sexta-feira, 10 de junho de 2011

Velas e chamas

para V.

A chama da vela acesa nada fala, e no entanto nos diz tudo que há, contando de nós mesmos e daquilo que seria tão mais fácil simplesmente não existindo. Ainda assim, insistimos em não escutá-la, fingimos não ver seu constante reluzir, nem suas súbitas incandescências, de modo a nos protegermos de nós mesmos. É que para a ilusão se fazer verdade, já tendo pitadas de real antes mesmo de existir, precisamos ativamente aceitá-la como tal. (Já existindo de fato, não será ela mais real do que um conceito qualquer de realidade?) Então, na concretude do agir, caminho até ti, em meio à escuridão latente fora e dentro — e caminhas para trás. Na concretude da inércia, vejo teus olhos voltarem-se a mim, e caminhas internamente para os lados, sofrida indecisão. O outro ângulo desse triângulo — que provavelmente passeia por teus pensamentos enquanto me olhas em angústia inexpressa — não me importa ser agudo ou grave, não o noto, não o vejo, não o sinto, tampouco o receio. Nada mais me interessa, senão transformar a geometria dessa relação. Pois se é verdade que a menor distância entre dois pontos é uma reta, não é assim em relação a nós, caminhantes tortuosos pelas ruelas e ribaltas entre um e outro. A vela acesa em chama brilha em mim, e busca contagiar-te a ti e a teu pavio embebido de amores já rotinas, sem saber como ou quando. Tampouco sabe como ou quando começou, mas está certa de que foi antes da ilusão assim ser nomeada. Vejo teu rosto trazer em tímida oferenda esse sorriso que não cabe em palavra alguma, através da nova moldura que se mostra mais adequada a ti. Em breves relances de teu incendiar, minha pobre vela assiste — derretendo-se por ti — o teu recuar ressabiado diante do fogo amedrontador daquilo que já existe como potencialidade. Não obstante, permanece focada, afastando-se momentaneamente apenas a fim de buscar oxigênio em cômodos mais abertos, a transitar por planícies outras que não as tuas. Subitamente noto que fiz-me vela, buscando incendiar-te de fogo que arde sem se ver, e agora me consumo, solitário, diante de teu debochado fogo apagado, que diz muito mais de ti do que de mim — e que, por isso mesmo, não me incomoda existir.

Rio, 10 de junho de 2011

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