terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sem título de 1º (8) de outubro (novembro) de 2011


Era uma noite comum de um dia comum, um primeiro de outubro de doismileonze completamente comum, e nada na aparência absolutamente comum dos ladrilhos da cozinha deixava entrever qualquer acontecimento que não fosse igualmente comum. Adentrei a cozinha com o pé direito ou esquerdo, mão direita na maçaneta, enquanto forçava a porta para frente e observava a brancura da meia do meu pé direito ou esquerdo se sobrepôr à cor de tijolo dos ladrilhos da cozinha. Como era comum em casa, haviam deixado a porta para a área de serviço aberta, e me encaminhei, pé esquerdo direito esquerdo, para fechá-la. Um labrador e uma boxer me olhavam, deitados confortavelmente em suas camas. E então, talvez tenha entrado pela janela, ou pelo ralo, ou pela pineal, ou pelas frestas da porta que dá pra área de serviço, ou pelo meu coração, ou pelos buracos das tomadas, ou talvez não tenha entrado nem saído nunca, mas o fato é que, 
de repente, 
estava lá.

Salto quântico para trás de mim,
vendo o mundo que de fato 
sou,
sendo o mundo que de fato 
vejo,
num gritante silêncio suave
e búdica risada simples e profunda,
sei-me inerte enquanto Ser,
percebo que nada faço, 
não ajo nunca,
nunca 
fiz uma única ação,
e nunca deixo de agir,
sou o próprio agir do mundo, 
e nele faço
tudo que é feito,
desde que surgiu
do fundo imanifesto
da imensidão de mim mesmo
para a minha própria 
superfície.
Vejo com a mais límpida clareza 
a absoluta certeza 
de que Isso,
que Sou,
sempre Fui
e sempre Serei;
e nada que faça,
me poderia extraviar de mim mesmo,
pois quem se perde de mim, senão Eu?
Seria impossível ganhar
Isso que Sou, pois,
de fato 
Eu
nunca 
perdi
.

Rio, 8 de novembro de 2011
(sobre o dia 1º de outubro de 2011)

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