sábado, 12 de junho de 2010

Libertação

para "vovó" Célia 

Eu sempre fui um rapaz pequeno. Talvez pequeno até demais. Pequeno, pois nunca tive espaço para crescer. É como a semente que germina enclausurada numa caixa minúscula, e termina por gerar uma árvore pequena, espremida, amedrontada.

Meus últimos anos foram passados dentro de um quarto minúsculo. Isso porque meus pais haviam falecido em um incêndio criminoso. Desde aquele dia eu morava, para minha total infelicidade, com minha madrinha. E, desde aquele dia – talvez até antes dele – eu a odiava. Quatro metros quadrados de chão por dois de altura. Esse foi o todo o espaço que eu tive para crescer durante todos esses anos.

Eu nunca vou esquecer da senhora que me salvou. Provavelmente beirando os oitenta anos, estatura diminuta, cabelos brancos já ralos e o corpo envergando pelos desprazeres que a terceira idade traz. Seus óculos, grossos e largos, tornavam seus olhos duas bolas de tênis. Seu sorriso, gentil, amaciou meus ânimos, assim como meu coração. Sua voz soou para mim como a mais bela música já tocada.

“Meu filho”, disse, “você está vivo.”
Ora, mas que coisa, “É claro que estou vivo”, respondi.
“Você, meu filho, ultrapassou as barreiras da fome, da dor, da necessidade e das doenças. Você está livre. Livre como nunca.”

Foi como se um filme passasse pela minha cabeça em frações de segundo. Então a verdade, como um caminhão, me atingiu. Eu estava morto. 

“Nã... não. Não pode ser”, balbuciei.
"Filho, entenda, o que lhe aconteceu não foi uma punição. Foi um presente. Foi amor, foi libertação."

Ao ouvir essa última palavra, meus olhos se abriram e eu vi tudo enquanto não via nada. Estava em todos os lugares, mas ao mesmo tempo, em lugar algum. A beleza do mundo se chocou contra mim como a água que cai de uma cachoeira. O frescor da água, o toque suave do vento e a beleza impecável da floresta. Todos reunidos em uma coisa só. 
Dois pontos distantes se aproximavam rapidamente. Num piscar de olhos, eles estavam ali, a um palmo de meu nariz. 
“Pai. Mãe."

Eu disse sem falar, ouvi sem escutar e pensei sem saber como pensar. Aquela senhora tinha razão. Eu estava livre. Livre como nunca. Livre como sempre.

Rio, ? de ? de 2006

3 comentários:

Monalisa Marques disse...

Cara, até eu ler o marcador "ficção", fiquei completamente "oi?".
Pensei em Desventuras em Série, Harry Potter, pensei em tanta coisa!
Mas, durante o terceiro parágrafo, desci até a assinatura pra ver se tinha um marcador e o encontrei lá, afinal.
Depois, percebi que não se tratava de nenhuma desventura de nenhum irmão Baudelaire ou nenhum jovem bruxo: Tratava-se de uma história muito bem escrita.

Gostei.
:)

Viviane Falcão disse...

também gostei, principalmente do marcador...

Anônimo disse...

Poxa, estou terminando de ler Desventuras em Série agora, e a primeira coisa que pensei foi que estava lendo um trexo do último livro que ainda li. Mas depois vi que na verdade era SUA essa perfeita criação. Parabéns, fico no aguardo de um livro seu, que com certeza irei comprar e devorar ele todo (devorar no sentido de ler, claro). Obrigada por me inspirar.