domingo, 25 de dezembro de 2011

Margeia

A fonte não é de onde surge
Vem de mais fundo, mais dentro, mais outro
Caminhos desconhecidos entre fora e dentro
Caminhos-desafios entre cima e baixo
Sussurra chiados líquidos enquanto serpenteia por entre camadas
Abre espaço em terras e pedras
A subida é árdua, dolorosa, ele chora a si mesmo
Um aperto cada vez mais pequenininho
Encolhendo, encolhendo, encolhendo
Não vai conseguir, não vai alcançar fora de si
Quer se recolher para um eterno retornar, pensa em desistir agora.
Sim agora, desistir, chega, não segue mais!
Faltam-lhe forças...
Falta-lhe o amor caloroso de algum disco dourado que ainda não conhece
Falta-lhe o abraço carinhoso de um vento que nunca sentiu
Falta-lhe o afago de flores e plantas a quem se serviria com todo o prazer
Falta-lhe tudo, nada tem, nada pode, nada é
E chora a si. E morre.
Mas... que é isso?
Que luz é essa? (Embora não a chame 'luz' por não a conhecer)
Que brisa é essa? (Embora 'brisa' seja o nome que não aprendeu)
Que perfume é esse? ('Perfume' sendo aquilo que nunca sentiu)
Em seus olhos, uma nova lágrima de si mesmo nasce
Reflete o brilho incandescente da bola no céu
Arrepia-se e treme com o toque suave do mover-se do céu
É transformada em flores e plantas e matas e seres sob o céu
Seres que nunca sonhou ser e habitar
Onde agora habita e é.
Não se lembra de seu nome, precisa de um novo.
Começa sua caminhada montanha abaixo pelas tranças azuis de um deus guerreiro
Que lhe conta muitos segredos do mundo
De como foi, de como será
Parecem-lhe bobagens, sendo o mundo como é.
O deus lhe ama, e ele ao deus, mas são de mundos diferentes
Não se entendem, e ele parte dali. Tem que partir.
Desce sinuoso por muitas paisagens
E se molha muito e chora e é sempre feliz
(É que por tudo que vê, passa.
Em nada é detido,
e não há represas em seu caminho — derruba-as com sua força de ser livre.)
Encontra pessoas, inunda desertos,
E — ainda sem nome — segue em frente.
Escuta chamarem-lhe 'rio' e a palavra lhe soa bem
Cantarola pelo caminho seu nome novo, criança que sempre é
Chora às vezes, mas não sabe bem porquê, e nem lhe incomoda o chorar
Penetra os segredos de vilarejos todos, e volta a seu curso correto,
Seu caminho reto, sempre tortuoso, agora outro por tudo que é.
E sorri. E vive.
Mas... que cheiro é esse?
É cheiro de algo outro, que nunca sentiu, um misto de amor com sal e paz!
Sente por perto a alegria de uma imensidão profunda forte suave doce e mais.
Segue cauteloso, pé ante pé, e vislumbra ao longe algo sem fim.
Se aproxima e beija os pés daquele gigante
Lambe e é por ele lambido
Se fazem um e outro e o mesmo e sempre
Juntos, correm uma lágrima agridoce.
Agora ele já não caminha 
por caminhos quaisquer 
(retos ou tortos, certos ou errados)
Mas apenas existe em todos os lugares onde está.
O rio, agora mar, por tudo que vê, é.

Rio, 25 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aforismo nº 21

Não há nada que você seja que não seja o que você é.


Rio, 21 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

(para F.N. e D.R.)

No primeiro dia 
havia ovelhas.

No segundo dia 
um pastor se fez. 
Uniu as ovelhas 
em um rebanho só. 

No terceiro dia 
não há mais pastor — 
e, num só rebanho, 
todas as ovelhas. 

No quarto dia 
há tantos rebanhos 
quantas são ovelhas — 
e nenhum pastor. 

No quinto dia 
há alguns rebanhos, 
alguns pastores, 
algumas ovelhas. 

No sexto dia
haverá ovelhas, 
pastores, rebanhos.
E os três, um só. 

No sétimo dia
haverá lã.

Então 
tudo cessa —
nada é —
tudo pode. 

No primeiro dia 
haverá cavalos. 

Gabriel M. Falcão 
Campinas, 10 de dezembro de 2011

sábado, 3 de dezembro de 2011

Tornar-se

para R.

No sonho que o sonho me faz
Sou a praia e você e o cais
Com ciência e espírito em paz
E o vento à janela que traz
Árvores tortas demais
Seres frente ao vento atrás
Flores que exalam lilás
É a dança d'Iansã que jamais
Desperdiça o momento que jaz
E assim num instante fugaz
Tornou-nos tornados de nós.


Campinas, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Retir.

O que poderia ter sido e o que de fato foi
Apontam para um mesmo fim, que é sempre presente.
(T. S. Eliot - "The Four Quartets")


No retirar-se por um constante e inequívoco momento eterno, em meio à vida outra que rodeia o lugar, propiciam-se a cair por terra as máscaras e armaduras e peles segundas; nas labaredas antropomórficas de um fogo que sai de si sem nunca se perder, queimamos nós e cordas que nos prendem ao conhecido, ao velho, ao medo; no caminhar silencioso por sobre a lama em meio à mata, ouvimos tudo aquilo que nunca foi dito por nenhum humano, e que a natureza nunca pára de sussurrar; ao longe, o ressoar de um tambor, o chacoalhar de um pandeiro, o canto de vozes cristalinas — tudo anuncia a presença de seres que se reúnem em sua diversidade prismática para formar um novo todo, em eterno desequilíbrio manifesto de um plano potencial onde nada existe, onde nada falta; sem palavras, sem imagens, sem símbolos — e portanto com tudo isso — um Alguém nos convida ao desapego último, o de si mesmo, à entrega final, a do conhecido, ao eterno redescobrir de um Ser que se faz sem nunca se fazer, que é nunca algo e no entanto nunca deixa de sê-lo... Assim, caminhamos inexoráveis, ainda que em meio a tropeços e retomadas de máscaras antigas, rumo ao ímã último, que nos conclama a perceber que ele e o ímã primeiro são um e o mesmo, e no entanto dois e diferentes — e no entanto um, e o mesmo.


