domingo, 31 de julho de 2011

Meu quintal tem

Meu quintal tem duas árvores
e eu vou ser adulto.
Cada árvore, dez maçãs.
Numa delas, todas ruins.
Noutra delas, todas boas.
Como as boas.
Vejo as ruins.

Meu quintal tem uma árvore
e eu quase sou jovem.
Nela tem dez maçãs.
Cinco boas num dos galhos.
Cinco ruins n’outro dos galhos.
Como as boas.
Cuspo a ruim.

Meu quintal tem uma árvore
e eu sempre sou criança.
Nela só uma maçã:
Uma parte dela é boa.
Outra parte dela é ruim.
E eu a como
por inteira.

Rio, 31 de julho de 2011

Aforismo nº 17

Nada é eternamente válido. (Nem mesmo essa afirmativa.)

Rio, 31 de julho de 2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Olhos verdes e vermelhos

para Rafa, Cissa, Raul, João, Thomaz, João Pedro, Luiz, Thomaz, Lucas, Rafael, Luis, Carol, e tantos outros...

Olhos verdes e vermelhos de mãe depositam a teus pés flores, numa oferenda que, desejosa de não existir, tenta aceitar sua própria existência. Por todos os lados, amigos-irmãos e irmãos-amigos fitam teu olhar sereno, silenciosos fora e dentro, ocupados em rememorar-te nos mais sutis detalhes. As lágrimas se lançam dos olhos ao chão, esse mesmo que te serviu de repouso, mas não são lágrimas de tristeza por ti, liberto dos limites corpóreos a que nos submetemos com forma, nome e individualidade; são por nós, que aqui estamos sem a tua presença física, sem o teu dedilhar harmonioso e único de cordas e vidas. As mãos que se atiram à frente, à figura que nos lembra da tua, não são uma tentativa de reter-te ou trazer-te de volta de onde quer que esteja, mas um pedido de que sigamos em frente no nosso caminhar. Enquanto fito o mesmo teto que provavelmente foi a última imagem a fixar-se em teus olhos, verdes e vermelhos como os de tua mãe, penso que todos havemos de estar um dia reunidos, em verdade. Penso em como empurramos para longe a tão temida idéia de finitude, da morte (única certeza de qualquer ser vivente), buscando esquecer-nos de que isso que agora chamamos de “eu” também é transitório — talvez ainda mais do que consigamos perceber. Penso em como acreditamos eternas tais formas e limites que nos delineiam e delimitam dos outros e do mundo, sem percebermos que pelo simples fato da trindade ser abrangida pela nossa própria percepção, já se encontra unificada dentro de nosso ser. Penso em como o futuro é incerto, dentro do ilusório e real desenrolar do contínuo espaço-tempo, cabendo a cada um de nós construir seu próprio porvir, que paradoxalmente (e apenas para alguém que pudesse olhar de fora do Tempo) já está construído — e destruído. Penso que esse túnel escuro e velho e sujo contrasta tão fortemente contigo que é no mínimo adequado que ele te sirva de jazigo metafórico, numa exemplificação pungente da eterna tentativa da Vida de equilibrar-se a si mesma. Penso que se agora penso tudo isso, é apenas porque há um segundo, há um século, há um ano e também agora mesmo tu deixaste nosso mundo, tu nos deixaste saudosos, tu nos fizeste eternamente teus e, portanto, de nós mesmos.

Rio, 20 de julho de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

Leternidade

a Rimbaud

A eternidade foi encontrada:
É a terra e o pé ao Sol!
Por ela os meninos brincam o caminhar;
e os homens procuram entender.
Olham sempre para baixo, tentando ver :
onde seus pés os levam a pisar,
onde vão chegar pelos caminhantes pés.
O olhar-menino percorre o mundo,
pára em nada (ou pára em tudo,
que é a mesma Coisa).

A eternidade foi encontrada:
É o céu e o Sol ao pé!
Nela o olhar-criança mergulha,
enquanto os homens apreciam,
à distância, a moldura.
Verticalmente trans-vendo,
as crianças brincam aos homens
a possibilidade de mastigar o mundo,
encharcar-se por ele,
mantendo-se sempre seco ao Sol.

A eternidade foi encontrada:
é a Coisa e em tudo habita!
É nunca o que parece ser,
e apreendida, torna-se
representação de si.
Porém mostra-se toda ao olhar-criança
que não supõe ser ativo o ouvir,
que se põe à disposição do que ela fala, e conta de si
como realmente é, e não como a vê.

A eternidade foi encontrada:
é a Coisa e o lar de tudo!
É sempre o que se vê que é,
pois ao aparentar ser, se torna,
e se oculta ao olhar-adulto
que busca ativamente entender;
não percebe precisar que ela se dê.
E ela, que nunca quer ser entendida,
não se dá a quem procura,
mas a quem vê.

A eternidade foi encontrada:
é ela e você.

Rio, 10 de julho de 2011