sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Conto de Natal (de 2007)

(Três anos atrás, foi isso que eu escrevi.)

O suor pingava-lhe do rosto, assim como de todo o corpo. Seus músculos, doloridos, clamavam por descanso e cuidados – coisas que não viam fazia muito. Os dedos, calejados, enviavam constantes mensagens de dor, que ele insistia em tentar ignorar. Mas nem por isso parava. Minto. Parava, para comer o prato que sua esposa lhe preparara horas mais cedo. Frio. Seco. Mas nem por isso seria recusado. O estômago reclamava tanto quanto os braços, ou até mais. Ouviu o alarme. Ainda não havia terminado o prato, mas isso não era motivo para atraso. Sabia o que o patrão fazia com atrasados. Levantou-se, deixando de lado o prato que mais tarde serviria de jantar aos ratos da região. O suor pingava-lhe do rosto, assim como de todo o corpo...

Após a vertiginosa e cansativa subida de onde morava, avistou, enfim, seu lar. A única lâmpada pendia do teto, acesa. O rádio fazia um chiado estranho, uma sinfonia de ruídos ininteligíveis. Sua mulher o aguardava, sentada no sofá, apenas para lhe dar um beijo e deitar-se. O dia dela havia sido tão fatigante quanto o dele. Seus filhos já dormiam, havia tempo que ele não passava momentos felizes com eles. Suas lembranças começavam a escassear. Nunca fora bom de lembranças. Temia esquecer-se de viver, de amar. Os três compartilhavam um colchão surrado. Beijou-lhes a testa, preferiu não acordá-los, sabia que haviam adentrado um mundo de alegria, felicidade e fartura e não sentia-se no direito, muito menos no desejo, de roubá-los de lá. Deitando-se ao lado da mulher, adormeceu quase que instantaneamente. Seus músculos agradeceram.

Naquele dia, não iria trabalhar. Conseguira que o cobrissem no emprego, pelo menos por hoje. Tinha planos. Aguardou, pacientemente, a ida das crianças à casa da avó e a saída a mulher ao trabalho, presenteando cada um dos quais com beijos carregados de sentimento. Ao vê-los desaparecer ladeira abaixo, partiu em missão. Já sabia onde encontraria o que procurava, portanto era tudo uma questão de tempo. Correu. Seus músculos preparam-se para o que vinha adiante.

Pronto. Tudo estava pronto. Ajeitou, pela última vez, o laço cuidadoso que havia feito. Sabia que nada podia dar errado, seria um esforço vão se desse. Ajeitando mais uma vez o laço, subiu no banco e apagou a luz. A porta se abriu, com um estrondo. Ele acendeu a luz. Houve um momento de tensão, no qual ele aguardava a reação deles. “Surpresa!”, bradou, jorrando toda a felicidade do mundo nessas oito letras. Os três pararam de supetão, com a mãe atrás, emoldurados pela porta numa pintura que ficaria para sempre em sua fraca memória. E então, o quadro foi desfeito quando a mais nova correu para abraçá-lo e, em seguida, em direção ao canto da sala. Lá estava uma pequenina árvore de natal, com as poucas luzes que tinha a brilhar e alguns enfeites. E embaixo dela, os laços que tão insistentemente arrumara enlaçavam presentes para cada um deles. A mulher correu e beijou-o, como há muito tempo não fazia. E então avistou a mesa, com uma pequena ceia preparada para os cinco, e o beijo despejou tanto amor que ele achou que transbordaria a qualquer instante de si. E então ela, também, foi ver seus presentes. Ele sentou-se no sofá, apreciando o segundo quadro daquela noite que ficaria para sempre em sua memória. Seus músculos reclamavam, mas ele não os ouviria. Não dessa vez. Porque, naquele instante, ele soube, e teve a certeza de que o cansaço, o trabalho, a labuta, tudo... tudo valia a pena. Tudo.
Rio, 6 de dezembro de 2007

Sem título de 24 de dezembro de 2010


 para N.C.F.