Campinas, 2 de dezembro de 2011

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Reinar em tempos novos

No sensível silêncio de um toque, onde polegares se encontram suavemente e mãos repousam uma sobre a outra, é que existimos quando fomos  séculos humanos, segundos divinos. A brisa suave de um vento não-novo roça os cabelos, ao recostar-se ela nele, anunciando a chegada de novas coroas para aqueles que, vez atrás, reinaram terra distante, hoje devotados a outros reinos, simples camponeses do plantio interno. O fogo ao lado lhes diz tudo que têm-tiveram-terão, e sussurra em labaredas de mudança justo aquilo que, há milênios, É em torno da fogueira eterna do Ser, ciclicamente cinzas para ressurgir sempre outro, sempre o mesmo, tal pássaro vermelho e dourado de si. A água envolve e unifica os corpos quase-próximos, enquanto as palmas comunicam em cantos suaves e quentes a vibração primeira  e o silêncio que nasce, caloroso no peito, ultrapassa toda a compreensão, embora fora e dentro o mundo prossiga seu caminhar. A terra sob os quatro pés sustenta seus sete passos, enquanto vislumbram obstáculo à frente, transponível de longe complicado de perto; mas dois não se amedrontam, e, auxiliando-se, alcançam alturas nunca dantes inspiradas, alçados a um novo patamar de compreensão e galhos, e olhares e flores. E assim, por sobre a terra e por fora do fogo e ao lado da água e em meio à brisa, deitados em pequena observação do infinito estrelado de onde vieram, unidos por coroas e corações de ontem-hoje-sempre, os dois pontos luminosos, que são em verdade, não apenas se olham, mas se vêem  e se sabem. 

Rio, 7 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Há sempre

para alguém

No braço, e no óleo, e na flor; 
Na coroa, e no olho, e no dente; 
No azul, e no preto, e nos dedos – 
Há um silêncio eterno em cada coisa que sonha. 
Há um eterno viver que outra vez sai de si 
Há um olhar à espera de olhar-se no outro 
Há o eterno não-ter de um ter que já é 
Há um caminho em torno de tudo que existe 
Há um eterno buscar que já é encontrar 
Há sorrisos e sombras em toda esquina 
Há o eterno já-sou de um ser que não sei 
Há espelhos no mar e no céu para ti 
Há eu. 
Há você. 
Em meu peito você, há dois sempres. 
E meu maior medo, 
no fundo, 
é te ganhar 
pois medo 
de te perder.


Rio, 18 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Quiroman.

Curvado sobre si mesmo, adentrou meu campo de visão inesperadamente, subindo de forma lenta e irregular as escadas que chegavam ao local onde me encontrava. De olhar baixo, mirando com cuidado cada passo dado, aproximava-se com uma sacola na mão. Terno caro porém gasto, completo, barba por fazer, cabelos desgrenhados, sacola de plástico na mão, mirou a cadeira ao lado da minha e a ela se dirigiu. Com um quase inaudível com licença sentou-se vagarosamente, nunca me olhando. O cheiro da bebida misturava-se com um perfume antigo, por gerar um terceiro aroma não passível de nomeação. Somente ao sentar-se ele, corpo levemente dobrado em direção à cadeira da frente, foi que notei suas mãos. Mãos enrugadas, calejadas, veias saltitantes e pêlos irregulares; mãos de vida, mãos de homem, de mulher, de velho, de criança, mãos de ninguém e de todos à nossa volta. Tais marcas são ele sim, cicatrizes de seus caminhos mais e menos secretos. Naquelas mãos habitavam sua mãe, seu pai, seus irmãos, todos seus amigos, todos seus amores. Naquelas mãos sussurravam as cicatrizes sempre novas de seres-navalha que nos entalham, pouco a pouco, do sopro de barro virgem de onde saímos. Naquelas mãos, um dia paridas de um ventre ensanguentado, o mundo agora celebrava seu próprio desenrolar, a vida fazia-se ver por linhas e sulcos e marcas e rugas. E, no entanto, algo eterno habitava ali, algo imperecível. Era quase como se o velho me olhasse não pelos olhos, mas as mãos, e me contasse do que é em verdade. Aquelas eram as mãos da criança, porém outras, porém as mesmas – e ao subirem aos olhos para secar uma lágrima recém-nascida, me contaram que são as minhas mãos. Porém outras. Porém as mesmas. E choram as lágrimas de uma vida sorridente, já se encaminhando a um novo fim. Se levantou e foi embora, levando consigo as mãos e as marcas de ser quem sempre foi e sempre feito. 

Rio, 12 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sem título de 1º (8) de outubro (novembro) de 2011


Era uma noite comum de um dia comum, um primeiro de outubro de doismileonze completamente comum, e nada na aparência absolutamente comum dos ladrilhos da cozinha deixava entrever qualquer acontecimento que não fosse igualmente comum. Adentrei a cozinha com o pé direito ou esquerdo, mão direita na maçaneta, enquanto forçava a porta para frente e observava a brancura da meia do meu pé direito ou esquerdo se sobrepôr à cor de tijolo dos ladrilhos da cozinha. Como era comum em casa, haviam deixado a porta para a área de serviço aberta, e me encaminhei, pé esquerdo direito esquerdo, para fechá-la. Um labrador e uma boxer me olhavam, deitados confortavelmente em suas camas. E então, talvez tenha entrado pela janela, ou pelo ralo, ou pela pineal, ou pelas frestas da porta que dá pra área de serviço, ou pelo meu coração, ou pelos buracos das tomadas, ou talvez não tenha entrado nem saído nunca, mas o fato é que, 
de repente, 
estava lá.

