terça-feira, 1 de março de 2011

Sobre velhas, moças e ruas

Entre uma e outra, inúmeras linhas brancas entrecortavam o asfalto escuro e remendado. O céu, como prenunciando o fato, dividia-se meio a meio: parte azul ensolarada, parte carregada de nuvens. Qual delas habitava sob qual céu, não saberia dizer — mas uma situava-se no extremo sob o céu azul, enquanto a outra tinha exatamente sobre si o negrume carregado de nuvens chuvosas. Acima, de cada lado da escura estrada, uma mão vermelha impedia o encontro de ambas, e elas não haviam, ainda, se percebido – nem tampouco eu as havia notado.

Enquanto a moça ansiosamente volvia ao relógio muitas vezes por minuto, talvez em busca de apreender os segundos que lhe corriam nesse aparente não-fazer, a velha parecia calmamente saborear cada momento que lhe restava, antes de realizar a travessia. O Tempo desdobrava-se em três, não na óbvia trindade ilusória de passado-presente-futuro, mas sim na qualidade de velha-moça-mundo, e em cada um dos três (e dos milhares de outros que “mundo” abrange) corria de modo diferente. No esgarçar de si mesmo, parecia rir de todos, da velha, da moça, do mundo, de mim. Jogava conosco e era maior sua diversão quando não nos percebíamos no jogo. Ao redemoinhar por esquinas e levantar saias de outras moças (nunca, porém, das velhas) sua gargalhada ecoava entre prédios e pessoas.

Subitamente o vermelho fez-se verde, a mão fez-se pessoa e ambas puseram-se a caminhar. E embora a moça caminhasse a passos largos e enérgicos, enquanto sua contraparte idosa lentamente cumprisse o tamanho de um pé, apoiada em sua bengala e sempre a enxergar chão-frente-chão, pareciam andar à mesma velocidade. Minha posição privilegiada de observador permitia que eu estivesse ao mesmo tempo em ambas as calçadas e também no meio da pista, a uma distância que mostrava-me também os outros dois eus, atentos, parados, calçados.

Uma fração de segundo antes de ocorrer a junção das duas bem no meio da pista, eu já vislumbrara o acontecimento que se daria, por algum capricho do Destino, amigo do Tempo e tão brincalhão quanto. E mesmo sabendo em detalhes tudo que aconteceria dentro de instantes, por já haver acontecido em minha mente, surpreendeu-me o desenrolar do fato em si. 

Como em câmera lenta, a bolsa da velha escorregou de seu ombro direito, onde habitava rija e tranquila, para pôr-se no caminho da moça. Ela estacou. Sua figura esguia e alta fez-se estátua, rija e tranquila como a bolsa, e olhou para a velha. Poderia jurar que nessa troca de olhares, um mundo foi criado em algum universo paralelo, mundo este que abarcava as duas em toda sua plenitude e onde se completavam, Luz e Sombra, Bem e Mal, Yin e Yang. Contraparte necessária da outra, cada uma se permitiu mergulhar em si mesma e descobriu o que lhe faltava, o que lhe fugira, ou o que lhe esperava.

A moça se abaixou, sabendo-se metade, alcançou-lhe a bolsa e a entregou, nas mãos da velha, que também percebia-se completa, finalmente. Foram-se, uma para cada lado, sem nem um relance para trás, porém modificadas pela momêntanea união consigo mesmas. Tempo e Destino abraçaram-se e riam, parecendo embriagados com a vitória sobre suas aparentes diferenças ao saírem correndo em busca de outra encruzilhada onde trabalhar. Eu permaneci ali, nos três lugares onde estava, vendo o céu, que agora se mostrava homogêneo, nem cinza, nem azul, mas de uma cor que ainda não tem nome e que, talvez, nunca chegue a tê-lo.

Rio, 01 de março de 2011

7 comentários:

Pedro Martins disse...

Caralho, isso é genial!! Parabéns, parabéns mesmo!

Gabriel M. Falcão disse...

Valeu, Pedro!

Anônimo disse...

Gabriel,

Mesmo na condição de (des)conhecido,mas não de anonimato, fiquei extremamente tentada à comentar/elogiar seus escritos, sobretudo, àqueles de natureza poética e de ficção. Eles expressam um elevado grau de abstração, de profundidade e, ao mesmo tempo, uma simplicidade capaz de inebriar, "enfeitiçar", seduzir... qualquer "marxista ortodoxo", que anda sempre aos "berros" com os ditos irracionalistas, espiritualistas, pós-modernos, etc., uma vez que estes tendem à hipostasiar a SUBJETIVIDADE, o poder da "consciência em si" (descolá-los do chão real em que pisamos) num processo de transição p/ outro estágio de sociabilidade,em que a mercantilização das relações sociais, a coisificação do HOMEM, não faça mais nenhum sentido. Quero dizer que, na condição de materialista, não no sentido vulgar do termo, e, contraditoriamente, amante do (in)visível, passo a admirar suas palavras, sua sensibilidade, seu olhar para além do imediato, dos "moldes" que cotidianamente somos engessados.

Cida, Campina Grande.

Gabriel M. Falcão disse...

Obrigado pelas sábias palavras, Cida!

Anônimo disse...

Gabriel mais uma vez voce arrasou... é isso ai . para mim a moça representa o jovem de hoje e a velha repersenta um sabio e o encontro o destino que nem sempre nos permite ter o ´´ oara sempore´´, mas sempre nos permite saber que um olhar pode mudar o mundo

Fernanda Viviani

Gabriel M. Falcão disse...

Que interessante você ter entendido dessa forma, Fernanda! Valeu!

Crica Rodrigues disse...

:) :) :) :) :) :) :) :) :) ...