sábado, 20 de novembro de 2010

Sem título de 20 de novembro de 2010

Parti minha máquina de escrever ao meio e ela sangrou. Teclas voavam num balé coreografado pelo vento, o ritmo era ditado pelo pipocar das engrenagens a reclamar sua ex-vida, o sangue escorria entre a tinta, que só o tornava mais escuro e fazia pensar em você. O sol não brilhou naquele dia, nenhuma vez. Apareceu negro, subiu negro, desceu e sumiu negro. Nenhuma flor tinha cheiro, nenhum animal vida, só você passeava pelas paredes e me dizia pra ficar quieto e sentar à beira do mar. Mas sem você o mar não era mar, era água salgada. A praia não era praia, era grãos de areia. Sujos. A máquina me chamava ao conserto e somente a percebi quando não havia mais o que consertar, já estava partida, sangrando, voando e pipocando. A tinta sujou minhas mãos e eu corri para dentro do sangue, achando que me limparia. Mas o sangue não limpa, sangra. E então, sangrei. Por você, por mim, pela máquina, pela praia, pelas flores e por nada, sangrei até a morte. Morri à beira da máquina, ela me servia de lápide, com uma folha ainda presa em sua engrenagem, que dizia: “Aqui jaz”. O fim, como todo fim de filme cult, é em aberto. Não sei o que foi de mim após morrer, como não sei o que foi antes. Minha função nunca foi saber, sempre foi viver. E vivi. O pouco tempo que tive foi teu e se alguns segundos sobraram os entrego a ti com muito amor e prazer. O sangue correu, o mar molhou, o vento subiu, e o homem morreu. ... ... ... E foi então que algo aconteceu: uma fênix pousou em cima da minha máquina. Eu, em repouso, e ela me acompanhava com seu canto; a melodia me fez abrir os olhos, vi o chão, limpo, a máquina, inteira, o sol, brilhando, a vida, pulsando, e a luz, banhava, tudo. Você estava lá e me olhava como se fosse a primeira vez. E era.

Rio, 20 de novembro de 2010

2 comentários:

eurico disse...

Muito o texto cara... não conhecia esse seu lado escrito.. mandou muito...
Abraço..

Crica Rodrigues disse...

Adorei, Falcão!!
Lindo, lindo!