Salto quântico para trás de mim,
vendo o mundo que de fato 
sou,
sendo o mundo que de fato 
vejo,
num gritante silêncio suave
e búdica risada simples e profunda,
sei-me inerte enquanto Ser,
percebo que nada faço, 
não ajo nunca,
nunca 
fiz uma única ação,
e nunca deixo de agir,
sou o próprio agir do mundo, 
e nele faço
tudo que é feito,
desde que surgiu
do fundo imanifesto
da imensidão de mim mesmo
para a minha própria 
superfície.
Vejo com a mais límpida clareza 
a absoluta certeza 
de que Isso,
que Sou,
sempre Fui
e sempre Serei;
e nada que faça,
me poderia extraviar de mim mesmo,
pois quem se perde de mim, senão Eu?
Seria impossível ganhar
Isso que Sou, pois,
de fato 
Eu
nunca 
perdi
.

Rio, 8 de novembro de 2011
(sobre o dia 1º de outubro de 2011)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O silêncio que precede a lágrima

para M.

O silêncio que precede a lágrima chegou sem ser convocado, e nunca previsto, sempre bem-vindo, porquanto nele o ser mira um espelho e se vê como sempre foi, antes de se tornar sempre o que será. A primeira gota que tocou a terra, ao ver a cabeça ensaguentada de Luis rolar pelo tablado erguido em plena praça, escorreu dos olhos verdes de Maximilien. De pé diante da guilhotina, fazia-se espectador e protagonista do espetáculo em que se julgava dramaturgo e diretor, em antagônica posição àquele que agora jazia incompleto à sua frente. Em seus brados por liberdade, igualdade e fraternidade, jamais realizara a concretude de suas ações, idealizadas como nuvens caminhando por um céu que não mais há, onde a terra agora existe. Ele a sente sob si, a seu redor, entranhada no ser que é, e vê que acolhe suas lágrimas com ternura de mãe. Queria abraçar o rei, agradecer-lhe por existir, sem o que eu não o seria o que sou, queria segurá-lo em seus braços com ou sem cabeça, o sangue encharcando ambas as vestes e chorar sua partida. Vê nele o seu primeiro amigo, seu primeiro inimigo, todo que lhe fizera parte cortada a chorar sob uma bandeira rasgada que sua mãe lhe havia dado de presente num aniversário colorido que nunca tivera. O céu claro prenunciava uma tempestade que de há muito não vinha, e uma leve brisa arrancava casas por toda a França, enquanto dentro de seu peito, maremotos silenciosos escoavam por aquela primeira e última lágrima. Queria abraçar o rei. Engoliu seco e se virou para saudar a massa que lotava a Concorde. Não havia ninguém. 


Rio, 24 de outubro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Desir

É que o desejo de
não ter desejos é
ainda um desejo e
mais perigoso pois

auto-sabotagem.


Rio, 20 de outubro de 2011

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Surya Sonnet

a 10.000m de altura, para Turner

Enquanto flutuando sem encosto,
Por sobre alvo véu que incendeias,
Descubro-te aos poucos em candeias —
E sobem labaredas de teu rosto.


Dá-me muito amor ver tal teu gosto
Lambendo azul em âmbar-amarelo,
Pois todo o meu ver é por teu elo,
Que passa pelas fibras do meu rosto.


Enquanto a tua tinta nos derrama,
Chafurda o sopro e nele sopra lama,
Tal quadro que só tu permites ver,


Papel que tu poeta eu poema —
E só existe vida em teu sistema
Porquanto continuas a viver.


?, 17 de outubro de 2011


sábado, 15 de outubro de 2011

O inventor-paixão

Quem será que inventou 
o beijo? 
Qual o ser que, súbito, 
viu os mesmos lábios de sempre, 
novos lábios de nunca, 
e sonhou o toque, 
desejou tocá-los, 
tocou-os, de fato? 
Uma palma para ele, 
que inventou paixão ao descobrir calor 
e destinou toda uma espécie a carícias infindáveis 
por sussurros inaudíveis. 
Uma palma para ele, 
que descobriu calor e inventou querer,
quis descoberta, inventou unir,
que viu o outro e fez-se um. 
No início foi Ele, e não deus, que criou a luz. 
Fez os seres se enxergarem por inteiro, 
os tirou da escuridão-separação. 
Viu que eram bons 
e um, 
porque assim o toque os fez, 
e reparou a injusta perfeição divina 
de criar 
e dividir.


Rio, 15 de outubro de 2011

terça-feira, 4 de outubro de 2011

O ser (e o sei) e o tempo

Só se pode saber do que já morreu, do que já não é, 
o que agora-sempre está sendo é insabível.
O mundo sabido é eterno cadáver de si,
sempre um passo atrás de seu próprio existir.

Com um espelho eternamente desconhecido nas mãos,
o saber olha sempre seu próprio rosto e sempre vê o que já foi.

Eu, parte desse mundo todo e todo desse mundo-parte,
sempre vendo um passo atrás do que de fato sou,
sendo um passo à frente do que de fato sei,
sei que meu saber é o vice campeão de mim mesmo,
que do existir não há saber, embora o saber, de fato, exista.

Ser é um sempre novo não-saber.

Rio, 4 de outubro de 2011

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prelúdio em D

(para um livro sem palavras)

Não se sabe ao certo quando o primeiro homem tombou. Não está gravado em memória alguma o momento em que a chama consumiu a primeira rosa. Não há mais ninguém vivo que se lembre do local onde o primeiro ser foi avistado. São lembranças que nem se inscrevem e já se apagam. A história, esquecida, cai entre blocos de gelo e vulcões inativos, onde ainda hoje se aloja não apenas o que não foi descoberto, mas também o que já foi esquecido. 

A humanidade constitui-se de eternos entremeios, cenas passageiras onde a continuidade não é regra, e o final não é exceção. Um constante reconstruir-se; redigir a própria biografia apenas para vê-la se tornar cinzas pelas chamas do devir; um novo florescer que tem por base o excremento já seco de gerações passadas; uma cobra a enlaçar seu próprio fim em goles antropofágicos de si, onde a ânsia do vômito equipara-se somente à volúpia de consumir sempre mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais. 

Não mais. 
Não mais. 
Não desde aquele fim. 

