domingo, 21 de agosto de 2011

Independência ou Maternidade às avessas

para M.

Relances súbitos, vejo-te em mim apenas por um segundo, enquanto permites que a inconsistência de teu debater-se ao sair do rio ceda e dê lugar à breve calmaria de mares por onde nunca naveguei, ou já o fiz demais para ainda reconhecê-los como mares. Vejo agora campos onde o sol não brilha, não há flores no jardim que criaste para ti mesma, apenas caminhos cada vez mais pavimentados, cimento impedindo a germinação de tudo aquilo que plantaste ao longo da vida — e que inclui eu e ele e ela. Por conta disso, partimos em busca de outras planícies, rasgos mais profundos nas terras desconhecidas de nossas próprias vidas. Insistentemente buscaste nos manter perto de ti, sob teu jugo tirânico e amoroso, tentando fazer de nós substitutos da falta de comando sobre teu próprio caminhar, sempre entregando a outros a responsabilidade pelos tropeços e desvios. O caminho é teu, mas buscando o auto-esquecimento de uma trilha marcada por cicatrizes e afagos, coloca-te sobre nós na tentativa de oprimir a liberdade de errarmos, também, e acertarmos, também, e vivermos, enfim. Até que comeces a aceitar as falhas e belezas de tuas próprias margens, que fazem de ti o que és, ao invés de buscar imprimi-las carbonicamente em nossos riachos, que ainda brotam do fundo da terra e dela nos contam o que somos em nós, continuaremos a empunhar nossas espadas, montados em cavalos fictícios da História inventada, que empinam sonhadoramente enquanto bradamos: “Independência, independência, abre teus sulcos sobre nós!”

Rio, 21 de agosto de 2011

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sem título de 3 de agosto de 2011

O caminho à frente é sinuoso, segue por estradas nunca dantes percorridas, esgueira-se por abismos onde o menor tropeçar seria sucedido por quedas rumo ao céu e à terra em simultaneidade, sussurra por teus ouvidos e lânguidamente convida-te a vir passear por ele, sem placas ou avisos de navegações cujo fim foi anunciado no início de si mesmo. Seguindo a caminhar no entanto tu procuras meus olhares carinhosos e não enxergas minha presença a teu lado, embora tua mão segure a minha inconscientemente, à tua frente a tua mente te torna cego, faz-te escravo dela, te subjuga à prensa calorosa contra a tela luminosa que lhe é peculiar. Aos lados e também por cima e por baixo, teus olhos choram lágrimas de sal e vinho, tu corres a te esconder sob o ramo frondoso de uma qualquer árvore, que ri de ti enquanto te concede o abrigo momentâneo dos olhares serpentinos de alguém que se esconde nas matas. Subimos a montanha e fincas tua bandeira, sem ter desenhos ou mesmo bordas e fazes de mim teu eterno amigo, sabendo agora que a minha presença foi sempre a mesma e eu estive, durante todos os momentos, a teu lado e abaixo e acima e à frente e atrás de ti, e também dentro e também fora e também nos outros e também em mim mesmo. Fui para ti aquilo que sou para mim, pois na eterna caminhada rumo ao auto-encontro, o ponto final da descoberta é quando percebe-se que agora, onde há dois, há apenas um. Eu, tu, nada, tudo. Abre teus olhos e vê a mim, como sou, vê a ti, como és, vê a nós, como sou, vê tudo, como é, vê o ser, como nada, e vê a si, como tudo. A caminhada transformada há de prosseguir, pois encontrar-me no ponto final, ao contrário do que imaginam tantos, não é o fim, mas apenas o recomeço, em outro nível e outra percepção do mundo como um reflexo dele mesmo e, portanto, de ti.

Rio, 3 de agosto de 2011