domingo, 28 de novembro de 2010

Quando eu me for

Quando eu me for
e o corpo vazio restar entre árvores
não me façam estátuas
não me forjem placas
não me façam mito
não me ergam monumentos.

Quando eu estiver longe e perto
e a vida sem nome planar entre pássaros
lembrem, mas não se apeguem
guardem, mas não endureçam
chorem, mas não por tristeza
vejam, mas não se fixem.

Quando tudo for justo
e o plano findar, escrito em linhas longas,
vejam meus olhos
doem meus órgãos
cremem meu corpo
joguem meus restos.

Aonde?
Não sei. Nem me interessa...
Não sou meus restos, não sou meu corpo, não sou meus órgãos, não sou meus olhos,
Não sou Gabriel, não sou José, não sou Fernando, não sou humano.
Sou vocês, sou as árvores, as estátuas, as placas, os mitos e os monumentos,
Sou eu mesmo, sou os pássaros, sou os olhos, os órgãos, os corpos e os restos.

E em tudo que lembrar a minha presença, saiba que ali não estou.
E estou, justamente, ali.

Rio, 19 de novembro de 2010

sábado, 20 de novembro de 2010

Sem título de 20 de novembro de 2010

Parti minha máquina de escrever ao meio e ela sangrou. Teclas voavam num balé coreografado pelo vento, o ritmo era ditado pelo pipocar das engrenagens a reclamar sua ex-vida, o sangue escorria entre a tinta, que só o tornava mais escuro e fazia pensar em você. O sol não brilhou naquele dia, nenhuma vez. Apareceu negro, subiu negro, desceu e sumiu negro. Nenhuma flor tinha cheiro, nenhum animal vida, só você passeava pelas paredes e me dizia pra ficar quieto e sentar à beira do mar. Mas sem você o mar não era mar, era água salgada. A praia não era praia, era grãos de areia. Sujos. A máquina me chamava ao conserto e somente a percebi quando não havia mais o que consertar, já estava partida, sangrando, voando e pipocando. A tinta sujou minhas mãos e eu corri para dentro do sangue, achando que me limparia. Mas o sangue não limpa, sangra. E então, sangrei. Por você, por mim, pela máquina, pela praia, pelas flores e por nada, sangrei até a morte. Morri à beira da máquina, ela me servia de lápide, com uma folha ainda presa em sua engrenagem, que dizia: “Aqui jaz”. O fim, como todo fim de filme cult, é em aberto. Não sei o que foi de mim após morrer, como não sei o que foi antes. Minha função nunca foi saber, sempre foi viver. E vivi. O pouco tempo que tive foi teu e se alguns segundos sobraram os entrego a ti com muito amor e prazer. O sangue correu, o mar molhou, o vento subiu, e o homem morreu. ... ... ... E foi então que algo aconteceu: uma fênix pousou em cima da minha máquina. Eu, em repouso, e ela me acompanhava com seu canto; a melodia me fez abrir os olhos, vi o chão, limpo, a máquina, inteira, o sol, brilhando, a vida, pulsando, e a luz, banhava, tudo. Você estava lá e me olhava como se fosse a primeira vez. E era.

Rio, 20 de novembro de 2010

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Fernando Pessoa nº 1 (Alberto Caeiro nº1)

(do poema "O Guardador de Rebanhos")


XXII

Como quem num dia de Verão abre a porta de casa
E espreita para o calor dos campos com a cara toda,
Às vezes, de repente, bate-me a Natureza de chapa
Na cara dos meus sentidos,
E eu fico confuso, perturbado, querendo perceber
Não sei bem como nem o quê...

Mas quem mandou a mim querer perceber?
Quem me disse que havia que perceber?