Ali, em um eterno instante, todas as bifurcações de todos os homens de todos os tempos vieram a um mesmo ponto – e dele apenas dois caminhos se mostravam, por entre a espessa mata estelar. A massa espaço-temporal fez-se densa, e era de se pensar que poderia ser perfurada e percorrida pelos dedos, qual lamaçal escorrendo por juntas salientes, o ranço de um tempo todo que o tempo nunca soube ser, enquanto areia movediça imparável na ampulheta universal em expansão. 

Traz-nos ele a descoberta já sabida de que o fim existe também e apenas no começo e que todo o vir-a-ser está inscrito na carne tenra de um universo sempre novo, sempre o mesmo. Vem contar de si mesmo, e sabe que nossos ouvidos cegos e mudos serão finalmente rasgados com o som saboroso e colorido de uma verdade nova, para a qual ainda não estamos preparados e que não fará nada senão retorcer nosso próprio invólucro material. À mera sombra da inversão de nós mesmos, jaz todo o futuro do universo. 

O instante que se fez presente, naquele momento, preencheu-se em seu ser de tudo aquilo que foi e tudo aquilo que poderia ser, apenas com a intenção de nos contar de que em nada diferiu de seus irmãos. Carregava em seu ventre inchado o embrião de uma outra humanidade, da qual somos tortuosos pais, e durante o parto ela bradou nosso nome em gratidão e ódio, enquanto se desembaraçava da placenta e do sangue que nós lhe alimentamos. Parida, abraçou pai e mãe, renegou sua repetição e criou um mundo novo – que, em toda sua amplitude, possui a seu favor o eterno ineditismo da terra úmida. 

Poder-se-ia dizer que todos os entremeados anteriores constituíram-se apenas como caminhos até este ponto, que todas as estradas foram pavimentadas para levar a essa praça os que então viviam, que todos os passos foram dados na direção desse mesmo inominável lugar. Mas aí estaríamos mentindo. 

Ou não.

Rio, 30 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Tudo na mão da criança

Tudo na mão da criança é brinquedo. Sentada na areia de praia qualquer, roupas íntimas em translúcida inocência encharcada de mar, a criança sorri – com uma pedra na mão. Agachada em beira do mar e de si, concede à pedra toda sua atenção, pelo que ela se transforma com a simples indicação da vontade do infante. Serva submissa, fiel à promessa feita, cumpre-lhe os caprichosos desígnios imaginários enquanto rola como bola pelo campo de areia úmida. Subitamente, à ordem silenciosa de um olhar sutil, é transmutada em pá ou espada, com a qual a criança acredita construir e manter e destruir galáxias e planetas e seres — e pelo simples fato de crer, se faz. A representação, para o ser que cria, é fruta de si mesmo, semente do eterno, e tão real quanto possível. Na mão da criança, mentira e verdade se entrelaçam, num constante vir-a-ser que diz mais do Universo do que uma biblioteca universitária. Enquanto joga com o tempo, companheiro de brincadeiras infantis e cíclicas, a criança acerta-me um olhar, através do qual recolho-me em onda para o fundo de mim mesmo, de onde nunca realmente saí. A espuma que de mim resta, próxima a seus pequenos infinitos pés, ela sopra com carinho; sinto me roçar a brisa da criação, o sopro numinoso do divino em cada som, até que suas mãos enrugadas venham desfazer-me da existência, confessando-me que o próprio Ser não é senão um brinquedo, na mão brincalhona da Criança Eterna. 

Rio, 13 de setembro de 2011

domingo, 4 de setembro de 2011

Sem título de 4 de setembro de 2011

Delineio-te em suspiros, enquanto o afago da penumbra te engole o corpo e traz em seu colo a sombra que não se vê, pelo escuro presente do lado de fora da casa. Sussurra o vento sutil, vibração de si mesmo, e a voz do silêncio grita suavemente dentro dos teus ouvidos, outrora meus também. Procurando aquietar o que julgas ser tua voz, em homérica batalha onde enfrentas o vazio da existência e o atulhamento da imposição amedrontada pelo fim, tentas fixar teu olhar em mim, mas não me vês a mim mesmo. O reflexo que toca teus olhos e chega a teu interior não é quem sou, não diz de mim mais do que a cadeira onde agora me encosto e onde deixarei a marca da minha presença por algum tempo, até que o tempo venha e as apague. As ondas do mar hão de lavar minhas pegadas, e assim também com as tuas. O passo que se segue a esse não tem maior ou menor valor do que esse, e tem sua existência simultaneamente como seguinte, atual e anterior, até que o vento sopre e sobre apenas uma opção (cuja escolha cabe a ti). Não digo que deixes de ser o que és, muito pelo contrário!, conclamo-te a te tornar quem de fato és, como outrora conclamaram outras vozes e outros saberes (maiores ou menores que o meu, cabe a ti a decisão de julgar – ou não). Indico-te apenas um caminho, eternamente existente como potencialidade, assim como inexistente enquanto atualidade. Em minha mãos, salgadas de mar sujas de lama e doces de chuva, há só um mapa aberto, e todo um caminho à frente. E um sonho do que se poderia ser se o caminho fosse trilhado, que nunca é o que se é quando se trilha o caminho. E ainda bem.  

Rio, 4 de setembro de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

Independência ou Maternidade às avessas

para M.

