sexta-feira, 4 de junho de 2010

O aeroporto

O aeroporto, o avião, as aeromoças, o piloto, as cadeiras semi-confortáveis, a altitude, tudo é inebriante como um sonho. O primeiro, com suas paredes cinzas e seu ar-condicionado central; seus seguranças e varredores; seus banheiros e avisos; nos remete ao mundo ideal (para alguns), onde a temperatura é controlada, o chão encerado de hora em hora, os seguranças são gentis, e a voz de Deus vem lhe avisar dos próximos compromissos de um modo extremamente sensual, embora irritante após um certo tempo. O segundo, com sua tentativa eterna de se mostrar como conforto pleno. Enquanto tento, em vão, ajustar-me à posição um tanto quanto incômoda da cadeira excessivamente espremida de um avião idem, me vem um pensamento à memória. Tento agarrá-lo, mas ele foge, arisco como um gato selvagem, e perde-se nos caminhos turvos da mente. Olho para o lado, uma senhora, mãos espalmadas uma contra a outra, na frente do rosto, faz suas preces a todos os santos que possam manter o avião planando (tenho a impressão de ouvir ela apelar para o próprio Jesus uma hora, mas não posso afirmar com certeza). Mais adiante, em direção à outra janela, um jovem escuta sua música através de fones, certamente em níveis ensurdecedores. E exatamente agora, em algum lugar do mundo, alguém está nascendo, alguém está amando, alguém está sofrendo, alguém está morrendo. Nesse exato momento presente, o mundo inteiro está acontecendo. E a gente nem nota.

Rio, ? e 4 de junho de 2010

Um pouquinho de História: encontrei metade desse texto hoje, arrumando arquivos aqui no computador. Ia deletá-lo, mas foi mais forte que eu e acabei escrevendo mais e postando aqui, sei lá porquê.

4 comentários:

Bia Mello disse...

porque é mto bom e tem uma pessoa aqui que sempre dá uma passadinha pra ler seus textos :D

Viviane Falcão disse...

duas!

Monalisa Marques disse...

A gente sabe, mas não nota. A gente não nota quase nada.

Anônimo disse...

Lindo, profundo e ao mesmo tempo leve, muito leve. Você é um ótimo escritor. Obrigada por me inspirar