sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Prelúdio em D

(para um livro sem palavras)

Não se sabe ao certo quando o primeiro homem tombou. Não está gravado em memória alguma o momento em que a chama consumiu a primeira rosa. Não há mais ninguém vivo que se lembre do local onde o primeiro ser foi avistado. São lembranças que nem se inscrevem e já se apagam. A história, esquecida, cai entre blocos de gelo e vulcões inativos, onde ainda hoje se aloja não apenas o que não foi descoberto, mas também o que já foi esquecido. 

A humanidade constitui-se de eternos entremeios, cenas passageiras onde a continuidade não é regra, e o final não é exceção. Um constante reconstruir-se; redigir a própria biografia apenas para vê-la se tornar cinzas pelas chamas do devir; um novo florescer que tem por base o excremento já seco de gerações passadas; uma cobra a enlaçar seu próprio fim em goles antropofágicos de si, onde a ânsia do vômito equipara-se somente à volúpia de consumir sempre mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais. 

Não mais. 
Não mais. 
Não desde aquele fim. 

Ali, em um eterno instante, todas as bifurcações de todos os homens de todos os tempos vieram a um mesmo ponto – e dele apenas dois caminhos se mostravam, por entre a espessa mata estelar. A massa espaço-temporal fez-se densa, e era de se pensar que poderia ser perfurada e percorrida pelos dedos, qual lamaçal escorrendo por juntas salientes, o ranço de um tempo todo que o tempo nunca soube ser, enquanto areia movediça imparável na ampulheta universal em expansão. 

Traz-nos ele a descoberta já sabida de que o fim existe também e apenas no começo e que todo o vir-a-ser está inscrito na carne tenra de um universo sempre novo, sempre o mesmo. Vem contar de si mesmo, e sabe que nossos ouvidos cegos e mudos serão finalmente rasgados com o som saboroso e colorido de uma verdade nova, para a qual ainda não estamos preparados e que não fará nada senão retorcer nosso próprio invólucro material. À mera sombra da inversão de nós mesmos, jaz todo o futuro do universo. 

O instante que se fez presente, naquele momento, preencheu-se em seu ser de tudo aquilo que foi e tudo aquilo que poderia ser, apenas com a intenção de nos contar de que em nada diferiu de seus irmãos. Carregava em seu ventre inchado o embrião de uma outra humanidade, da qual somos tortuosos pais, e durante o parto ela bradou nosso nome em gratidão e ódio, enquanto se desembaraçava da placenta e do sangue que nós lhe alimentamos. Parida, abraçou pai e mãe, renegou sua repetição e criou um mundo novo – que, em toda sua amplitude, possui a seu favor o eterno ineditismo da terra úmida. 

Poder-se-ia dizer que todos os entremeados anteriores constituíram-se apenas como caminhos até este ponto, que todas as estradas foram pavimentadas para levar a essa praça os que então viviam, que todos os passos foram dados na direção desse mesmo inominável lugar. Mas aí estaríamos mentindo. 

Ou não.

Rio, 30 de setembro de 2011

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Tudo na mão da criança

Tudo na mão da criança é brinquedo. Sentada na areia de praia qualquer, roupas íntimas em translúcida inocência encharcada de mar, a criança sorri – com uma pedra na mão. Agachada em beira do mar e de si, concede à pedra toda sua atenção, pelo que ela se transforma com a simples indicação da vontade do infante. Serva submissa, fiel à promessa feita, cumpre-lhe os caprichosos desígnios imaginários enquanto rola como bola pelo campo de areia úmida. Subitamente, à ordem silenciosa de um olhar sutil, é transmutada em pá ou espada, com a qual a criança acredita construir e manter e destruir galáxias e planetas e seres — e pelo simples fato de crer, se faz. A representação, para o ser que cria, é fruta de si mesmo, semente do eterno, e tão real quanto possível. Na mão da criança, mentira e verdade se entrelaçam, num constante vir-a-ser que diz mais do Universo do que uma biblioteca universitária. Enquanto joga com o tempo, companheiro de brincadeiras infantis e cíclicas, a criança acerta-me um olhar, através do qual recolho-me em onda para o fundo de mim mesmo, de onde nunca realmente saí. A espuma que de mim resta, próxima a seus pequenos infinitos pés, ela sopra com carinho; sinto me roçar a brisa da criação, o sopro numinoso do divino em cada som, até que suas mãos enrugadas venham desfazer-me da existência, confessando-me que o próprio Ser não é senão um brinquedo, na mão brincalhona da Criança Eterna. 

Rio, 13 de setembro de 2011

domingo, 4 de setembro de 2011

Sem título de 4 de setembro de 2011

Delineio-te em suspiros, enquanto o afago da penumbra te engole o corpo e traz em seu colo a sombra que não se vê, pelo escuro presente do lado de fora da casa. Sussurra o vento sutil, vibração de si mesmo, e a voz do silêncio grita suavemente dentro dos teus ouvidos, outrora meus também. Procurando aquietar o que julgas ser tua voz, em homérica batalha onde enfrentas o vazio da existência e o atulhamento da imposição amedrontada pelo fim, tentas fixar teu olhar em mim, mas não me vês a mim mesmo. O reflexo que toca teus olhos e chega a teu interior não é quem sou, não diz de mim mais do que a cadeira onde agora me encosto e onde deixarei a marca da minha presença por algum tempo, até que o tempo venha e as apague. As ondas do mar hão de lavar minhas pegadas, e assim também com as tuas. O passo que se segue a esse não tem maior ou menor valor do que esse, e tem sua existência simultaneamente como seguinte, atual e anterior, até que o vento sopre e sobre apenas uma opção (cuja escolha cabe a ti). Não digo que deixes de ser o que és, muito pelo contrário!, conclamo-te a te tornar quem de fato és, como outrora conclamaram outras vozes e outros saberes (maiores ou menores que o meu, cabe a ti a decisão de julgar – ou não). Indico-te apenas um caminho, eternamente existente como potencialidade, assim como inexistente enquanto atualidade. Em minha mãos, salgadas de mar sujas de lama e doces de chuva, há só um mapa aberto, e todo um caminho à frente. E um sonho do que se poderia ser se o caminho fosse trilhado, que nunca é o que se é quando se trilha o caminho. E ainda bem.  

Rio, 4 de setembro de 2011