Relances súbitos, vejo-te em mim apenas por um segundo, enquanto permites que a inconsistência de teu debater-se ao sair do rio ceda e dê lugar à breve calmaria de mares por onde nunca naveguei, ou já o fiz demais para ainda reconhecê-los como mares. Vejo agora campos onde o sol não brilha, não há flores no jardim que criaste para ti mesma, apenas caminhos cada vez mais pavimentados, cimento impedindo a germinação de tudo aquilo que plantaste ao longo da vida — e que inclui eu e ele e ela. Por conta disso, partimos em busca de outras planícies, rasgos mais profundos nas terras desconhecidas de nossas próprias vidas. Insistentemente buscaste nos manter perto de ti, sob teu jugo tirânico e amoroso, tentando fazer de nós substitutos da falta de comando sobre teu próprio caminhar, sempre entregando a outros a responsabilidade pelos tropeços e desvios. O caminho é teu, mas buscando o auto-esquecimento de uma trilha marcada por cicatrizes e afagos, coloca-te sobre nós na tentativa de oprimir a liberdade de errarmos, também, e acertarmos, também, e vivermos, enfim. Até que comeces a aceitar as falhas e belezas de tuas próprias margens, que fazem de ti o que és, ao invés de buscar imprimi-las carbonicamente em nossos riachos, que ainda brotam do fundo da terra e dela nos contam o que somos em nós, continuaremos a empunhar nossas espadas, montados em cavalos fictícios da História inventada, que empinam sonhadoramente enquanto bradamos: “Independência, independência, abre teus sulcos sobre nós!”

Rio, 21 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sem título de 3 de agosto de 2011

O caminho à frente é sinuoso, segue por estradas nunca dantes percorridas, esgueira-se por abismos onde o menor tropeçar seria sucedido por quedas rumo ao céu e à terra em simultaneidade, sussurra por teus ouvidos e lânguidamente convida-te a vir passear por ele, sem placas ou avisos de navegações cujo fim foi anunciado no início de si mesmo. Seguindo a caminhar no entanto tu procuras meus olhares carinhosos e não enxergas minha presença a teu lado, embora tua mão segure a minha inconscientemente, à tua frente a tua mente te torna cego, faz-te escravo dela, te subjuga à prensa calorosa contra a tela luminosa que lhe é peculiar. Aos lados e também por cima e por baixo, teus olhos choram lágrimas de sal e vinho, tu corres a te esconder sob o ramo frondoso de uma qualquer árvore, que ri de ti enquanto te concede o abrigo momentâneo dos olhares serpentinos de alguém que se esconde nas matas. Subimos a montanha e fincas tua bandeira, sem ter desenhos ou mesmo bordas e fazes de mim teu eterno amigo, sabendo agora que a minha presença foi sempre a mesma e eu estive, durante todos os momentos, a teu lado e abaixo e acima e à frente e atrás de ti, e também dentro e também fora e também nos outros e também em mim mesmo. Fui para ti aquilo que sou para mim, pois na eterna caminhada rumo ao auto-encontro, o ponto final da descoberta é quando percebe-se que agora, onde há dois, há apenas um. Eu, tu, nada, tudo. Abre teus olhos e vê a mim, como sou, vê a ti, como és, vê a nós, como sou, vê tudo, como é, vê o ser, como nada, e vê a si, como tudo. A caminhada transformada há de prosseguir, pois encontrar-me no ponto final, ao contrário do que imaginam tantos, não é o fim, mas apenas o recomeço, em outro nível e outra percepção do mundo como um reflexo dele mesmo e, portanto, de ti.

Rio, 3 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

Meu quintal tem

Meu quintal tem duas árvores
e eu vou ser adulto.
Cada árvore, dez maçãs.
Numa delas, todas ruins.
Noutra delas, todas boas.
Como as boas.
Vejo as ruins.

Meu quintal tem uma árvore
e eu quase sou jovem.
Nela tem dez maçãs.
Cinco boas num dos galhos.
Cinco ruins n’outro dos galhos.
Como as boas.
Cuspo a ruim.

Meu quintal tem uma árvore
e eu sempre sou criança.
Nela só uma maçã:
Uma parte dela é boa.
Outra parte dela é ruim.
E eu a como
por inteira.

Rio, 31 de julho de 2011

Aforismo nº 17

Nada é eternamente válido. (Nem mesmo essa afirmativa.)

Rio, 31 de julho de 2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Olhos verdes e vermelhos

para Rafa, Cissa, Raul, João, Thomaz, João Pedro, Luiz, Thomaz, Lucas, Rafael, Luis, Carol, e tantos outros...

Olhos verdes e vermelhos de mãe depositam a teus pés flores, numa oferenda que, desejosa de não existir, tenta aceitar sua própria existência. Por todos os lados, amigos-irmãos e irmãos-amigos fitam teu olhar sereno, silenciosos fora e dentro, ocupados em rememorar-te nos mais sutis detalhes. As lágrimas se lançam dos olhos ao chão, esse mesmo que te serviu de repouso, mas não são lágrimas de tristeza por ti, liberto dos limites corpóreos a que nos submetemos com forma, nome e individualidade; são por nós, que aqui estamos sem a tua presença física, sem o teu dedilhar harmonioso e único de cordas e vidas. As mãos que se atiram à frente, à figura que nos lembra da tua, não são uma tentativa de reter-te ou trazer-te de volta de onde quer que esteja, mas um pedido de que sigamos em frente no nosso caminhar. Enquanto fito o mesmo teto que provavelmente foi a última imagem a fixar-se em teus olhos, verdes e vermelhos como os de tua mãe, penso que todos havemos de estar um dia reunidos, em verdade. Penso em como empurramos para longe a tão temida idéia de finitude, da morte (única certeza de qualquer ser vivente), buscando esquecer-nos de que isso que agora chamamos de “eu” também é transitório — talvez ainda mais do que consigamos perceber. Penso em como acreditamos eternas tais formas e limites que nos delineiam e delimitam dos outros e do mundo, sem percebermos que pelo simples fato da trindade ser abrangida pela nossa própria percepção, já se encontra unificada dentro de nosso ser. Penso em como o futuro é incerto, dentro do ilusório e real desenrolar do contínuo espaço-tempo, cabendo a cada um de nós construir seu próprio porvir, que paradoxalmente (e apenas para alguém que pudesse olhar de fora do Tempo) já está construído — e destruído. Penso que esse túnel escuro e velho e sujo contrasta tão fortemente contigo que é no mínimo adequado que ele te sirva de jazigo metafórico, numa exemplificação pungente da eterna tentativa da Vida de equilibrar-se a si mesma. Penso que se agora penso tudo isso, é apenas porque há um segundo, há um século, há um ano e também agora mesmo tu deixaste nosso mundo, tu nos deixaste saudosos, tu nos fizeste eternamente teus e, portanto, de nós mesmos.

