terça-feira, 15 de junho de 2010

O que importa em tempos de Copa

Sempre que começam esses grandes eventos esportivos é a mesma mentirada. Todo mundo dizendo que é uma “grande confraternização entre países”, uma “festa do esporte mundial”, etc. No caso do Brasil, o que melhor demonstra essa mentirada é a Copa do Mundo de Futebol. Nas Olimpíadas, a gente até vai com o coração aberto, são tantas competições, e o país não tem lá um histórico que gere grandes expectativas no âmbito olímpico geral. Olimpíadas de Inverno, então, nem se fala. Deve ter uns cinco brasileiros... assistindo. Mas na Copa do Mundo não. A Copa do Mundo é diferente. O Brasil é o país que foi mais vezes campeão, o único país a ser campeão fora de seu continente e o único país a participar de TODOS os campeonatos! Pra Copa do Mundo a gente vai de cabeça erguida, sempre sabendo que somos favoritos e criando grandes expectativas.

Na verdade, quando eu disse que a Copa não tem confraternização, não foi bem a verdade. Tem sim. De quarenta minutos. É o tempo que dura a cerimônia de abertura (aliás, realizada duas horas antes do primeiro jogo, que é pra não perder tempo com essa história de musiquinha, dancinha, discursozinho). Os outros cinco mil setecentos e sessenta minutos serão passados em ferrenhas disputas entre 22 gladiadores, cercados pelos urros e vuvuzelas ensurdecedores de até noventa mil espectadores, sem contar os milhões assistindo em seus países (também aos urros e com vuvuzelas). Uma coisa é certa: existe a confraternização, mas ela não é do “esporte”, ou “entre países”. Ela é de cada país consigo mesmo, numa espécie de delírio ufanista.

Sejamos realistas e práticos. Há dois caminhos: ou o Brasil vai ser campeão ou não vai. Se ele for campeão, esqueceremos todos os problemas (que não são poucos) de nosso país por alguns dias, enchendo as ruas de cores convencionadas. Se o Brasil não for campeão, é porque em algum momento ele foi eliminado. Nesse momento, talvez uns cinco ou seis indivíduos, entre os duzentos milhões que habitam esse país, aceitem a derrota e o fato de que o outro país provavelmente jogou melhor. Os outros cento e noventa e nove milhões novecentos e noventa e quatro (ou cinco) estarão muito ocupados xingando a mãe do juiz, ou do Dunga, ou de algum dos vinte e dois escolhidos para representar nosso país; talvez optem pelo caminho alternativo, e xinguem as mães dos jogadores e técnico do outro país, que a partir daquele momento estará, para sempre, rebaixado no status diplomático com o Brasil. Ou pelo menos até que vençamos dele, recuperando nosso orgulho como seres humanos.

Então não me venham com esse papo de confraternização mundial ou do esporte ou de coisa alguma, a não ser duzentos milhões de pessoas. O que importa, para esses milhões, não é competir, é ganhar. E os estrangeiros que se cuidem.

Se alguém duvidar, é só sair com uma camisa de Portugal na rua. Ou se acharem uma da Coreia do Norte ou da Costa do Marfim, podem tentar também. A tal da confraternização vai por água abaixo.

Rio, 15 de junho de 2010 
(15 minutos antes do primeiro jogo do Brasil)

PS: Aliás, eu aprendi essa expressão "vuvuzela" outro dia, tipo... ontem. Pra mim sempre foi corneta. Qual o problema em falar corneta?

PS2: Acabei de descobrir que "vuvuzela" é uma corneta específica, da África do Sul. Vivendo e aprendendo. De qualquer forma, deixei no texto "vuvuzela" porque é uma palavra tão esdrúxula que vale a pena.

Um comentário:

Line=^^= disse...

Olha só,eu faço parte dos 5 ou 6...