quarta-feira, 20 de julho de 2011

Olhos verdes e vermelhos

para Rafa, Cissa, Raul, João, Thomaz, João Pedro, Luiz, Thomaz, Lucas, Rafael, Luis, Carol, e tantos outros...

Olhos verdes e vermelhos de mãe depositam a teus pés flores, numa oferenda que, desejosa de não existir, tenta aceitar sua própria existência. Por todos os lados, amigos-irmãos e irmãos-amigos fitam teu olhar sereno, silenciosos fora e dentro, ocupados em rememorar-te nos mais sutis detalhes. As lágrimas se lançam dos olhos ao chão, esse mesmo que te serviu de repouso, mas não são lágrimas de tristeza por ti, liberto dos limites corpóreos a que nos submetemos com forma, nome e individualidade; são por nós, que aqui estamos sem a tua presença física, sem o teu dedilhar harmonioso e único de cordas e vidas. As mãos que se atiram à frente, à figura que nos lembra da tua, não são uma tentativa de reter-te ou trazer-te de volta de onde quer que esteja, mas um pedido de que sigamos em frente no nosso caminhar. Enquanto fito o mesmo teto que provavelmente foi a última imagem a fixar-se em teus olhos, verdes e vermelhos como os de tua mãe, penso que todos havemos de estar um dia reunidos, em verdade. Penso em como empurramos para longe a tão temida idéia de finitude, da morte (única certeza de qualquer ser vivente), buscando esquecer-nos de que isso que agora chamamos de “eu” também é transitório — talvez ainda mais do que consigamos perceber. Penso em como acreditamos eternas tais formas e limites que nos delineiam e delimitam dos outros e do mundo, sem percebermos que pelo simples fato da trindade ser abrangida pela nossa própria percepção, já se encontra unificada dentro de nosso ser. Penso em como o futuro é incerto, dentro do ilusório e real desenrolar do contínuo espaço-tempo, cabendo a cada um de nós construir seu próprio porvir, que paradoxalmente (e apenas para alguém que pudesse olhar de fora do Tempo) já está construído — e destruído. Penso que esse túnel escuro e velho e sujo contrasta tão fortemente contigo que é no mínimo adequado que ele te sirva de jazigo metafórico, numa exemplificação pungente da eterna tentativa da Vida de equilibrar-se a si mesma. Penso que se agora penso tudo isso, é apenas porque há um segundo, há um século, há um ano e também agora mesmo tu deixaste nosso mundo, tu nos deixaste saudosos, tu nos fizeste eternamente teus e, portanto, de nós mesmos.

Rio, 20 de julho de 2011

3 comentários:

Elena Corrêa disse...

Muito bonito!!

Lizzie Bravo disse...

Que texto maravilhoso, Gabriel! Digno do teu querido amigo. Muita luz pro Rafael!

Iza Giavina-Bianchi disse...

Extremamente comovente!