segunda-feira, 30 de maio de 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Fim de poema

para JPG, E., LM e VM

A cortina, se vê — quando fecha
Pela mão do ator que a empunha,
E a rasga tal qual uma unha —
Que ao coração é a flecha.

Atrás da cortina me fui.
E ainda há vida a pulsar;
Pois fim, na poesia, não há
Pra vida que a vida possui.

A luz na ribalta persiste,
Somente a platéia não vê.
E só lhes impede de ver,
A mesma cortina — que existe.

Quando a vida entre andares está —
É andar, não-andar, e o outro;
Um sopro, e só, e é solto
O vôo da vida a findar.

Poesia se quer uma rede —
A tinta escorre de mim —
E nela o fim não é fim,
A vida goteja de sede.

Rio, abril e maio de 2011

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Aforismo nº 15

para PTdA

Somente àquele que se libertou dos grilhões do próprio pensamento condicionado será concedida a alforria final.

Rio, 2011

Sem título de 2 de maio de 2011

A casa de boneca não mais está sob nosso controle. Imergimos nela, e vivemos nossa própria vida em miniatura; buscando, constantemente, uma suposta mão que nos guie, isentando-nos de toda e qualquer responsabilidade sobre nosso próprio caminho. Fugimos das grandes questões que, longe de ser resolvidas, não foram ainda sequer roçadas pelos mais incensados sábios de todos os tempos. As questões são, paradoxalmente, as mesmas – e novas. Mas o mergulho nelas exigiria de nós um estado diferenciado ao qual, por não estarmos acostumados, denominamos “difícil” ou “trabalhoso”. Um estado diferenciado de atenção não é impossível, muito pelo contrário, é necessário. Mas fomos condicionados a agir em um estado entorpecido, onde permitimos que outras pessoas pensem por nós, escolham por nós. Portanto, é mais fácil perguntar a outro qual é a resposta “certa”, qual roupa devo vestir, qual música gostar, qual programa fazer. Somos alienados de nós mesmos, buscando constantemente no outro um guia para o nosso caminho interno de vida, que prescinde de palavras ou mesmo pensamentos (acrescentados a nós posteriormente à existência). É preciso vivenciar integralmente a técnica para poder abandoná-la, e também assim o é em relação ao pensamento. Abrangendo-o de modo total e, portanto, estando fora de sua maravilhosa e pegajosa teia, vivemos dentro e fora, transcendência e imanência, matéria e energia, tudo e nada. Conciliando os aparentes opostos pela abrangência de ambos dentro de um único campo de percepção, não estamos mais sujeitos à sua ação enquanto fenômeno inconsciente. Percebendo-nos além de ambas as polaridades alternantes — imprescindíveis para o constante vir-a-ser do Universo — reencontramo-nos conosco mesmos, em nosso composto mais essencial, que jamais conseguiremos denominar suficientemente bem.

Rio, 2 de maio de 2011