sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Sem título de 24 de dezembro de 2010


 para N.C.F.

Caminho a passos lentos e curtos pelo corredor da velha casa onde agora só os fantasmas vêm, percebo água a escorrer do meu rosto; estranhamente ela sai dos meus olhos sem que seja minha, é como se algo chorasse por mim, enchesse o cálice e me fizesse transbordar. As decorações são de anos atrás e a solidão me grita no silêncio do vento que sopra e, batendo nas janelas, traz a impressão de um terremoto; algo vai ceder, dar fim, há de vir o novo, o eterno, as folhas molham o chão com seu orvalho matinal e eu com meus canais lacrimais; não percebo nada na casa, o mofo é o mesmo, as pessoas mortas que me sorriem das fotos são exatamente iguais, não mudam, eu que mudo, envelheço, fico velha e choro pelos cantos a reclamar da vida e da velhice e da solidão e do choro. Sou eternamente grata a tudo que fui e busco sê-lo novamente, enquanto ainda posso, sem perceber que jamais o serei outra vez, porém que tenho isso dentro de mim enquanto rio e enquanto corro. Poderia descrever a sensação de não falar com ninguém durante dias, e esquecer como se cumprimenta ao amanhecer um ser que caminha do outro lado da rua e lhe sorri; poderia dizer como a poltrona já se moldou a meu corpo de forma a não mais reconfortá-lo; poderia chorar a partida de seres queridos, alguns mortos, outros abandonantes de mim mesma. Diria a eles tudo que digo a esse papel e sei que eles me amariam por isso, ou talvez me odiassem. A casa inunda com minhas lágrimas e a corrente carrega-me para fora, quebrando portas e paredes e janelas. Do lado de fora, ele me espera e diz que sou a pessoa mais linda do mundo. Abraçamo-nos e caminhamos, agora a passos largos e eternos.

Rio, 24 de dezembro de 2010

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