segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Reinar em tempos novos

No sensível silêncio de um toque, onde polegares se encontram suavemente e mãos repousam uma sobre a outra, é que existimos quando fomos  séculos humanos, segundos divinos. A brisa suave de um vento não-novo roça os cabelos, ao recostar-se ela nele, anunciando a chegada de novas coroas para aqueles que, vez atrás, reinaram terra distante, hoje devotados a outros reinos, simples camponeses do plantio interno. O fogo ao lado lhes diz tudo que têm-tiveram-terão, e sussurra em labaredas de mudança justo aquilo que, há milênios, É em torno da fogueira eterna do Ser, ciclicamente cinzas para ressurgir sempre outro, sempre o mesmo, tal pássaro vermelho e dourado de si. A água envolve e unifica os corpos quase-próximos, enquanto as palmas comunicam em cantos suaves e quentes a vibração primeira  e o silêncio que nasce, caloroso no peito, ultrapassa toda a compreensão, embora fora e dentro o mundo prossiga seu caminhar. A terra sob os quatro pés sustenta seus sete passos, enquanto vislumbram obstáculo à frente, transponível de longe complicado de perto; mas dois não se amedrontam, e, auxiliando-se, alcançam alturas nunca dantes inspiradas, alçados a um novo patamar de compreensão e galhos, e olhares e flores. E assim, por sobre a terra e por fora do fogo e ao lado da água e em meio à brisa, deitados em pequena observação do infinito estrelado de onde vieram, unidos por coroas e corações de ontem-hoje-sempre, os dois pontos luminosos, que são em verdade, não apenas se olham, mas se vêem  e se sabem. 

Rio, 7 de novembro de 2011

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Há sempre

para alguém

No braço, e no óleo, e na flor; 
Na coroa, e no olho, e no dente; 
No azul, e no preto, e nos dedos – 
Há um silêncio eterno em cada coisa que sonha. 
Há um eterno viver que outra vez sai de si 
Há um olhar à espera de olhar-se no outro 
Há o eterno não-ter de um ter que já é 
Há um caminho em torno de tudo que existe 
Há um eterno buscar que já é encontrar 
Há sorrisos e sombras em toda esquina 
Há o eterno já-sou de um ser que não sei 
Há espelhos no mar e no céu para ti 
Há eu. 
Há você. 
Em meu peito você, há dois sempres. 
E meu maior medo, 
no fundo, 
é te ganhar 
pois medo 
de te perder.


Rio, 18 de novembro de 2011

sábado, 12 de novembro de 2011

Quiroman.

Curvado sobre si mesmo, adentrou meu campo de visão inesperadamente, subindo de forma lenta e irregular as escadas que chegavam ao local onde me encontrava. De olhar baixo, mirando com cuidado cada passo dado, aproximava-se com uma sacola na mão. Terno caro porém gasto, completo, barba por fazer, cabelos desgrenhados, sacola de plástico na mão, mirou a cadeira ao lado da minha e a ela se dirigiu. Com um quase inaudível com licença sentou-se vagarosamente, nunca me olhando. O cheiro da bebida misturava-se com um perfume antigo, por gerar um terceiro aroma não passível de nomeação. Somente ao sentar-se ele, corpo levemente dobrado em direção à cadeira da frente, foi que notei suas mãos. Mãos enrugadas, calejadas, veias saltitantes e pêlos irregulares; mãos de vida, mãos de homem, de mulher, de velho, de criança, mãos de ninguém e de todos à nossa volta. Tais marcas são ele sim, cicatrizes de seus caminhos mais e menos secretos. Naquelas mãos habitavam sua mãe, seu pai, seus irmãos, todos seus amigos, todos seus amores. Naquelas mãos sussurravam as cicatrizes sempre novas de seres-navalha que nos entalham, pouco a pouco, do sopro de barro virgem de onde saímos. Naquelas mãos, um dia paridas de um ventre ensanguentado, o mundo agora celebrava seu próprio desenrolar, a vida fazia-se ver por linhas e sulcos e marcas e rugas. E, no entanto, algo eterno habitava ali, algo imperecível. Era quase como se o velho me olhasse não pelos olhos, mas as mãos, e me contasse do que é em verdade. Aquelas eram as mãos da criança, porém outras, porém as mesmas – e ao subirem aos olhos para secar uma lágrima recém-nascida, me contaram que são as minhas mãos. Porém outras. Porém as mesmas. E choram as lágrimas de uma vida sorridente, já se encaminhando a um novo fim. Se levantou e foi embora, levando consigo as mãos e as marcas de ser quem sempre foi e sempre feito. 

Rio, 12 de novembro de 2011

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sem título de 1º (8) de outubro (novembro) de 2011


Era uma noite comum de um dia comum, um primeiro de outubro de doismileonze completamente comum, e nada na aparência absolutamente comum dos ladrilhos da cozinha deixava entrever qualquer acontecimento que não fosse igualmente comum. Adentrei a cozinha com o pé direito ou esquerdo, mão direita na maçaneta, enquanto forçava a porta para frente e observava a brancura da meia do meu pé direito ou esquerdo se sobrepôr à cor de tijolo dos ladrilhos da cozinha. Como era comum em casa, haviam deixado a porta para a área de serviço aberta, e me encaminhei, pé esquerdo direito esquerdo, para fechá-la. Um labrador e uma boxer me olhavam, deitados confortavelmente em suas camas. E então, talvez tenha entrado pela janela, ou pelo ralo, ou pela pineal, ou pelas frestas da porta que dá pra área de serviço, ou pelo meu coração, ou pelos buracos das tomadas, ou talvez não tenha entrado nem saído nunca, mas o fato é que, 
de repente, 
estava lá.

Salto quântico para trás de mim,
vendo o mundo que de fato 
sou,
sendo o mundo que de fato 
vejo,
num gritante silêncio suave
e búdica risada simples e profunda,
sei-me inerte enquanto Ser,
percebo que nada faço, 
não ajo nunca,
nunca 
fiz uma única ação,
e nunca deixo de agir,
sou o próprio agir do mundo, 
e nele faço
tudo que é feito,
desde que surgiu
do fundo imanifesto
da imensidão de mim mesmo
para a minha própria 
superfície.
Vejo com a mais límpida clareza 
a absoluta certeza 
de que Isso,
que Sou,
sempre Fui
e sempre Serei;
e nada que faça,
me poderia extraviar de mim mesmo,
pois quem se perde de mim, senão Eu?
Seria impossível ganhar
Isso que Sou, pois,
de fato 
Eu
nunca 
perdi
.

Rio, 8 de novembro de 2011
(sobre o dia 1º de outubro de 2011)

quarta-feira, 2 de novembro de 2011