quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Sem título de 22 de dezembro de 2010

Os olhos falam muito mais do que as palavras. Derramando seu conteúdo sem necessidade de pôr-se em contacto com convenções comunicativas, faz-se ponte entre dois, mostrando-lhes que são, em essência, um. Por prescindir de um entendimento fragmentário, o olhar permite o entendimento total. A velocidades supralumínicas a informação chega de bloco, estando ao mesmo tempo no que olha, no que é olhado, e no espaço vazio entre e dentro dos dois. A magia do olhar nos remete a um tempo em que éramos dois e nenhum, quando ao caminhar os braços se entrelaçavam e os perfumes se completavam. As flores nos olham quando choramos e é por elas que as lágrimas secam e molham o chão, num eterno ir e vir de mudanças de estado. Um olhar pode mover montanhas, derreter calotas polares e trazer abaixo construções inteiras. Por isso, ao olhar-me, diga o que queres no fundo do teu coração e, certo de que entendi, seguiremos a caminhar até o próximo olhar, em silêncio e dizendo muito mais do que aqueles que gritam.

Rio, 22 de dezembro de 2010

Nenhum comentário: