quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Uma história

Enquanto seus olhares se interpenetram, seja deitados na cama ou sentados no chão, o futuro e passado tornam-se dispensáveis, inexistentes, estúpidos; há apenas o olhar, somente existe o olho, todo o resto é coisa, tudo é sem foco. Através do olho, adentram a alma um do outro e vêem a si mesmos, em sua infinitude. Isso é sem nome e é sem rótulo, e graças a nós que é assim. No entanto, talvez a não-presença de um rótulo nos impeça de percebê-lo pelo que é realmente, vendo-o apenas pelo que parece ser, acostumados que estamos a rotular tudo.

Notam mais aqueles momentos em que são embaçados, de quando em quando, pelo medo, que ali busca fingir que habita. Como um muro, entre um e outro, entre um e si mesmo, entre o que há e o que pode haver, entre o amor e o amor, entre tudo e nada, o medo estimula o medo. E assim perpetua-se a si mesmo, como vício sem começo e sem fim. Em breves relances de olhar-por-cima-do-muro, o que vêem é campo, é flor, é sem fim, é mar, é paz; mas então a gravidade puxa de volta para baixo e outra vez há apenas tijolos à frente. E então se vão, confusos sobre o que nunca será e o que nunca deixará de ser.

E enquanto caminha, cabisbaixo, o rapaz pensa no que seria e no que não será; enquanto caminha, vacilante, a moça pensa no que não seria e no que será. A diferença sutil de pensamento é que os faz caminhar em direções diferentes, com passadas iguais. (Estarão se afastando, ao prosseguirem assim? Ou o planeta onde se encontram é pequeno demais, e acabarão se encontrando em algum ponto?)

Cada um teme ter tomado o caminho errado mas, no fim, perceberão que todos os caminhos são certos quando se é sincero consigo mesmo e com o próximo. E os caminhos, certos e errados, levarão invariavelmente ao mesmo ponto. Só não se sabe qual.

Uma coisa é certa: ao tentar demais, nada se consegue. O esforço em prol de uma "ação supostamente correta" é vazio, é gasto, é em vão. É somente percebendo o que realmente se quer no nível mais profundo, aqui e agora, que se atinge a verdade. O resto é história.

Rio, 19 de agosto de 2010

3 comentários:

Guilherme Udo disse...

Tenho que confessar que lia seu blog sem comentar, mas hoje resolvi comentar! Adoro seus textos! =)

Malu Paixão disse...

ótimas análises menino! realmente encantador.
saber que esses caminhos nos levarão a um determinado lugar premeditado nos conforta... ou talvez nos assuste... nem sei!
bjãoo

Artes disse...

Os seus textos passam nas pessoas algo bom e de conforto. Sempre é bom
ler bons textos que transmitem alivio e otimismo.
Beijos