terça-feira, 13 de setembro de 2011

Tudo na mão da criança

Tudo na mão da criança é brinquedo. Sentada na areia de praia qualquer, roupas íntimas em translúcida inocência encharcada de mar, a criança sorri – com uma pedra na mão. Agachada em beira do mar e de si, concede à pedra toda sua atenção, pelo que ela se transforma com a simples indicação da vontade do infante. Serva submissa, fiel à promessa feita, cumpre-lhe os caprichosos desígnios imaginários enquanto rola como bola pelo campo de areia úmida. Subitamente, à ordem silenciosa de um olhar sutil, é transmutada em pá ou espada, com a qual a criança acredita construir e manter e destruir galáxias e planetas e seres — e pelo simples fato de crer, se faz. A representação, para o ser que cria, é fruta de si mesmo, semente do eterno, e tão real quanto possível. Na mão da criança, mentira e verdade se entrelaçam, num constante vir-a-ser que diz mais do Universo do que uma biblioteca universitária. Enquanto joga com o tempo, companheiro de brincadeiras infantis e cíclicas, a criança acerta-me um olhar, através do qual recolho-me em onda para o fundo de mim mesmo, de onde nunca realmente saí. A espuma que de mim resta, próxima a seus pequenos infinitos pés, ela sopra com carinho; sinto me roçar a brisa da criação, o sopro numinoso do divino em cada som, até que suas mãos enrugadas venham desfazer-me da existência, confessando-me que o próprio Ser não é senão um brinquedo, na mão brincalhona da Criança Eterna. 

Rio, 13 de setembro de 2011

2 comentários:

Waldemar Falcão disse...

Lindo, Gabi!

Leticia Pereira disse...

Lindo Demais,Ate me Emocionei!
Letícia!