Quando o Verão me passa pela cara
A mão leve e quente da sua brisa,
Só tenho que sentir agrado porque é brisa
Ou que sentir desagrado porque é quente,
E de qualquer maneira que o sinta
Assim, porque assim o sinto, é que é meu dever senti-lo...

sábado, 6 de novembro de 2010

Avaliação teórica 1 da disciplina "Ator e Ação - Corpo"

Texto produzido para a disciplina "Ator e Ação - Corpo" (Profa. Esther Weitzman), como avaliação teórica do segundo período do curso de Bacharelado em Teatro da UniverCidade. 

Sobre a utilização da 1ª pessoa do singular no texto dissertativo, veja http://omundoqualquer.blogspot.com/2009/12/conclusao-do-1-periodo-de-bacharelado.html

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O ator invisível e o ator secundário

“Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!”
- Mário Quintana, “Das utopias”


   Logo ao sair da peça, decidi que seria sobre ela que escreveria. Um momento específico me parecia muito expressivo em relação à questão que Yoshi Oida nos propõe em seu livro “O Ator Invisível”, quando conta:

No teatro kabuqui, há um gesto que indica “olhar para a lua”, quando o ator aponta o dedo indicador para o céu. Certa vez, um ator, que era muito talentoso, interpretou tal gesto com graça e elegância. O público pensou: “Oh, ele fez um belo movimento!”. Apreciaram a beleza de sua interpretação e a exibição de seu virtuosismo técnico. Um outro ator fez o mesmo gesto; apontou para a lua. O público não percebeu se ele tinha ou não realizado um movimento elegante; simplesmente viu a lua. Eu prefiro este tipo de ator: o que mostra a lua ao público. O ator capaz de se tornar invisível. (OIDA, 2001: p. 21)

