como o diabo e um amigo estavam andando por uma rua, quando viram um pouco mais à frente um homem se agachar e pegar algo do chão, olhar para aquilo, e guardar em seu bolso. O amigo disse para o diabo, "O que aquele homem pegou?" "Ele pegou um pedaço da Verdade," disse o diabo. "Isso é bem ruim pra você, então," disse seu amigo. "Oh, de modo algum," o diabo respondeu, "eu vou deixar o homem organizá-lo." 

Mais sobre Krishnamurti em: Wikipedia (inglês), Wikipédia (português), Krishnamurti Foundation of America (inglês), Instituição Cultural Krishnamurti (português)

Libertação

para "vovó" Célia 

Eu sempre fui um rapaz pequeno. Talvez pequeno até demais. Pequeno, pois nunca tive espaço para crescer. É como a semente que germina enclausurada numa caixa minúscula, e termina por gerar uma árvore pequena, espremida, amedrontada.

Meus últimos anos foram passados dentro de um quarto minúsculo. Isso porque meus pais haviam falecido em um incêndio criminoso. Desde aquele dia eu morava, para minha total infelicidade, com minha madrinha. E, desde aquele dia – talvez até antes dele – eu a odiava. Quatro metros quadrados de chão por dois de altura. Esse foi o todo o espaço que eu tive para crescer durante todos esses anos.

Eu nunca vou esquecer da senhora que me salvou. Provavelmente beirando os oitenta anos, estatura diminuta, cabelos brancos já ralos e o corpo envergando pelos desprazeres que a terceira idade traz. Seus óculos, grossos e largos, tornavam seus olhos duas bolas de tênis. Seu sorriso, gentil, amaciou meus ânimos, assim como meu coração. Sua voz soou para mim como a mais bela música já tocada.

“Meu filho”, disse, “você está vivo.”
Ora, mas que coisa, “É claro que estou vivo”, respondi.
“Você, meu filho, ultrapassou as barreiras da fome, da dor, da necessidade e das doenças. Você está livre. Livre como nunca.”

Foi como se um filme passasse pela minha cabeça em frações de segundo. Então a verdade, como um caminhão, me atingiu. Eu estava morto. 

“Nã... não. Não pode ser”, balbuciei.
"Filho, entenda, o que lhe aconteceu não foi uma punição. Foi um presente. Foi amor, foi libertação."

Ao ouvir essa última palavra, meus olhos se abriram e eu vi tudo enquanto não via nada. Estava em todos os lugares, mas ao mesmo tempo, em lugar algum. A beleza do mundo se chocou contra mim como a água que cai de uma cachoeira. O frescor da água, o toque suave do vento e a beleza impecável da floresta. Todos reunidos em uma coisa só. 
Dois pontos distantes se aproximavam rapidamente. Num piscar de olhos, eles estavam ali, a um palmo de meu nariz. 
“Pai. Mãe."

Eu disse sem falar, ouvi sem escutar e pensei sem saber como pensar. Aquela senhora tinha razão. Eu estava livre. Livre como nunca. Livre como sempre.

Rio, ? de ? de 2006

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Paulo Waldemar Ribeiro Falcão nº 2

(do livro "O Cristalino Espírito da Vida")

Meu neto Gabriel

O riso do meu neto é indescritível
É misto de amor com luz e mel
Deixar de admirá-lo é impossível
O nome do meu neto é Gabriel

Bochecha do meu neto é coisa incrível
Macia e fofa como um bom pastel
Deixar de dar-lhe um beijo é impossível
O nome do meu neto é Gabriel

Os olhos do meu neto são incríveis
Azuis e transparentes como o céu
Deixar de amar seus olhos, impossível
O nome do meu neto é Gabriel

A simpatia dele é irresistível
Derruba até um muro de quartel...
Se alguém acha que isto é inadmissível
Eu escrevo e certifico num papel

Quanto mais velho, mais gostoso o vinho
Por isso a gente guarda num tonel
Hei de guarda o amor do meu netinho
Por toda a eternidade do meu céu...

PS meu (GF): Meus olhos depois viraram verdes, mas... e daí?

Paulo Waldemar Ribeiro Falcão nº 1

Fortaleza - CE, 13 de abril de 1925 — Rio de Janeiro - RJ, 21 de abril de 2002

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(do livro "O Cristalino Espírito da Vida")


Vox Cordis

Todo poeta é sempre um desligado
A viver sempre em seu interior
Com o próprio coração ao seu dispor
O amor à alma condicionado

Juntar a emoção ao sentimento
Unir o coração à própria mente
Procurar ser veraz e coerente
Ter a verdade como um monumento

Ser-se poeta embora se pareça
Com o atuar sem usar a cabeça
Agindo aéreo, vago, sem noção

Contudo, nunca um ser é tão preciso
Jamais age tão certo e tão conciso
Pois canta pela voz do coração!...

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Aforismo nº 9

Você pode chamar uma girafa de "elefante", mas isso não vai fazer dela um elefante.

Rio, 10 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O aeroporto

O aeroporto, o avião, as aeromoças, o piloto, as cadeiras semi-confortáveis, a altitude, tudo é inebriante como um sonho. O primeiro, com suas paredes cinzas e seu ar-condicionado central; seus seguranças e varredores; seus banheiros e avisos; nos remete ao mundo ideal (para alguns), onde a temperatura é controlada, o chão encerado de hora em hora, os seguranças são gentis, e a voz de Deus vem lhe avisar dos próximos compromissos de um modo extremamente sensual, embora irritante após um certo tempo. O segundo, com sua tentativa eterna de se mostrar como conforto pleno. Enquanto tento, em vão, ajustar-me à posição um tanto quanto incômoda da cadeira excessivamente espremida de um avião idem, me vem um pensamento à memória. Tento agarrá-lo, mas ele foge, arisco como um gato selvagem, e perde-se nos caminhos turvos da mente. Olho para o lado, uma senhora, mãos espalmadas uma contra a outra, na frente do rosto, faz suas preces a todos os santos que possam manter o avião planando (tenho a impressão de ouvir ela apelar para o próprio Jesus uma hora, mas não posso afirmar com certeza). Mais adiante, em direção à outra janela, um jovem escuta sua música através de fones, certamente em níveis ensurdecedores. E exatamente agora, em algum lugar do mundo, alguém está nascendo, alguém está amando, alguém está sofrendo, alguém está morrendo. Nesse exato momento presente, o mundo inteiro está acontecendo. E a gente nem nota.

Rio, ? e 4 de junho de 2010

Um pouquinho de História: encontrei metade desse texto hoje, arrumando arquivos aqui no computador. Ia deletá-lo, mas foi mais forte que eu e acabei escrevendo mais e postando aqui, sei lá porquê.