Rio, 20 de julho de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

Leternidade

a Rimbaud

A eternidade foi encontrada:
É a terra e o pé ao Sol!
Por ela os meninos brincam o caminhar;
e os homens procuram entender.
Olham sempre para baixo, tentando ver :
onde seus pés os levam a pisar,
onde vão chegar pelos caminhantes pés.
O olhar-menino percorre o mundo,
pára em nada (ou pára em tudo,
que é a mesma Coisa).

A eternidade foi encontrada:
É o céu e o Sol ao pé!
Nela o olhar-criança mergulha,
enquanto os homens apreciam,
à distância, a moldura.
Verticalmente trans-vendo,
as crianças brincam aos homens
a possibilidade de mastigar o mundo,
encharcar-se por ele,
mantendo-se sempre seco ao Sol.

A eternidade foi encontrada:
é a Coisa e em tudo habita!
É nunca o que parece ser,
e apreendida, torna-se
representação de si.
Porém mostra-se toda ao olhar-criança
que não supõe ser ativo o ouvir,
que se põe à disposição do que ela fala, e conta de si
como realmente é, e não como a vê.

A eternidade foi encontrada:
é a Coisa e o lar de tudo!
É sempre o que se vê que é,
pois ao aparentar ser, se torna,
e se oculta ao olhar-adulto
que busca ativamente entender;
não percebe precisar que ela se dê.
E ela, que nunca quer ser entendida,
não se dá a quem procura,
mas a quem vê.

A eternidade foi encontrada:
é ela e você.

Rio, 10 de julho de 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Anahata

A busca por uma motivação conceitual para o nascer de algo só se faz necessária quando a existência da coisa em si não é suficiente. Ao aceitarmos a auto-suficiência de rodas que giram e pulsam harmonica e simultaneamente, a procura de uma significação mental perde qualquer validade. Talvez consigamos agora enxergar o diametralmente oposto: que o fato de não haver motivação perceptível a nível do intelecto denota a extrema profundidade onde reside a pulsação mais essencial da coisa (essa que não tem nome). Por não haver motivo residente na memória individual de nenhum dos dois, e sim a justa surpresa de enlaçar-se logo por esse que é tão diferente dos outros laços que já atou e desatou inúmeras vezes, faz-se explícita a proveniência do sentimento. Ao presenciar o desabrochar de uma rosa em meio ao concreto, não nos pegamos relembrando de qual semente ela veio, em qual momento do plantio lançamos sementes naquele local, ou mesmo se a regamos uma vez sequer; apenas apreciamos o seu abrir-se em flor e exalar-se em perfume inebriante. Somos, então, tragados para dentro de seu turbilhão de pétalas, e ao desvencilharmo-nos um do outro, dizemos ter estado anestesiados, drogados, alterados, e sabe-se lá quais outros nomes acharemos ainda. Resta saber se não é justamente o contrário: que estamos anestesiados é na vida, e ao tragar um ao outro acordamos para a realidade do ser, unificado em sua contraparte precisa?

Rio, 30 de junho de 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Novas navegações

Velhas cordas prendem o navio ao porto velho, a ferrugem dos fios dizem de sua longa estagnação por praia costumeira, onde agora habita e de onde nasce teu pensar em desvencilhar-se. O mar a convida a passear: oceano profundo, por vezes tormentoso, outras espelhado, icebergs inclusive, num constante redescobrir-se a si e ao outro, mergulhando a dimensões nunca dantes percebidas. À imagem e semelhança de Colombo, que lançou-se corajosamente rumo ao fim do mundo, o oceano lhe pede determinação. Não promete uma viagem tranquila, seria-lhe impossível cumprir tal juramento; não oferece caminhos seguros, rotas de navegação mapeadas, recifes sinalizados por bóias vermelhas horrendas; não te conclama a uma travessia idealizada que imagina um caminhar livre dos tropeços e desvios abrangidos pela concretude do real. Presenteia — justo o contrário! — com a possibilidade de sermos os mapeadores dos nossos (des)caminhos, descobridores de pátrias virgens, desconhecidas tribos dentro de um e de outro. Assim, faz-nos senhores de nós mesmos, com tudo que abarcamos. Diz a lenda que Colombo, logo antes de partir, discursou aos que com ele seguiriam, dizendo-lhes não do que esperava que encontrassem, mas de tudo aquilo que por eles esperava, na completude binomial de tempestades e calmarias. Pediu que confiassem não nele, mas cada um em si mesmo, e no outro que a seu lado lhe acompanharia, mãos dadas e braços enlaçados. Não sabiam que o fim que se fazia premente não era do mundo em sua pseudototalidade desconhecedora de outros hemisférios, mas o fim do Velho Mundo enquanto cordas e algemas atadas ao velho porto que, já caduco, não notou quando as naus partiram de seus braços enrugados. Anunciou-se então, como se anuncia agora, o nascer de um novo mundo que, qualidades e defeitos à parte, tem a seu favor o eterno ineditismo do ser.

Rio, 19 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Olhos e brilhos

sob encomenda

Sorrisos entrecortados por silêncios, tão preenchidos que se fazem valer por muitos palavreados estúpidos, que certamente têm seu lugar no balanço a que nos aferroamos numa calçada qualquer de Ipanema, enquanto pensamos em compartilhar o belo. Par de ímãs, a proximidade potencializa a tensão e densifica o espaço vazio existente entre um e outro, fazendo de pequenos centímetros grandes saltos e de qualquer queda de folha motivo para se desviar o olhar, no medo de ser apreendido a fitar seus contrapontos luminosos. Fios de cabelo insistentemente buscam cobrir os olhos e os brilhos e, com não menos insistência, os devolvo a seu lugar de origem, e o toque faz de dois, um. Durante tempo indizível, num sobe-e-desce digno de montanha russa americana, permitem perder-se na gravidade do outro, sugados no contínuo espaço-tempo para uma outra dimensão na qual cabem amores, anjos da guarda, famílias, bagunças e arrumações, psicologia e filosofia, sabedorias helênicas, conspirações universais, e tantos outros que, passadas as duas horas, é de surpreender que o piso seja ainda o mesmo, quando seus dois habitantes se transformaram tanto. A calçada, então, vem nos segredar que, embora não seja outra, tampouco é a mesma. Assim, faz-nos perceber que exatamente o mesmo pode ser dito de nós. Com a consciência da eterna alteração do inalterável, partem em sentidos diametral e extrínsecamente opostos, porém internamente iguais. Ele, caminhando, pensa nela — se está ou não pensando nele. Ela, caminhando, pensa nele — se está ou não pensando nela. E embora não sejam hollywoodianos a ponto de virarem os rostos e encontrarem os olhares com um sorriso fingidamente surpreso, por dentro não deixam de se olhar por um segundo sequer, até chegar o sono e se encontrarem novamente, os olhos e os brilhos.

