segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O silêncio que precede a lágrima

para M.

O silêncio que precede a lágrima chegou sem ser convocado, e nunca previsto, sempre bem-vindo, porquanto nele o ser mira um espelho e se vê como sempre foi, antes de se tornar sempre o que será. A primeira gota que tocou a terra, ao ver a cabeça ensaguentada de Luis rolar pelo tablado erguido em plena praça, escorreu dos olhos verdes de Maximilien. De pé diante da guilhotina, fazia-se espectador e protagonista do espetáculo em que se julgava dramaturgo e diretor, em antagônica posição àquele que agora jazia incompleto à sua frente. Em seus brados por liberdade, igualdade e fraternidade, jamais realizara a concretude de suas ações, idealizadas como nuvens caminhando por um céu que não mais há, onde a terra agora existe. Ele a sente sob si, a seu redor, entranhada no ser que é, e vê que acolhe suas lágrimas com ternura de mãe. Queria abraçar o rei, agradecer-lhe por existir, sem o que eu não o seria o que sou, queria segurá-lo em seus braços com ou sem cabeça, o sangue encharcando ambas as vestes e chorar sua partida. Vê nele o seu primeiro amigo, seu primeiro inimigo, todo que lhe fizera parte cortada a chorar sob uma bandeira rasgada que sua mãe lhe havia dado de presente num aniversário colorido que nunca tivera. O céu claro prenunciava uma tempestade que de há muito não vinha, e uma leve brisa arrancava casas por toda a França, enquanto dentro de seu peito, maremotos silenciosos escoavam por aquela primeira e última lágrima. Queria abraçar o rei. Engoliu seco e se virou para saudar a massa que lotava a Concorde. Não havia ninguém. 


Rio, 24 de outubro de 2011

2 comentários:

Teodora disse...

A lâmina da guilhotina perpassa dividindo o cordão umbilical.Ouve-se o grito visceral, porem Max poderá levar consigo o espiritual e incondicional que o rei trocara para sempre.

Sinta-se abraçado.

Gabriel M. Falcão disse...

;)

Senti-me.