segunda-feira, 28 de março de 2011

Semanal

A inquietação de um domingo junta-se ao tanto que fazer de uma segunda, e consomem-se num fogo de terça-feira, dando-nos um renascimento na quarta, que nos possibilita um aprendizado na quinta, para aprofundarmo-nos na sexta e cansarmos no sábado, sabendo que o ciclo busca a si mesmo — e todos os dias são um só, nomes à parte.

Rio, 28 de março de 2011

quarta-feira, 16 de março de 2011

Aforismo nº 14

Destino é o que a vida faz com a gente. Livre-arbítrio é o que a gente faz com a vida.

Rio, 16 de março de 2011

terça-feira, 15 de março de 2011

Caminh

[...] O navio aporta, em terra sem porto algum. A faixa litorânea é curta, e por detrás das mui próximas árvores, alguém nos observa. A virgindade exuberante do verde matagal nos extasia, ao mesmo tempo que amedronta. Num relance para trás, vejo a multidão de caravelas e naus a nos observarem, paradas, flutuantes, imensas. A cruz vermelha nos diz do que viemos aqui fazer, e talvez também do que acabemos por realmente fazer, apesar das boas intenções de tantos. Uma visão me assalta enquanto o barco se aproxima da imaculada areia: pilhas e pilhas de cadáveres nus, pele morena, pinturas corporais se misturando num mosaico assaz contundente, pleno de asco e de pecado. Por pecarem, dirão eles. Por viverem, digo eu. Por isso é que jazem irreais, em alguma clareira que ainda não descobrimos. De cada lado da imensa escada cadavérica, dois homens de vestidos pretos, com livros e cruzes nas mãos jazem, em posturas opostas, quiçá complementares. À esquerda, ele aponta para o cemitério a céu aberto com sua cruz e seu livro, e com um dedo indica o chão, onde uma singela poça de sangue fresco reflete sua face maquiavélica e real. À direita, um homem idêntico ao primeiro, aponta para cima e põe sua mão nos olhos, como a chorar um pranto que forma, a seus pés, singela poça de água fresca, que não reflete nada.

Um inesperado solavanco acorda-me do devaneio. Havíamos chegado à praia. Curiosos olhos negros nos espiam, e cochichos são facilmente audíveis aos mais atentos. O capitão põe-se à frente, com sua pompa purpúrea a afofar seus contornos, tornando-o figura assaz curiosa e, por que não?, mitológica. Adianta-se talvez uns dez passos, não mais que isso, quando da mata surge um homem, igual em estatura mas aparentemente mais alto, porque mais forte. Sua pele morena e extremamente lisa coberta por inúmeras pinturas geométricas insinua, talvez, sua condição de chefe. Seu corpo está todo à vista, e apenas um fio ao redor de sua cintura permite que duas mechas de penas caiam, por ambos os lados das coxas. Seu rosto é grande e redondo, seus braços musculosos e seus olhos penetrantes. De onde estou, percebo um tremor no olhar do capitão, que por um instante vacila, reestabelecendo-se em seguida. Ambos os homens se aproximam, no que parece durar uma eternidade, pé ante pé, sem hesitar porém sem antecipar nenhum passo. A um metro de distância um do outro, param novamente. O homem tira seu capacete de penas e folhas, depositando-o no chão à sua frente, como quem desafia um adversário em potencial. O capitão entende o gesto e rapidamente também deposita sua boina rubra, adornada por jóias reluzentes, espelhando o Sol em diversas cores ao seu redor, na areia. E então, como num quadro perfeito demais para durar, homem e homem, um e outro, trocam presentes e curiosidades antes de se apartarem para ir de volta a seus locais de origem, um ao mar, outro à mata. Ainda haveriam de se ver muito, e não sempre com a mesma cordialidade do primeiro dia. Um estranho silêncio perdurava no ar, e quem soubesse lê-lo nos alertaria que voltássemos, silenciosos do que vimos. Assim, faremos com que o Destino se cumpra e cada naco de madeira quede em seu lugar, por entre corpos e brilhantes. Se pesássemos o que viria, talvez não fôssemos adiante, não somente por nós, mas por todos. Mas por não tê-lo pesado, fizemos o que devíamos fazer e hoje cá estamos, olhando para trás com assombro, felicidade e lágrimas.

