domingo, 22 de agosto de 2010

Eldorado

Ainda que falasse tudo e entendesse
como não foi, como nunca será,
certamente, do fundo dos meus olhos
uma lágrima nasceria, somente pra te dizer
que tudo que é você e tudo que eu te sou
é nada perto do que seria
se fôssemos, como fomos, um.

De quando, os longos braços dizem adeus,
somente para se abraçar de novo no dia seguinte.
E as mãos, ao se tocarem, perceberão o que há;
mas nunca nos dirão que viram
o raiar do dia de um, dentro do outro.

E o sol, brilhando sobre o ouro,
um dia fará ver a cidade perdida, dentro de mim,
dentro de ti, dentro de nós, a cidade partida
que só anseia pela unidade, quer ser toda,
ser cheia, ser uma, outra vez.

É esse fogo que me consome,
e te consome
sem perceber.
E esse fogo, seria fogo,
será meu fogo,
e meu somente
pois sem você. 

Rio, 22 de agosto de 2010

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma história

Enquanto seus olhares se interpenetram, seja deitados na cama ou sentados no chão, o futuro e passado tornam-se dispensáveis, inexistentes, estúpidos; há apenas o olhar, somente existe o olho, todo o resto é coisa, tudo é sem foco. Através do olho, adentram a alma um do outro e vêem a si mesmos, em sua infinitude. Isso é sem nome e é sem rótulo, e graças a nós que é assim. No entanto, talvez a não-presença de um rótulo nos impeça de percebê-lo pelo que é realmente, vendo-o apenas pelo que parece ser, acostumados que estamos a rotular tudo.

Notam mais aqueles momentos em que são embaçados, de quando em quando, pelo medo, que ali busca fingir que habita. Como um muro, entre um e outro, entre um e si mesmo, entre o que há e o que pode haver, entre o amor e o amor, entre tudo e nada, o medo estimula o medo. E assim perpetua-se a si mesmo, como vício sem começo e sem fim. Em breves relances de olhar-por-cima-do-muro, o que vêem é campo, é flor, é sem fim, é mar, é paz; mas então a gravidade puxa de volta para baixo e outra vez há apenas tijolos à frente. E então se vão, confusos sobre o que nunca será e o que nunca deixará de ser.

E enquanto caminha, cabisbaixo, o rapaz pensa no que seria e no que não será; enquanto caminha, vacilante, a moça pensa no que não seria e no que será. A diferença sutil de pensamento é que os faz caminhar em direções diferentes, com passadas iguais. (Estarão se afastando, ao prosseguirem assim? Ou o planeta onde se encontram é pequeno demais, e acabarão se encontrando em algum ponto?)

Cada um teme ter tomado o caminho errado mas, no fim, perceberão que todos os caminhos são certos quando se é sincero consigo mesmo e com o próximo. E os caminhos, certos e errados, levarão invariavelmente ao mesmo ponto. Só não se sabe qual.

Uma coisa é certa: ao tentar demais, nada se consegue. O esforço em prol de uma "ação supostamente correta" é vazio, é gasto, é em vão. É somente percebendo o que realmente se quer no nível mais profundo, aqui e agora, que se atinge a verdade. O resto é história.

Rio, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Eckhart Tolle nº 1

(do livro "Um Novo Mundo"*)  


No final da década de 1970, eu almoçava todos os dias com um ou dois amigos no restaurante do centro de graduação da Universidade de Cambridge, onde estudava. Havia um homem numa cadeira de rodas que algumas vezes se sentava próximo a nós, em geral acompanhado de três ou quatro pessoas. Um dia, quando ele estava sentado à mesa diretamente oposta à minha, não pude deixar de observá-lo e fiquei chocado com o que vi. Seu corpo parecia quase todo paralisado. Magro ao extremo, a cabeça pendendo para a frente. Um de seus acompanhantes colocava a comida na sua boca com todo o cuidado, porém uma grande parte dela sempre caía de volta no pratinho que outra pessoa segurava embaixo do queixo dele. De vez em quando, o homem emitia sons roucos ininteligíveis. Então alguém aproximava o ouvido da sua boca e, de forma incrível, interpretava o que ele estava tentando dizer.

Mais tarde, perguntei ao meu amigo se ele sabia quem era aquele homem. "Claro que sei. É um professor de matemática. As pessoas que o acompanham são seus alunos de graduação. Ele tem uma doença que paralisa progressivamente todos os músculos do corpo. Viverá, no máximo, uns cinco anos. Esta deve ser uma das mais terríveis fatalidades que podem recair sobre um ser humano."

Poucas semanas depois, eu estava saindo do prédio enquanto ele estava entrando. No momento em que segurei a porta para que a cadeira de rodas pudesse passar, nossos olhares se cruzaram. Com surpresa, vi que os olhos dele estavam límpidos. Não mostravam nenhum sinal de infelicidade. Percebi no ato que aquele homem havia abandonado a resistência — estava vivendo no estado de rendição.

Anos depois, enquanto comprava um jornal numa banca, fiquei impressionado ao vê-lo na primeira página de uma renomada revista internacional. Ele não só continuava vivo, como tinha se tornado o mais célebre físico teórico do mundo, Stephen Hawking. Havia uma bela frase no artigo que confirmava o que eu sentira quando nossos olhares se cruzaram, muitos anos antes. Comentando a própria vida, ele disse (agora por meio de um sintetizador de voz): "Quem poderia querer mais?"

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Para saber mais sobre Eckhart Tolle, acesse: Wikipédia (português), Wikipedia (inglês), EckhartTolle.com (inglês), EckhartTeachings (youtube - inglês)

*(disponível em Americanas.com, Saraiva.com.br, Livraria Cultura)