domingo, 19 de junho de 2011

Novas navegações

Velhas cordas prendem o navio ao porto velho, a ferrugem dos fios dizem de sua longa estagnação por praia costumeira, onde agora habita e de onde nasce teu pensar em desvencilhar-se. O mar a convida a passear: oceano profundo, por vezes tormentoso, outras espelhado, icebergs inclusive, num constante redescobrir-se a si e ao outro, mergulhando a dimensões nunca dantes percebidas. À imagem e semelhança de Colombo, que lançou-se corajosamente rumo ao fim do mundo, o oceano lhe pede determinação. Não promete uma viagem tranquila, seria-lhe impossível cumprir tal juramento; não oferece caminhos seguros, rotas de navegação mapeadas, recifes sinalizados por bóias vermelhas horrendas; não te conclama a uma travessia idealizada que imagina um caminhar livre dos tropeços e desvios abrangidos pela concretude do real. Presenteia — justo o contrário! — com a possibilidade de sermos os mapeadores dos nossos (des)caminhos, descobridores de pátrias virgens, desconhecidas tribos dentro de um e de outro. Assim, faz-nos senhores de nós mesmos, com tudo que abarcamos. Diz a lenda que Colombo, logo antes de partir, discursou aos que com ele seguiriam, dizendo-lhes não do que esperava que encontrassem, mas de tudo aquilo que por eles esperava, na completude binomial de tempestades e calmarias. Pediu que confiassem não nele, mas cada um em si mesmo, e no outro que a seu lado lhe acompanharia, mãos dadas e braços enlaçados. Não sabiam que o fim que se fazia premente não era do mundo em sua pseudototalidade desconhecedora de outros hemisférios, mas o fim do Velho Mundo enquanto cordas e algemas atadas ao velho porto que, já caduco, não notou quando as naus partiram de seus braços enrugados. Anunciou-se então, como se anuncia agora, o nascer de um novo mundo que, qualidades e defeitos à parte, tem a seu favor o eterno ineditismo do ser.

Rio, 19 de junho de 2011

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