quinta-feira, 30 de junho de 2011

Anahata

A busca por uma motivação conceitual para o nascer de algo só se faz necessária quando a existência da coisa em si não é suficiente. Ao aceitarmos a auto-suficiência de rodas que giram e pulsam harmonica e simultaneamente, a procura de uma significação mental perde qualquer validade. Talvez consigamos agora enxergar o diametralmente oposto: que o fato de não haver motivação perceptível a nível do intelecto denota a extrema profundidade onde reside a pulsação mais essencial da coisa (essa que não tem nome). Por não haver motivo residente na memória individual de nenhum dos dois, e sim a justa surpresa de enlaçar-se logo por esse que é tão diferente dos outros laços que já atou e desatou inúmeras vezes, faz-se explícita a proveniência do sentimento. Ao presenciar o desabrochar de uma rosa em meio ao concreto, não nos pegamos relembrando de qual semente ela veio, em qual momento do plantio lançamos sementes naquele local, ou mesmo se a regamos uma vez sequer; apenas apreciamos o seu abrir-se em flor e exalar-se em perfume inebriante. Somos, então, tragados para dentro de seu turbilhão de pétalas, e ao desvencilharmo-nos um do outro, dizemos ter estado anestesiados, drogados, alterados, e sabe-se lá quais outros nomes acharemos ainda. Resta saber se não é justamente o contrário: que estamos anestesiados é na vida, e ao tragar um ao outro acordamos para a realidade do ser, unificado em sua contraparte precisa?

Rio, 30 de junho de 2011

domingo, 19 de junho de 2011

Novas navegações

Velhas cordas prendem o navio ao porto velho, a ferrugem dos fios dizem de sua longa estagnação por praia costumeira, onde agora habita e de onde nasce teu pensar em desvencilhar-se. O mar a convida a passear: oceano profundo, por vezes tormentoso, outras espelhado, icebergs inclusive, num constante redescobrir-se a si e ao outro, mergulhando a dimensões nunca dantes percebidas. À imagem e semelhança de Colombo, que lançou-se corajosamente rumo ao fim do mundo, o oceano lhe pede determinação. Não promete uma viagem tranquila, seria-lhe impossível cumprir tal juramento; não oferece caminhos seguros, rotas de navegação mapeadas, recifes sinalizados por bóias vermelhas horrendas; não te conclama a uma travessia idealizada que imagina um caminhar livre dos tropeços e desvios abrangidos pela concretude do real. Presenteia — justo o contrário! — com a possibilidade de sermos os mapeadores dos nossos (des)caminhos, descobridores de pátrias virgens, desconhecidas tribos dentro de um e de outro. Assim, faz-nos senhores de nós mesmos, com tudo que abarcamos. Diz a lenda que Colombo, logo antes de partir, discursou aos que com ele seguiriam, dizendo-lhes não do que esperava que encontrassem, mas de tudo aquilo que por eles esperava, na completude binomial de tempestades e calmarias. Pediu que confiassem não nele, mas cada um em si mesmo, e no outro que a seu lado lhe acompanharia, mãos dadas e braços enlaçados. Não sabiam que o fim que se fazia premente não era do mundo em sua pseudototalidade desconhecedora de outros hemisférios, mas o fim do Velho Mundo enquanto cordas e algemas atadas ao velho porto que, já caduco, não notou quando as naus partiram de seus braços enrugados. Anunciou-se então, como se anuncia agora, o nascer de um novo mundo que, qualidades e defeitos à parte, tem a seu favor o eterno ineditismo do ser.

Rio, 19 de junho de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Olhos e brilhos

sob encomenda

Sorrisos entrecortados por silêncios, tão preenchidos que se fazem valer por muitos palavreados estúpidos, que certamente têm seu lugar no balanço a que nos aferroamos numa calçada qualquer de Ipanema, enquanto pensamos em compartilhar o belo. Par de ímãs, a proximidade potencializa a tensão e densifica o espaço vazio existente entre um e outro, fazendo de pequenos centímetros grandes saltos e de qualquer queda de folha motivo para se desviar o olhar, no medo de ser apreendido a fitar seus contrapontos luminosos. Fios de cabelo insistentemente buscam cobrir os olhos e os brilhos e, com não menos insistência, os devolvo a seu lugar de origem, e o toque faz de dois, um. Durante tempo indizível, num sobe-e-desce digno de montanha russa americana, permitem perder-se na gravidade do outro, sugados no contínuo espaço-tempo para uma outra dimensão na qual cabem amores, anjos da guarda, famílias, bagunças e arrumações, psicologia e filosofia, sabedorias helênicas, conspirações universais, e tantos outros que, passadas as duas horas, é de surpreender que o piso seja ainda o mesmo, quando seus dois habitantes se transformaram tanto. A calçada, então, vem nos segredar que, embora não seja outra, tampouco é a mesma. Assim, faz-nos perceber que exatamente o mesmo pode ser dito de nós. Com a consciência da eterna alteração do inalterável, partem em sentidos diametral e extrínsecamente opostos, porém internamente iguais. Ele, caminhando, pensa nela — se está ou não pensando nele. Ela, caminhando, pensa nele — se está ou não pensando nela. E embora não sejam hollywoodianos a ponto de virarem os rostos e encontrarem os olhares com um sorriso fingidamente surpreso, por dentro não deixam de se olhar por um segundo sequer, até chegar o sono e se encontrarem novamente, os olhos e os brilhos.

