domingo, 27 de fevereiro de 2011

Sem título de 27 de fevereiro de 2011

Nascemos incondicionados e somos moldados continuamente por experiências, nunca nos permitindo a percepção de como tudo realmente é— sociedades, códigos e símbolos à parte. O molde força-nos a perceber o hoje com os óculos do ontem, e sempre presos ao início e ao fim, deixamos de perceber o meio, que é início e fim (e, no entanto, difere de ambos). Ao apreender o mundo, julgamos vê-lo de forma absoluta, externa a nossos próprios neurônios, sem notar que o que somos, o mundo é – e que a recíproca é verdadeira. Apenas nomeamos nos outros aquilo que temos, pelo simples fato de que é impossível nomear o desconhecido, posto que é inominável por estar fora do âmbito do pensamento (que é sempre o que conhecemos, ou seja, molde). Com a compreensão de que o mundo nada passa de um aglomerado de inomináveis, entre coisas e coisas, abrange-se então a outra parte, aquela mesma que perdemos com o contínuo condicionamento comportamental a que somos submetidos: a parte do Mistério, da Existência, Deus, Verdade, como queira chamar, o nome (nesse caso, talvez mais do que nos outros) não importa, porque a palavra nunca é a coisa e tampouco encapsula a existência daquilo a que ela se refere. Não raro, ao respirar nesta realidade a cremos melhor do que a outra. Nesse momento, sem perceber, já estamos de volta naquela, pois a comparação entre melhor e pior só existe na realidade relativa de ideias. Aceitando ambas como partes constituintes de um Todo, que paradoxal e holograficamente possuem em casa um de seus átomos o microcosmo desse mesmo Todo, ficamos em paz com a compreensão de que, sim, existem as palavras, os pensamentos e os conceitos... mas, para além do conhecido, existe o resto. E o resto, já dizia Shakespeare, é silêncio.

Rio, 27 de fevereiro de 2011

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