terça-feira, 15 de março de 2011

Caminh

[...] O navio aporta, em terra sem porto algum. A faixa litorânea é curta, e por detrás das mui próximas árvores, alguém nos observa. A virgindade exuberante do verde matagal nos extasia, ao mesmo tempo que amedronta. Num relance para trás, vejo a multidão de caravelas e naus a nos observarem, paradas, flutuantes, imensas. A cruz vermelha nos diz do que viemos aqui fazer, e talvez também do que acabemos por realmente fazer, apesar das boas intenções de tantos. Uma visão me assalta enquanto o barco se aproxima da imaculada areia: pilhas e pilhas de cadáveres nus, pele morena, pinturas corporais se misturando num mosaico assaz contundente, pleno de asco e de pecado. Por pecarem, dirão eles. Por viverem, digo eu. Por isso é que jazem irreais, em alguma clareira que ainda não descobrimos. De cada lado da imensa escada cadavérica, dois homens de vestidos pretos, com livros e cruzes nas mãos jazem, em posturas opostas, quiçá complementares. À esquerda, ele aponta para o cemitério a céu aberto com sua cruz e seu livro, e com um dedo indica o chão, onde uma singela poça de sangue fresco reflete sua face maquiavélica e real. À direita, um homem idêntico ao primeiro, aponta para cima e põe sua mão nos olhos, como a chorar um pranto que forma, a seus pés, singela poça de água fresca, que não reflete nada.

Um inesperado solavanco acorda-me do devaneio. Havíamos chegado à praia. Curiosos olhos negros nos espiam, e cochichos são facilmente audíveis aos mais atentos. O capitão põe-se à frente, com sua pompa purpúrea a afofar seus contornos, tornando-o figura assaz curiosa e, por que não?, mitológica. Adianta-se talvez uns dez passos, não mais que isso, quando da mata surge um homem, igual em estatura mas aparentemente mais alto, porque mais forte. Sua pele morena e extremamente lisa coberta por inúmeras pinturas geométricas insinua, talvez, sua condição de chefe. Seu corpo está todo à vista, e apenas um fio ao redor de sua cintura permite que duas mechas de penas caiam, por ambos os lados das coxas. Seu rosto é grande e redondo, seus braços musculosos e seus olhos penetrantes. De onde estou, percebo um tremor no olhar do capitão, que por um instante vacila, reestabelecendo-se em seguida. Ambos os homens se aproximam, no que parece durar uma eternidade, pé ante pé, sem hesitar porém sem antecipar nenhum passo. A um metro de distância um do outro, param novamente. O homem tira seu capacete de penas e folhas, depositando-o no chão à sua frente, como quem desafia um adversário em potencial. O capitão entende o gesto e rapidamente também deposita sua boina rubra, adornada por jóias reluzentes, espelhando o Sol em diversas cores ao seu redor, na areia. E então, como num quadro perfeito demais para durar, homem e homem, um e outro, trocam presentes e curiosidades antes de se apartarem para ir de volta a seus locais de origem, um ao mar, outro à mata. Ainda haveriam de se ver muito, e não sempre com a mesma cordialidade do primeiro dia. Um estranho silêncio perdurava no ar, e quem soubesse lê-lo nos alertaria que voltássemos, silenciosos do que vimos. Assim, faremos com que o Destino se cumpra e cada naco de madeira quede em seu lugar, por entre corpos e brilhantes. Se pesássemos o que viria, talvez não fôssemos adiante, não somente por nós, mas por todos. Mas por não tê-lo pesado, fizemos o que devíamos fazer e hoje cá estamos, olhando para trás com assombro, felicidade e lágrimas.

Rio, 15 de março de 2011

4 comentários:

Anônimo disse...

Impressionante como ferve essa sua "massa encefálica". Curioso, ou não! VC sempre se "faz presente" nos escritos de ficção. Por alguns instantes, mas só por alguns, fiquei tentando descobrir seu lugar (na realidade, o meu lugar também): nativo (homem virgem), jesuíta (homem de Deus), "homem branco", ou nenhuma destas figuras?!!
Realmente, se soubéssemos do devir (des)humano, dos "rios de sangue" q/ emanariam deste encontro, talvez teríamos tentado mudar o leme do barco, ou não... O importante é que, ainda, há mar, barco, "homem e homem", HISTÓRIA e, portanto, caminh(os) p/ serem construídos.
Continue exteriorizando.
Abraços,
Cida.

Gabriel M. Falcão disse...

Se você descobrir o meu lugar me conta, porque eu tô curiosíssimo pra saber! ;-)

É como aquela cena genial no Matrix quando o Oráculo fala: "Não se preocupe com o vaso." O Neo diz: "Que vaso?" e se vira para procurá-lo. Ao fazer isso, derruba um vaso que se espatifa no chão. Ele começa a tentar se desculpar e ela diz: "Eu disse para não se preocupar... Mas o que realmente vai fazer seus neurônios fritarem é: você teria derrubado se eu não tivesse dito nada?"

...

Anônimo disse...

É... essa cena do Matrix, realmente é muito boa!
E ela me intriga!
Sinto um desejo, uma louca vontade que me aflora, em querer, mais e mais em tocar teu corpo, sentir você em mim, reparar em cada detalhe seu, para que eu nunca mais me esqueça, olhar em teus olhos, beijar tuas mãos e teus pés, Gabriel.
Só de te imaginar, sinto teu cheiro!
Quando me deito, penso se esta bem, por onde andou, o que fez, o que deixou de fazer, o que te faz falta...
Espero no mais breve, te encontrar!
Sou apaixonado por ti!

"Palavras de um sincero coração!"

Beijos.

Anônimo disse...

VC QUEM DESCOBRE SEU LUGAR NO MUNDO E VC SABE DISSO ATRAVÉS DO SEU CORAÇÃO E DA SUA INTUIÇÃO ... EU SEI QUE VOCE SABE , aliais como vc disse SOMOS TODOS ESPECIAIS, FILHOS DE DEUS

Fernanda Viviani

ps ainda nao li o texto pq estou cansada hj mas so pelo começo ja vi que ele é lindo