sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma ilha

Todo homem é uma ilha. Náufrago de si mesmo, continuamente a buscar pontes, criar linguagens, formas de comunicação, de atravessar a nado as aparentemente intransponíveis léguas de pura água. Cada homem é uma ilha e nessa ilha não há nada; não há árvores, areia, terra, chão, céu, água ou mesmo ar; na ilha de cada um há somente o intangível, o imutável, o verdadeiro, o eterno. Ao aceitar o fato de que estamos permanentemente sós, é fácil notar que o mundo não nos dá o que não tem, impossibilidade de suas próprias limitações. Somente pode nos dar a nós mesmos, e isso é o que busca com suas pontes de madeira, que nunca alcançam a ilha em si. E do outro lado, no nível mais profundo, é puramente lógico notar que se cada ilha é nada, todas as ilhas são uma. Um imenso e amoroso nada, buraco-negro sempre a nos sugar em sua direção, embora teimemos em ser contrários ao caminho que nos mostra. Nesse nada, vê-se que o aparente oposto é também verdadeiro: nenhum homem é uma ilha, pois todos os homens são uma ilha. John Donne nos dizia e ainda nos diz a verdade de sua própria ilha, que não é outra senão a de todos nós. Estamos lado a lado sempre, em cima e embaixo, sonoramente em silêncio e caminhamos rumo à nossa própria aceitação. A ilha, então, procura sempre ser percebida e aceita, como ilha que não é prisão e, sim, libertação. 

Rio, 24 de setembro de 2010

Um comentário:

Malu Paixão disse...

viver intercalando os pensamentos de que 'somos' e 'não somos' ilhas isoladas nos leva a mais um milhão de dúvidas. O fato é que, sozinhos ou não, todos nós somos muito parecidos.
Parabéns (mais uma vez) Gabriel. Vc brinca MUITO BEM com as palavras. Gosto de ler suas reflexões. Mto bom!!! bjão.