Rio, 15 de junho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa nº 3

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?

(Há exatos 123 anos nos foi presenteados um dos maiores mestres da literatura de todos os tempos e, para mim, o maior da nossa língua portuguesa. Essa poesia demonstra uma de suas infinitas facetas, dele que foi muitos e nenhum, para permitir-se ser todos o que foi. Ele dizia que o que o salvava era o fato de ser um poeta com inclinações filosóficas, e não um filósofo com inclinações poéticas. Lendo o texto acima, isso fica mais do que claro. Parabéns, mestre! Obrigado por nos permitir compartilhar de suas indagações e viagens por si mesmo e pelo Universo inteiro!)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Velas e chamas

para V.

A chama da vela acesa nada fala, e no entanto nos diz tudo que há, contando de nós mesmos e daquilo que seria tão mais fácil simplesmente não existindo. Ainda assim, insistimos em não escutá-la, fingimos não ver seu constante reluzir, nem suas súbitas incandescências, de modo a nos protegermos de nós mesmos. É que para a ilusão se fazer verdade, já tendo pitadas de real antes mesmo de existir, precisamos ativamente aceitá-la como tal. (Já existindo de fato, não será ela mais real do que um conceito qualquer de realidade?) Então, na concretude do agir, caminho até ti, em meio à escuridão latente fora e dentro — e caminhas para trás. Na concretude da inércia, vejo teus olhos voltarem-se a mim, e caminhas internamente para os lados, sofrida indecisão. O outro ângulo desse triângulo — que provavelmente passeia por teus pensamentos enquanto me olhas em angústia inexpressa — não me importa ser agudo ou grave, não o noto, não o vejo, não o sinto, tampouco o receio. Nada mais me interessa, senão transformar a geometria dessa relação. Pois se é verdade que a menor distância entre dois pontos é uma reta, não é assim em relação a nós, caminhantes tortuosos pelas ruelas e ribaltas entre um e outro. A vela acesa em chama brilha em mim, e busca contagiar-te a ti e a teu pavio embebido de amores já rotinas, sem saber como ou quando. Tampouco sabe como ou quando começou, mas está certa de que foi antes da ilusão assim ser nomeada. Vejo teu rosto trazer em tímida oferenda esse sorriso que não cabe em palavra alguma, através da nova moldura que se mostra mais adequada a ti. Em breves relances de teu incendiar, minha pobre vela assiste — derretendo-se por ti — o teu recuar ressabiado diante do fogo amedrontador daquilo que já existe como potencialidade. Não obstante, permanece focada, afastando-se momentaneamente apenas a fim de buscar oxigênio em cômodos mais abertos, a transitar por planícies outras que não as tuas. Subitamente noto que fiz-me vela, buscando incendiar-te de fogo que arde sem se ver, e agora me consumo, solitário, diante de teu debochado fogo apagado, que diz muito mais de ti do que de mim — e que, por isso mesmo, não me incomoda existir.

Rio, 10 de junho de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

Sem título de 4 de junho de 2011

Nesse mesmo corpo por onde agora a vida corre, penso sobre o instante no qual seu leito secará. Será que saio de mim? Simplesmente deixarei de ser? Sairá a vida de mim ou eu sairei da vida? Serei, então, eu mesmo? Se não eu, então quem? Tanto fiz e faço que não sei se o que fui e serei é aquilo que um dia pensei; de tudo, no entanto, uma coisa é certa: a morte. Reunido comigo mesmo num estado de não-existência (poderei chamá-lo de existência, contrapondo-o a essa que agora noto existir?), vibrando em frequências inimagináveis, alço vôo rumo à lua, aquela mesma que me observa agora, formiguinha a passear, crendo-se gigante inatingível. Ri de mim, e eu rio dela, brilhando solitária sua luminosidade furtiva e furtada. Juntos, rimos e vivemos, cada um dentro daquilo que lhe cabe. Ela, brilha; eu, escrevo. Ela, gira; eu, percebo. Conta-me um segredo, sussurrando ventanias: essa mesma vida que agora habita aqui, há de seguir seu curso, rio inexorável de si mesma, livre de represas e desvios. Pois a morte, quando vier (e virá), será o fim de mim — mas não o meu fim.

Rio, 4 de junho de 2011

segunda-feira, 30 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Fim de poema

para JPG, E., LM e VM

A cortina, se vê — quando fecha
Pela mão do ator que a empunha,
E a rasga tal qual uma unha —
Que ao coração é a flecha.

Atrás da cortina me fui.
E ainda há vida a pulsar;
Pois fim, na poesia, não há
Pra vida que a vida possui.

A luz na ribalta persiste,
Somente a platéia não vê.
E só lhes impede de ver,
A mesma cortina — que existe.

Quando a vida entre andares está —
É andar, não-andar, e o outro;
Um sopro, e só, e é solto
O vôo da vida a findar.

Poesia se quer uma rede —
A tinta escorre de mim —
E nela o fim não é fim,
A vida goteja de sede.

Rio, abril e maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aforismo nº 15

para PTdA

Somente àquele que se libertou dos grilhões do próprio pensamento condicionado será concedida a alforria final.