Caminho a passos lentos e curtos pelo corredor da velha casa onde agora só os fantasmas vêm, percebo água a escorrer do meu rosto; estranhamente ela sai dos meus olhos sem que seja minha, é como se algo chorasse por mim, enchesse o cálice e me fizesse transbordar. As decorações são de anos atrás e a solidão me grita no silêncio do vento que sopra e, batendo nas janelas, traz a impressão de um terremoto; algo vai ceder, dar fim, há de vir o novo, o eterno, as folhas molham o chão com seu orvalho matinal e eu com meus canais lacrimais; não percebo nada na casa, o mofo é o mesmo, as pessoas mortas que me sorriem das fotos são exatamente iguais, não mudam, eu que mudo, envelheço, fico velha e choro pelos cantos a reclamar da vida e da velhice e da solidão e do choro. Sou eternamente grata a tudo que fui e busco sê-lo novamente, enquanto ainda posso, sem perceber que jamais o serei outra vez, porém que tenho isso dentro de mim enquanto rio e enquanto corro. Poderia descrever a sensação de não falar com ninguém durante dias, e esquecer como se cumprimenta ao amanhecer um ser que caminha do outro lado da rua e lhe sorri; poderia dizer como a poltrona já se moldou a meu corpo de forma a não mais reconfortá-lo; poderia chorar a partida de seres queridos, alguns mortos, outros abandonantes de mim mesma. Diria a eles tudo que digo a esse papel e sei que eles me amariam por isso, ou talvez me odiassem. A casa inunda com minhas lágrimas e a corrente carrega-me para fora, quebrando portas e paredes e janelas. Do lado de fora, ele me espera e diz que sou a pessoa mais linda do mundo. Abraçamo-nos e caminhamos, agora a passos largos e eternos.

Rio, 24 de dezembro de 2010

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Um ano














Na verdade, um ano e vinte e seis dias. Só hoje eu me lembrei de escrever algo aqui. Na verdade, até lembrei antes, mas não tive tempo ou saco pra ir até o fim. E agora, quando finalmente o tempo e o saco me acham, faz 26 dias desde o dia 26 de novembro (e isso não foi premeditado MESMO — os numerólogos de plantão que decifrem). De qualquer forma, não tem muita coisa pra dizer porque não pensei muita coisa pra dizer e não tô afim de dizer muita coisa. Nesses 365 dias foram 39 textos (a maior parte meus), 52 comentários (grande parte meus), e umas 3.200 visitas (quase todas minhas). De qualquer forma, quando esse lugarzinho de palavras faz anos, eu também faço. Dezenove a mais que ele.

Não sei mais o que falar. É difícil escrever algo sobre uma coisa em que você escreve, porque me parece que ela já se auto-escreve, a cada letra vista aqui durante esse um ano. É isso que fica, então. Não o que eu queria que fosse, não o que você quer que te lembre, mas o que é. E eu não faço a menor idéia do que seja. Pode parecer que eu estou falando apenas do blog, mas... quem sabe? A vida tá aqui do meu lado me dizendo que isso cabe perfeitamente pra dizer dela.

Rio, 26 dias depois do dia 26 de novembro de 2010

Sem título de 22 de dezembro de 2010

Os olhos falam muito mais do que as palavras. Derramando seu conteúdo sem necessidade de pôr-se em contacto com convenções comunicativas, faz-se ponte entre dois, mostrando-lhes que são, em essência, um. Por prescindir de um entendimento fragmentário, o olhar permite o entendimento total. A velocidades supralumínicas a informação chega de bloco, estando ao mesmo tempo no que olha, no que é olhado, e no espaço vazio entre e dentro dos dois. A magia do olhar nos remete a um tempo em que éramos dois e nenhum, quando ao caminhar os braços se entrelaçavam e os perfumes se completavam. As flores nos olham quando choramos e é por elas que as lágrimas secam e molham o chão, num eterno ir e vir de mudanças de estado. Um olhar pode mover montanhas, derreter calotas polares e trazer abaixo construções inteiras. Por isso, ao olhar-me, diga o que queres no fundo do teu coração e, certo de que entendi, seguiremos a caminhar até o próximo olhar, em silêncio e dizendo muito mais do que aqueles que gritam.

Rio, 22 de dezembro de 2010

domingo, 19 de dezembro de 2010

Sem título de 19 de dezembro de 2010

Enclausurados na necessidade de sermos livres, não percebemos ser escravos. Continuamente buscando estabelecer grupos para pertencer, pensamentos a concordar e discordar, somos eternamente escravos de nós mesmos, de nossa concepção falida que há de desabar para o renascer de algo novo e eterno. Ao olhar para dentro e perceber o que não se deseja perceber, aproximamo-nos um passo do renascimento tão pregado por tantos antes de nós. Dando chance ao novo ser que há de caminhar sob o sol como um rei e por ele ser iluminado em todo seu esplendor; dando voz ao novo som, que há de vibrar cristalino por entre árvores e mortos; dando um passo de cada vez, rumo ao encontro de Nós Mesmos. A verdadeira alforria não nos pode ser concedida por decretos, ou por idéias, ou ações. Ela está presente, quanticamente, em cada um, e só por esse cada um pode ser alcançada, para o colapso da onda. A necessidade de ser livre é uma ilusão criada pelas próprias correntes. Havemos de perceber que, no jogo universal, as próprias correntes são uma ilusão. Não para serem desprezadas, mas apreciadas como ilusão. Cada sopro traz a vida e a vida traz mudanças; o sopro do novo há de limpar-nos a face e a alma, sendo a primeira e única lei realmente áurea.

