domingo, 4 de setembro de 2011

Sem título de 4 de setembro de 2011

Delineio-te em suspiros, enquanto o afago da penumbra te engole o corpo e traz em seu colo a sombra que não se vê, pelo escuro presente do lado de fora da casa. Sussurra o vento sutil, vibração de si mesmo, e a voz do silêncio grita suavemente dentro dos teus ouvidos, outrora meus também. Procurando aquietar o que julgas ser tua voz, em homérica batalha onde enfrentas o vazio da existência e o atulhamento da imposição amedrontada pelo fim, tentas fixar teu olhar em mim, mas não me vês a mim mesmo. O reflexo que toca teus olhos e chega a teu interior não é quem sou, não diz de mim mais do que a cadeira onde agora me encosto e onde deixarei a marca da minha presença por algum tempo, até que o tempo venha e as apague. As ondas do mar hão de lavar minhas pegadas, e assim também com as tuas. O passo que se segue a esse não tem maior ou menor valor do que esse, e tem sua existência simultaneamente como seguinte, atual e anterior, até que o vento sopre e sobre apenas uma opção (cuja escolha cabe a ti). Não digo que deixes de ser o que és, muito pelo contrário!, conclamo-te a te tornar quem de fato és, como outrora conclamaram outras vozes e outros saberes (maiores ou menores que o meu, cabe a ti a decisão de julgar – ou não). Indico-te apenas um caminho, eternamente existente como potencialidade, assim como inexistente enquanto atualidade. Em minha mãos, salgadas de mar sujas de lama e doces de chuva, há só um mapa aberto, e todo um caminho à frente. E um sonho do que se poderia ser se o caminho fosse trilhado, que nunca é o que se é quando se trilha o caminho. E ainda bem.  

Rio, 4 de setembro de 2011

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