Rio, 2011

Sem título de 2 de maio de 2011

A casa de boneca não mais está sob nosso controle. Imergimos nela, e vivemos nossa própria vida em miniatura; buscando, constantemente, uma suposta mão que nos guie, isentando-nos de toda e qualquer responsabilidade sobre nosso próprio caminho. Fugimos das grandes questões que, longe de ser resolvidas, não foram ainda sequer roçadas pelos mais incensados sábios de todos os tempos. As questões são, paradoxalmente, as mesmas – e novas. Mas o mergulho nelas exigiria de nós um estado diferenciado ao qual, por não estarmos acostumados, denominamos “difícil” ou “trabalhoso”. Um estado diferenciado de atenção não é impossível, muito pelo contrário, é necessário. Mas fomos condicionados a agir em um estado entorpecido, onde permitimos que outras pessoas pensem por nós, escolham por nós. Portanto, é mais fácil perguntar a outro qual é a resposta “certa”, qual roupa devo vestir, qual música gostar, qual programa fazer. Somos alienados de nós mesmos, buscando constantemente no outro um guia para o nosso caminho interno de vida, que prescinde de palavras ou mesmo pensamentos (acrescentados a nós posteriormente à existência). É preciso vivenciar integralmente a técnica para poder abandoná-la, e também assim o é em relação ao pensamento. Abrangendo-o de modo total e, portanto, estando fora de sua maravilhosa e pegajosa teia, vivemos dentro e fora, transcendência e imanência, matéria e energia, tudo e nada. Conciliando os aparentes opostos pela abrangência de ambos dentro de um único campo de percepção, não estamos mais sujeitos à sua ação enquanto fenômeno inconsciente. Percebendo-nos além de ambas as polaridades alternantes — imprescindíveis para o constante vir-a-ser do Universo — reencontramo-nos conosco mesmos, em nosso composto mais essencial, que jamais conseguiremos denominar suficientemente bem.

Rio, 2 de maio de 2011

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Três reis

Sentado sob ressecada árvore de uma esquina qualquer, quase não o notei. Estando exatamente do lado oposto da rua, meu olhar momentaneamente desceu e percebi a triste figura que procurava abrigo do sol escaldante da cidade. Trajava somente uma calça, rasgada em diversos pontos; trazia os cabelos e barba desgrenhados porém curtos; o corpo moreno evidenciava uma vida de exposição à ela mesma, em tudo que tem de menos luxuoso. Seu tronco curvava-se para frente e à sua esquerda repousava, tranquilo, a observar tudo, um cano preto que lhe servia de bengala. Estando acima de sua cabeça, afigurava-se tanto como apoio quanto binóculo, por onde aquele submarino-homem buscava breves relances de uma vida da qual já se esquecera, quando ocasionalmente levantava seus olhos para observar os transeuntes que iam e vinham, sem notar-lhe a presença. Sob seus pés, espessa crosta negra denunciava a falta de higiene a que era submetido. O suor escorria-lhe por tantos poros que perdi a conta, e pareceu-me escorrer também de seus olhos, embora por nenhum momento percebesse a minha presença invisível. Paradoxalmente, via todos os que não o olhavam, mas não notava aquele que o observava. Como a trocar atenções, equilibrava-as no ato de perceber justamente aqueles para quem não existe. Subitamente, da mesma calçada, porém vindo no sentido oposto ao que eu seguia antes de reter-me em silencioso debruçamento sobre aquele abismo de homem, vinham dois outros, também aparentemente habitantes do lar público que a rua lhes concedia, na ausência de alguém por conceder-lhes outro. Um carregava às costas enorme sacola de lixo, com buracos por onde se percebia a presença de latas e outros; o segundo trazia em suas mãos uma garrafa de água, já quase vazia, cantil de guerreiros modernos, constantemente a desbravar ruas novas e velhas, becos escuros e vazios, a lutar a maior de todas as guerras. Aguardei ansiosamente o momento em que notariam o terceiro a perfazer-lhes a trindade. Desacelerando o passo conforme se aproximavam do desafortunado companheiro, ambos trocaram algumas palavras. Enquanto isso, à nossa volta, centenas de pessoas transitavam, sem ver ou parar. Num gesto calmo e tranquilo, o que carregava a água debruçou-se sobre o que jazia sentado com seu cajado real e, notando um pequeno recipiente no chão, ali fez jorrar o pequeno restante de vida potável que lhe cabia na garrafa que trazia. Nesse meio tempo, o outro sentava ao lado do desgrenhado amigo e com ele trocava algumas palavras, embora fosse perceptível que dava mais do que recebia, em relação ao som. Este, então, pareceu-me que saía de trevosos abismos mentais arquitetados por ele próprio, subindo pela corda (verbal e líquida) lançada por seus dois iguais, embora diferentes. Embora tivesse plena consciência de que observava três seres desprovidos de qualquer bem material, até o limite de seus próprios corpos, assomou-me a idéia de que ali se reuniam três reis. As coroas haviam se tornado gorros, os cajados agora eram bengalas improvisadas, seus trajes brilhosos davam lugar à pele nua, morena, calejada por fora e por dentro. Seu novo reino era o nada, onde haviam sido feitos súditos de todos, aprendizes do todo. Segui meu caminho sabendo-me diferente, porque tocado por três novos universos-ilhas que, de toda sua majestade, retinham agora apenas a não-lembrança.

Rio, 22 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

A mim mesmo


Quando tive a mim mesmo,
Pela primeira vez,
O mar sorriu
E também o rio.
Apertei-me contra seu fundo
E, enlaçados,
Misturamo-nos aos outros.

Tive, então, a sensação de mim
Em tudo.
E tudo (que era eu) me abraçou
E eu sorri.

Mas o mundo não ficou mais claro,
Nem o céu mais lindo,
Ele permaneceu o mesmo de sempre.
(De nunca.)
Quem mudou fui eu
E, portanto, tudo.

E ao ver tudo mudar, notei-me em mim
E tive a mim mesmo
Pela única e eterna vez.

Rio, 19 de abril de 2011