quinta-feira, 29 de julho de 2010

Atlas rumo a Occam

Por isso carrego tudo: por não saber carregar. Cada peso, cada coisa, traz consigo o mundo inteiro e a recíproca é verdadeira. Só existe o medo de soltar o peso e ele te esmagar. Saímos de si, saímos de tudo para nos julgarmos donos de algo, senhores de alguma verdade relativa que só existe dentro de nossos próprios cérebros. Somos nada. Senhores de coisa alguma. Temos, em nossas mãos, o destino do mundo inteiro e nem por isso nos tornamos chefes do que quer que seja. Somos o futuro, mas nem por isso ele nos pertence; somos o passado, mas nem por isso ele nos obedeceu; somos o presente, e continuaremos a ser inconstantes a cada passo. Humanos demais, e graças a Deus, ironicamente. Somos uma multidão de Atlas a levantar com os ombros esse peso insuportável de ser normal. Porque é tão difícil soltar? Porque é tão difícil saber, sentir, tocar, amar, pensar? Não é! Não é! Não é! O problema, no fim das contas, é que é fácil demais. E, numa escolha, a nossa última escolha seria a de Occam. Mas assim tem que ser, pois depois dela não existe nada. Ou melhor, existe o vazio. Existe tudo. Existe nós, de verdade, sem máscara e sem forma e sem nome e sem nada. E com tudo.

Rio, 29 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Aforismo nº 10

A vida é um sopro. Leve, fugaz e preciosa como um sopro.

Rio, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Música e sorrisos / Céu estrelado

para Rafael Mascarenhas, sempre.

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Música e sorrisos

Vai em paz, meu amigo querido!
Só harmonia trouxe a tua estada.
Mas a vida sempre se bifurca
e estamos sós, pela estrada.

Mais à frente, com certeza,
seremos juntos outra vez
fazendo música e sorrisos,
como aqui você já fez.

No entanto, enquanto isso,
vou cumprindo meu serviço,
em lágrimas, que me afogo.

Só queria muito te dizer,
e sei que hás de entender,
não “Adeus”, mas “Até logo”.

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Céu estrelado

Para nós, quando crianças
nossos pais bem nos diziam
que as pessoas que morriam
viveriam nas lembranças...

e, então, as mãos nas minhas
me contavam, sem maldade,
pra eu saber que a verdade:
é que “Elas viram estrelinhas”.

Hei de, então, vencer o medo
e contar o meu segredo,
só cumprindo meu papel:

a saudade aqui já está
e espero a noite, enfim, chegar
pra te procurar no céu.

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Às vezes, as palavras não fazem a menor diferença e o único discurso que pode ser feito é de lágrimas. As palavras não conseguem, em horas como essas, expressar a saudade e a dor e o amor e tudo que há; elas apenas ajudam a sarar um pouquinho, e mesmo que seja só um pouquinho, se eu posso pedir uma coisa, só uma, juro, é que cheguem até ele como um abraço muito apertado, que era tudo que eu queria poder fazer agora. Só um abraço... Agora, que sua música e sua alegria vão encantar outros ares, nosso mundo ficou um pouco mais silencioso. Você foi luz, é luz e vai sempre ser luz nos nossos corações, vidas e lembranças. Vai em paz, meu parceiro, meu amigo, meu irmão. Muito amor e muita luz e muita paz e muito obrigado por tudo!

Rio, 20 de julho de 2010 

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Auta de Souza nº 1

Macaíba - RN, 12 de setembro de 1876 — Natal - RN, 7 de fevereiro de 1901

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(do livro "Horto")

Ao Pé do Túmulo

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais...

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
"Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais". 

Mais sobre Auta de Souza em: Wikipédia (português)