Rio, 15 de março de 2011

terça-feira, 1 de março de 2011

Sobre velhas, moças e ruas

Entre uma e outra, inúmeras linhas brancas entrecortavam o asfalto escuro e remendado. O céu, como prenunciando o fato, dividia-se meio a meio: parte azul ensolarada, parte carregada de nuvens. Qual delas habitava sob qual céu, não saberia dizer — mas uma situava-se no extremo sob o céu azul, enquanto a outra tinha exatamente sobre si o negrume carregado de nuvens chuvosas. Acima, de cada lado da escura estrada, uma mão vermelha impedia o encontro de ambas, e elas não haviam, ainda, se percebido – nem tampouco eu as havia notado.

Enquanto a moça ansiosamente volvia ao relógio muitas vezes por minuto, talvez em busca de apreender os segundos que lhe corriam nesse aparente não-fazer, a velha parecia calmamente saborear cada momento que lhe restava, antes de realizar a travessia. O Tempo desdobrava-se em três, não na óbvia trindade ilusória de passado-presente-futuro, mas sim na qualidade de velha-moça-mundo, e em cada um dos três (e dos milhares de outros que “mundo” abrange) corria de modo diferente. No esgarçar de si mesmo, parecia rir de todos, da velha, da moça, do mundo, de mim. Jogava conosco e era maior sua diversão quando não nos percebíamos no jogo. Ao redemoinhar por esquinas e levantar saias de outras moças (nunca, porém, das velhas) sua gargalhada ecoava entre prédios e pessoas.

Subitamente o vermelho fez-se verde, a mão fez-se pessoa e ambas puseram-se a caminhar. E embora a moça caminhasse a passos largos e enérgicos, enquanto sua contraparte idosa lentamente cumprisse o tamanho de um pé, apoiada em sua bengala e sempre a enxergar chão-frente-chão, pareciam andar à mesma velocidade. Minha posição privilegiada de observador permitia que eu estivesse ao mesmo tempo em ambas as calçadas e também no meio da pista, a uma distância que mostrava-me também os outros dois eus, atentos, parados, calçados.

Uma fração de segundo antes de ocorrer a junção das duas bem no meio da pista, eu já vislumbrara o acontecimento que se daria, por algum capricho do Destino, amigo do Tempo e tão brincalhão quanto. E mesmo sabendo em detalhes tudo que aconteceria dentro de instantes, por já haver acontecido em minha mente, surpreendeu-me o desenrolar do fato em si. 

Como em câmera lenta, a bolsa da velha escorregou de seu ombro direito, onde habitava rija e tranquila, para pôr-se no caminho da moça. Ela estacou. Sua figura esguia e alta fez-se estátua, rija e tranquila como a bolsa, e olhou para a velha. Poderia jurar que nessa troca de olhares, um mundo foi criado em algum universo paralelo, mundo este que abarcava as duas em toda sua plenitude e onde se completavam, Luz e Sombra, Bem e Mal, Yin e Yang. Contraparte necessária da outra, cada uma se permitiu mergulhar em si mesma e descobriu o que lhe faltava, o que lhe fugira, ou o que lhe esperava.

A moça se abaixou, sabendo-se metade, alcançou-lhe a bolsa e a entregou, nas mãos da velha, que também percebia-se completa, finalmente. Foram-se, uma para cada lado, sem nem um relance para trás, porém modificadas pela momêntanea união consigo mesmas. Tempo e Destino abraçaram-se e riam, parecendo embriagados com a vitória sobre suas aparentes diferenças ao saírem correndo em busca de outra encruzilhada onde trabalhar. Eu permaneci ali, nos três lugares onde estava, vendo o céu, que agora se mostrava homogêneo, nem cinza, nem azul, mas de uma cor que ainda não tem nome e que, talvez, nunca chegue a tê-lo.

Rio, 01 de março de 2011