segunda-feira, 13 de junho de 2011

Fernando Pessoa nº 3

Hoje que a tarde é calma e o céu tranquilo,
E a noite chega sem que eu saiba bem,
Quero considerar-me e ver aquilo
Que sou, e o que sou o que é que tem.

Olho por todo o meu passado e vejo
Que fui quem foi aquilo em torno meu,
Salvo o que o vago e incógnito desejo
De ser eu mesmo de meu ser me deu.

Como a páginas já relidas, vergo
Minha atenção sobre quem fui de mim,
E nada de verdade em mim albergo
Salvo uma ânsia sem princípio ou fim.

Como alguém distraído na viagem,
Segui por dois caminhos par a par.
Fui com o mundo, parte da paisagem;
Comigo fui, sem ver nem recordar.

Chegado aqui, onde hoje estou, conheço
Que sou diverso no que informe estou.
No meu próprio caminho me atravesso
Não conheço quem fui no que hoje sou.

Serei eu, porque nada é impossível,
Vários trazidos de outros mundos, e
No mesmo ponto espacial sensível
Que sou eu, sendo eu por estar aqui?

Serei eu, porque todo o pensamento
Podendo conceber, bem pode ser,
Um dilatado e múrmuro momento,
De tempos-seres de quem sou o viver?

(Há exatos 123 anos nos foi presenteados um dos maiores mestres da literatura de todos os tempos e, para mim, o maior da nossa língua portuguesa. Essa poesia demonstra uma de suas infinitas facetas, dele que foi muitos e nenhum, para permitir-se ser todos o que foi. Ele dizia que o que o salvava era o fato de ser um poeta com inclinações filosóficas, e não um filósofo com inclinações poéticas. Lendo o texto acima, isso fica mais do que claro. Parabéns, mestre! Obrigado por nos permitir compartilhar de suas indagações e viagens por si mesmo e pelo Universo inteiro!)

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