quinta-feira, 30 de junho de 2011

Anahata

A busca por uma motivação conceitual para o nascer de algo só se faz necessária quando a existência da coisa em si não é suficiente. Ao aceitarmos a auto-suficiência de rodas que giram e pulsam harmonica e simultaneamente, a procura de uma significação mental perde qualquer validade. Talvez consigamos agora enxergar o diametralmente oposto: que o fato de não haver motivação perceptível a nível do intelecto denota a extrema profundidade onde reside a pulsação mais essencial da coisa (essa que não tem nome). Por não haver motivo residente na memória individual de nenhum dos dois, e sim a justa surpresa de enlaçar-se logo por esse que é tão diferente dos outros laços que já atou e desatou inúmeras vezes, faz-se explícita a proveniência do sentimento. Ao presenciar o desabrochar de uma rosa em meio ao concreto, não nos pegamos relembrando de qual semente ela veio, em qual momento do plantio lançamos sementes naquele local, ou mesmo se a regamos uma vez sequer; apenas apreciamos o seu abrir-se em flor e exalar-se em perfume inebriante. Somos, então, tragados para dentro de seu turbilhão de pétalas, e ao desvencilharmo-nos um do outro, dizemos ter estado anestesiados, drogados, alterados, e sabe-se lá quais outros nomes acharemos ainda. Resta saber se não é justamente o contrário: que estamos anestesiados é na vida, e ao tragar um ao outro acordamos para a realidade do ser, unificado em sua contraparte precisa?

Rio, 30 de junho de 2011

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