sexta-feira, 22 de abril de 2011

Três reis

Sentado sob ressecada árvore de uma esquina qualquer, quase não o notei. Estando exatamente do lado oposto da rua, meu olhar momentaneamente desceu e percebi a triste figura que procurava abrigo do sol escaldante da cidade. Trajava somente uma calça, rasgada em diversos pontos; trazia os cabelos e barba desgrenhados porém curtos; o corpo moreno evidenciava uma vida de exposição à ela mesma, em tudo que tem de menos luxuoso. Seu tronco curvava-se para frente e à sua esquerda repousava, tranquilo, a observar tudo, um cano preto que lhe servia de bengala. Estando acima de sua cabeça, afigurava-se tanto como apoio quanto binóculo, por onde aquele submarino-homem buscava breves relances de uma vida da qual já se esquecera, quando ocasionalmente levantava seus olhos para observar os transeuntes que iam e vinham, sem notar-lhe a presença. Sob seus pés, espessa crosta negra denunciava a falta de higiene a que era submetido. O suor escorria-lhe por tantos poros que perdi a conta, e pareceu-me escorrer também de seus olhos, embora por nenhum momento percebesse a minha presença invisível. Paradoxalmente, via todos os que não o olhavam, mas não notava aquele que o observava. Como a trocar atenções, equilibrava-as no ato de perceber justamente aqueles para quem não existe. Subitamente, da mesma calçada, porém vindo no sentido oposto ao que eu seguia antes de reter-me em silencioso debruçamento sobre aquele abismo de homem, vinham dois outros, também aparentemente habitantes do lar público que a rua lhes concedia, na ausência de alguém por conceder-lhes outro. Um carregava às costas enorme sacola de lixo, com buracos por onde se percebia a presença de latas e outros; o segundo trazia em suas mãos uma garrafa de água, já quase vazia, cantil de guerreiros modernos, constantemente a desbravar ruas novas e velhas, becos escuros e vazios, a lutar a maior de todas as guerras. Aguardei ansiosamente o momento em que notariam o terceiro a perfazer-lhes a trindade. Desacelerando o passo conforme se aproximavam do desafortunado companheiro, ambos trocaram algumas palavras. Enquanto isso, à nossa volta, centenas de pessoas transitavam, sem ver ou parar. Num gesto calmo e tranquilo, o que carregava a água debruçou-se sobre o que jazia sentado com seu cajado real e, notando um pequeno recipiente no chão, ali fez jorrar o pequeno restante de vida potável que lhe cabia na garrafa que trazia. Nesse meio tempo, o outro sentava ao lado do desgrenhado amigo e com ele trocava algumas palavras, embora fosse perceptível que dava mais do que recebia, em relação ao som. Este, então, pareceu-me que saía de trevosos abismos mentais arquitetados por ele próprio, subindo pela corda (verbal e líquida) lançada por seus dois iguais, embora diferentes. Embora tivesse plena consciência de que observava três seres desprovidos de qualquer bem material, até o limite de seus próprios corpos, assomou-me a idéia de que ali se reuniam três reis. As coroas haviam se tornado gorros, os cajados agora eram bengalas improvisadas, seus trajes brilhosos davam lugar à pele nua, morena, calejada por fora e por dentro. Seu novo reino era o nada, onde haviam sido feitos súditos de todos, aprendizes do todo. Segui meu caminho sabendo-me diferente, porque tocado por três novos universos-ilhas que, de toda sua majestade, retinham agora apenas a não-lembrança.

Rio, 22 de abril de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

A mim mesmo


Quando tive a mim mesmo,
Pela primeira vez,
O mar sorriu
E também o rio.
Apertei-me contra seu fundo
E, enlaçados,
Misturamo-nos aos outros.

Tive, então, a sensação de mim
Em tudo.
E tudo (que era eu) me abraçou
E eu sorri.

Mas o mundo não ficou mais claro,
Nem o céu mais lindo,
Ele permaneceu o mesmo de sempre.
(De nunca.)
Quem mudou fui eu
E, portanto, tudo.

E ao ver tudo mudar, notei-me em mim
E tive a mim mesmo
Pela única e eterna vez.

Rio, 19 de abril de 2011

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Nocturne in G

para F.

Sutilezas e silêncios caindo sobre nós e cercando a vida, expandindo-nos para além de nossos próprios limites, a noite é, em si, a permissão para a imaginação, onde o não-visto faz-se visível e vice-versa. Sabendo que caminhamos protegidos por seu acolhedor negrume, a caminhada é transformada, torna-se peregrinação para dentro de nós mesmos; o recolhimento que propicia, aliado à expansão supramencionada, abrange a infinitude do mundo, ainda que a nível intuitivo (pois expandido-nos não apenas para fora, mas também para dentro, abrangemos nosso Universo-ilha como é). Aquilo que ocultamos na invasora luminosidade do dia é revelado sob a maternal escuridão norturna. À revelia de nós mesmos, somos completos quando do contato com a imensidão de um céu estrelado que nos diz tanto, apenas por existir.

Assim, a melancolia de nossa própria existência desprovida de sentido conceitual gera a compaixão eterna de uma alma por suas semelhantes, fazendo com que através de sua arte ela busque revelar a total auto-suficiência de, simplesmente, ser. Entre estas missionárias de si mesmas conta-se o azulado brilho de F. A ti, sempre, minha imensa gratidão por embalar a vida com sua majestosa melodia, tão sincera quanto palpável.

Rio, 8 de abril de 2011