   Porém, assistindo ao documentário Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, uma outra questão se infiltrou no processo de raciocínio, gerando, no fim, uma terceira idéia. Uma ressalva: não proponho, aqui, uma análise aprofundada do trabalho do ator no cinema ou na televisão, já que não é a nossa proposta (ao menos nesse momento do curso), e sim a utilização dessas linguagens como comparativos para melhor compreender o ator de teatro no mundo contemporâneo.
   Na peça Marcha para Zenturo, em cartaz no Espaço SESC, as companhias teatrais Espanca e XIX de Teatro nos propõem uma reflexão sobre o tempo, questão essencial no teatro e também na vida, e suas implicações na relação entre os seres. A peça se passa num futuro distante (por volta de 2400 se não me engano) e desde o princípio provoca uma estranheza ao lidar com atores em tempos diferentes. Explico-me: é como se cada ator estivesse alguns minutos atrás (ou à frente) do outro, e portanto suas reações ocorrem em tempos distintos, com alguns respondendo a um “Olá!” apenas cinco minutos depois, enquanto o outro já estava em outro assunto, e assim por diante. Isso implica, naturalmente, em uma ausência total de relações corporais de toque, pois no toque não há escapatória, o que toca e o tocado se unem em um campo unificado temporal, na percepção de ambos. Isso fica evidenciado na peça quando, em dado momento, um dos atores toca em uma atriz e traz todos para o mesmo tempo presente, durante a duração do toque (que aliás é tido como uma ofensa na sociedade futurista de relações praticamente inexistentes entre os humanos).
   Mas não seria esse meu ponto principal sobre a peça, e sim um momento quase ao término da mesma, quando um ator rompe o espaço destinado à encenação e se aproxima da platéia, segurando um cubo de gelo entre os dedos. Enquanto nos conta da inexorabilidade do fluxo temporal, mostra o gelo como prova dela. Levanta o cubo acima de sua cabeça, e nesse momento é como se o ator não importasse tanto, como se ele fosse secundário. É como se o cubo de gelo fosse a lua e o ator apontasse para ele, levando nossa atenção não aos dedos que habilmente o segurava, mas ao cubo em si e, mais além ainda, ao que ele representava naquele contexto. Vejo, então, (ou justamente não vejo?) o “ator invisível” de que nos fala Oida.
   Já o documentário de Eduardo Coutinho põe, como nos sugeriu o próprio professor Carlos Eduardo, uma “lente de aumento sobre o nosso ofício”. Misturando mulheres que contavam suas histórias reais de vida com atrizes que as interpretavam, o documentarista nos faz refletir sobre o próprio ato de atuar (ou mesmo de agir; to act). Em uma das entrevistas, uma mulher nos conta sua história de vida, de modo completamente natural e sincero, fazendo com que cada um de nós acredite ser ela a “dona da história”. Ao término de sua fala, ela olha para a câmera, seu ar muda e ela diz: “Foi isso que ela me disse”, levando todos os espectadores a uma sonora surpresa onomatopaica, com a revelação de que era uma atriz.
   Esse trecho específico me pôs a pensar sobre a invisibilidade do ator no teatro e sobre a própria utilização da palavra “invisibilidade”. É um fato que a atriz do filme se tornou invisível, por diversos motivos, entre os quais estava o de que o próprio filme permitia a presença de não-atrizes contando suas histórias e, portanto, pressupunha que algumas realmente seriam as personagens, e também o próprio fato de ela não ser uma atriz conhecida de nenhum de nós. Seria possível, no teatro, tal invisibilidade ao ponto de o espectador sinceramente ser surpreendido com a revelação final de que era uma atriz? Certamente, em certos tipos de teatro (teatro contemporâneo, performances, etc). Mas me parece que dentro das predominantes linhas dramatúrgicas a que estamos adequados nos limites de um palco, essa invisibilidade é completamente utópica e até mesmo indesejada.
   O uso da palavra “invisível”, a meu ver, se torna um empecilho à real compreensão de seu significado no contexto do livro citado. Não é tanto uma invisibilidade, pois que se o ator fosse literalmente invisível, ao apontar seu dedo para a lua, ninguém a veria, pois o dedo também teria sua invisibilidade. Imagino que “ator secundário” se aplicaria melhor ao produto final obtido pelo ator de teatro que Oida nos fala. Um ator que é secundário não ao processo teatral em si, mas ao produto final, que deve ser primariamente aquilo que ele aponta.
   Um ditado oriental nos diz, como Oida, que as religiões são como um dedo que aponta para a lua. O homem, no entanto, se atém mais às especificidades do dedo do que à lua propriamente dita. O espectador de teatro, no entanto, penso agora ser o oposto. Ele já vai para o espetáculo desejoso de ver a lua, propenso a ver além do que é proposto. O estudante e ator, por vezes, busca apreender a técnica do colega no palco, mas a platéia, de um modo geral, já senta nas cadeiras preparando sua imaginação e sua criatividade.
   Todo esse exercício de auto-questionamento me fez chegar à questão de por que Yoshi Oida teria utilizado essa palavra (certamente não impensada). Alguns pontos foram fundamentais na busca de uma resposta: o fato de que no teatro (salvo exceções já mencionadas), o ator nunca será realmente invisível pois a platéia o sabe ator e reconhece o palco como um palco; e, do outro lado, o fato de que, justamente por reconhecê-lo como tal, a platéia já vai disposta a aceitá-lo como o que não é. Mas é fato sabido que nenhuma platéia saberá fazer por si própria o trabalho completo – e nem deveria, pois o processo de aperfeiçoamento do ator enquanto profissional se tornaria obsoleto e bastaria a eles um qualquer que fizesse qualquer coisa para que embarcassem com tudo que lhes é devido. Portanto, o ator, exatamente por sua impossibilidade de se tornar invisível num palco, deve buscar sê-lo. Pois atingirá, quem sabe, exatamente o meio do caminho (ou seria o caminho do meio?): o ator secundário. Onde o dedo que aponta para a lua é visto, mas somente para levar o espectador à lua em si. Um dedo que é canal para a atenção da platéia, assim como o ator é canal para as intensidades de si mesmo e do personagem. O ser humano, então, será visto em todo seu esplendor e complexidade, assim como a lua – e até mais do que ela.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
OIDA, Yoshi. O Ator Invisível. São Paulo: Beca Produções Culturais, 2001.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010