Rio, 19 de dezembro de 2010

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Pequeno amor

[para ler ao som de  ]


Eu quero um pequeno amor que faça sorrir. Que abrace forte, cante comigo e ria. Que chore ao meu lado e silencie ao me ver chorando — não ofereça palavras mortas em um consolo fútil, mas o entendimento silencioso que tudo acolhe. Que  tropece comigo e levante, nas quedas que devemos experimentar. Que mexa nos cabelos enquanto, num filme, seu olhar se perde no horizonte sem fim. Quero um pequeno amor que durma ao meu lado, num quarto de fim ou início de estação, com a natureza a nos gritar em sussurros fora e dentro. Que viva ao meu lado, que seja ao meu lado, que morra ao meu lado. Quero um pequeno amor que, ao fim da vida, possa olhar e ser olhado, beijar e ser beijado, sentir e ser sentido, viver e ser vivido. Que, nos últimos momentos, nossos olhos se encontrem, para dizer pela última vez, sem palavras, aquilo que sempre dissemos e que é só nosso. Então saberei — como sei agora — que, da vida, o que fica, como sempre ficou, são os pequenos amores.


Rio, 15 de dezembro de 2010

Aforismo nº 12

Todos os que já fui e serei, agora e sempre, são em mim.

Rio, 15 de dezembro de 2010

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Serão

Eu queria saber ser eu.
Quantas vezes sou tantos
e perco-me de mim.

Sumo atrás da colina,
apareço na outra esquina,
e a sinceridade me grita lá de casa.
Volto, então, e reencontro-me
e percebo que em todas as vezes que me perco
quem se perde sou eu mesmo, dentro de mim.

Eu queria saber ser outro.
Quantas vezes sou tantos
e encontro-me neles.

Rio, 13 de dezembro de 2010

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Gilberto Gil nº 1

(do CD "Banda Larga Cordel")
Não tenho medo da morte

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

aí nesse instante então
sentirei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Conclusão do 2º período de Bacharelado em Teatro, na UniverCidade

Trabalho apresentado à profa. Ms. Thereza Rocha como requisito ao ingresso no terceiro período do curso de teatro.

A respeito do uso da primeira pessoa em texto dissertativo, veja http://omundoqualquer.blogspot.com/2009/12/conclusao-do-1-periodo-de-bacharelado.html 

------------------------------------------------------------------------------------

As pontes do ser

"O que for, quando for, é que será o que é."
- Fernando Pessoa ou Alberto Caeiro?


     Uma ponte, um rio, duas margens. Essa é a imagem que se forma enquanto tento transmutar em palavras as vivências dos meses de estudo no segundo período do curso de teatro. Penso que foi durante a leitura do livro “Técnica para o ator”, da atriz Uta Hagen, que pela primeira vez esse conceito abstrato, já presente em divagações, se tornou algo um pouco mais concreto. No capítulo “Identidade”, ela nos apresenta a noção de que, na atual sociedade, nós “compartimentamos e caracterizamos nosso comportamento até que nossa auto-imagem se torna um clichê ou um estereótipo, tal como faz nossa preconcepção a respeito dos personagens que queremos interpretar” (HAGEN, 2007: p. 37). Em seguida, a atriz e diretora americana propõe uma desconstrução da visão que se tem sobre si próprio e que impede, muitas vezes, uma aproximação mais particularizada e humana das circunstâncias propostas pelo dramaturgo. Não vejo, no entanto, essa desconstrução como negar o que se é, mas sim como perceber que isso difere do que se acredita ser. O que existe é uma ampliação daquilo que o ator se possibilita vivenciar e que o fará identificar-se com o ser humano por trás das ações. É aí que vejo algumas pontes ligando as margens. Entre sua auto-imagem e a imagem que faz do personagem, está o ator no ato da experimentação cênica; entre a palavra cotidiana e a literária, está a palavra como elemento do jogo teatral; entre o que se acredita ser e o que se permite ser, está o que se é naquele momento. Percebo também que o ator não simplesmente transita por ali, mas se faz ponte; e ao contrário das outras, não fica acima do rio, mas dentro e fora dele, encharcada e seca, objeto e reflexo. Ele permite, então, que a vida no palco, como um rio que nunca é o mesmo, se dê aqui e agora nas duas margens — e difira de ambas.





REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
HAGEN, Uta. Técnica para o ator: a arte da interpretação ética. São Paulo: Martins, 2007.