Rio, 15 de junho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa nº 3

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?

(Há exatos 123 anos nos foi presenteados um dos maiores mestres da literatura de todos os tempos e, para mim, o maior da nossa língua portuguesa. Essa poesia demonstra uma de suas infinitas facetas, dele que foi muitos e nenhum, para permitir-se ser todos o que foi. Ele dizia que o que o salvava era o fato de ser um poeta com inclinações filosóficas, e não um filósofo com inclinações poéticas. Lendo o texto acima, isso fica mais do que claro. Parabéns, mestre! Obrigado por nos permitir compartilhar de suas indagações e viagens por si mesmo e pelo Universo inteiro!)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Velas e chamas

para V.

A chama da vela acesa nada fala, e no entanto nos diz tudo que há, contando de nós mesmos e daquilo que seria tão mais fácil simplesmente não existindo. Ainda assim, insistimos em não escutá-la, fingimos não ver seu constante reluzir, nem suas súbitas incandescências, de modo a nos protegermos de nós mesmos. É que para a ilusão se fazer verdade, já tendo pitadas de real antes mesmo de existir, precisamos ativamente aceitá-la como tal. (Já existindo de fato, não será ela mais real do que um conceito qualquer de realidade?) Então, na concretude do agir, caminho até ti, em meio à escuridão latente fora e dentro — e caminhas para trás. Na concretude da inércia, vejo teus olhos voltarem-se a mim, e caminhas internamente para os lados, sofrida indecisão. O outro ângulo desse triângulo — que provavelmente passeia por teus pensamentos enquanto me olhas em angústia inexpressa — não me importa ser agudo ou grave, não o noto, não o vejo, não o sinto, tampouco o receio. Nada mais me interessa, senão transformar a geometria dessa relação. Pois se é verdade que a menor distância entre dois pontos é uma reta, não é assim em relação a nós, caminhantes tortuosos pelas ruelas e ribaltas entre um e outro. A vela acesa em chama brilha em mim, e busca contagiar-te a ti e a teu pavio embebido de amores já rotinas, sem saber como ou quando. Tampouco sabe como ou quando começou, mas está certa de que foi antes da ilusão assim ser nomeada. Vejo teu rosto trazer em tímida oferenda esse sorriso que não cabe em palavra alguma, através da nova moldura que se mostra mais adequada a ti. Em breves relances de teu incendiar, minha pobre vela assiste — derretendo-se por ti — o teu recuar ressabiado diante do fogo amedrontador daquilo que já existe como potencialidade. Não obstante, permanece focada, afastando-se momentaneamente apenas a fim de buscar oxigênio em cômodos mais abertos, a transitar por planícies outras que não as tuas. Subitamente noto que fiz-me vela, buscando incendiar-te de fogo que arde sem se ver, e agora me consumo, solitário, diante de teu debochado fogo apagado, que diz muito mais de ti do que de mim — e que, por isso mesmo, não me incomoda existir.

Rio, 10 de junho de 2011

sábado, 4 de junho de 2011

Sem título de 4 de junho de 2011

Nesse mesmo corpo por onde agora a vida corre, penso sobre o instante no qual seu leito secará. Será que saio de mim? Simplesmente deixarei de ser? Sairá a vida de mim ou eu sairei da vida? Serei, então, eu mesmo? Se não eu, então quem? Tanto fiz e faço que não sei se o que fui e serei é aquilo que um dia pensei; de tudo, no entanto, uma coisa é certa: a morte. Reunido comigo mesmo num estado de não-existência (poderei chamá-lo de existência, contrapondo-o a essa que agora noto existir?), vibrando em frequências inimagináveis, alço vôo rumo à lua, aquela mesma que me observa agora, formiguinha a passear, crendo-se gigante inatingível. Ri de mim, e eu rio dela, brilhando solitária sua luminosidade furtiva e furtada. Juntos, rimos e vivemos, cada um dentro daquilo que lhe cabe. Ela, brilha; eu, escrevo. Ela, gira; eu, percebo. Conta-me um segredo, sussurrando ventanias: essa mesma vida que agora habita aqui, há de seguir seu curso, rio inexorável de si mesma, livre de represas e desvios. Pois a morte, quando vier (e virá), será o fim de mim — mas não o meu fim.

Rio, 4 de junho de 2011