sábado, 12 de novembro de 2011

Quiroman.

Curvado sobre si mesmo, adentrou meu campo de visão inesperadamente, subindo de forma lenta e irregular as escadas que chegavam ao local onde me encontrava. De olhar baixo, mirando com cuidado cada passo dado, aproximava-se com uma sacola na mão. Terno caro porém gasto, completo, barba por fazer, cabelos desgrenhados, sacola de plástico na mão, mirou a cadeira ao lado da minha e a ela se dirigiu. Com um quase inaudível com licença sentou-se vagarosamente, nunca me olhando. O cheiro da bebida misturava-se com um perfume antigo, por gerar um terceiro aroma não passível de nomeação. Somente ao sentar-se ele, corpo levemente dobrado em direção à cadeira da frente, foi que notei suas mãos. Mãos enrugadas, calejadas, veias saltitantes e pêlos irregulares; mãos de vida, mãos de homem, de mulher, de velho, de criança, mãos de ninguém e de todos à nossa volta. Tais marcas são ele sim, cicatrizes de seus caminhos mais e menos secretos. Naquelas mãos habitavam sua mãe, seu pai, seus irmãos, todos seus amigos, todos seus amores. Naquelas mãos sussurravam as cicatrizes sempre novas de seres-navalha que nos entalham, pouco a pouco, do sopro de barro virgem de onde saímos. Naquelas mãos, um dia paridas de um ventre ensanguentado, o mundo agora celebrava seu próprio desenrolar, a vida fazia-se ver por linhas e sulcos e marcas e rugas. E, no entanto, algo eterno habitava ali, algo imperecível. Era quase como se o velho me olhasse não pelos olhos, mas as mãos, e me contasse do que é em verdade. Aquelas eram as mãos da criança, porém outras, porém as mesmas – e ao subirem aos olhos para secar uma lágrima recém-nascida, me contaram que são as minhas mãos. Porém outras. Porém as mesmas. E choram as lágrimas de uma vida sorridente, já se encaminhando a um novo fim. Se levantou e foi embora, levando consigo as mãos e as marcas de ser quem sempre foi e sempre feito. 

Rio, 12 de novembro de 2011

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