domingo, 25 de dezembro de 2011

Margeia

A fonte não é de onde surge
Vem de mais fundo, mais dentro, mais outro
Caminhos desconhecidos entre fora e dentro
Caminhos-desafios entre cima e baixo
Sussurra chiados líquidos enquanto serpenteia por entre camadas
Abre espaço em terras e pedras
A subida é árdua, dolorosa, ele chora a si mesmo
Um aperto cada vez mais pequenininho
Encolhendo, encolhendo, encolhendo
Não vai conseguir, não vai alcançar fora de si
Quer se recolher para um eterno retornar, pensa em desistir agora.
Sim agora, desistir, chega, não segue mais!
Faltam-lhe forças...
Falta-lhe o amor caloroso de algum disco dourado que ainda não conhece
Falta-lhe o abraço carinhoso de um vento que nunca sentiu
Falta-lhe o afago de flores e plantas a quem se serviria com todo o prazer
Falta-lhe tudo, nada tem, nada pode, nada é
E chora a si. E morre.
Mas... que é isso?
Que luz é essa? (Embora não a chame 'luz' por não a conhecer)
Que brisa é essa? (Embora 'brisa' seja o nome que não aprendeu)
Que perfume é esse? ('Perfume' sendo aquilo que nunca sentiu)
Em seus olhos, uma nova lágrima de si mesmo nasce
Reflete o brilho incandescente da bola no céu
Arrepia-se e treme com o toque suave do mover-se do céu
É transformada em flores e plantas e matas e seres sob o céu
Seres que nunca sonhou ser e habitar
Onde agora habita e é.
Não se lembra de seu nome, precisa de um novo.
Começa sua caminhada montanha abaixo pelas tranças azuis de um deus guerreiro
Que lhe conta muitos segredos do mundo
De como foi, de como será
Parecem-lhe bobagens, sendo o mundo como é.
O deus lhe ama, e ele ao deus, mas são de mundos diferentes
Não se entendem, e ele parte dali. Tem que partir.
Desce sinuoso por muitas paisagens
E se molha muito e chora e é sempre feliz
(É que por tudo que vê, passa.
Em nada é detido,
e não há represas em seu caminho — derruba-as com sua força de ser livre.)
Encontra pessoas, inunda desertos,
E — ainda sem nome — segue em frente.
Escuta chamarem-lhe 'rio' e a palavra lhe soa bem
Cantarola pelo caminho seu nome novo, criança que sempre é
Chora às vezes, mas não sabe bem porquê, e nem lhe incomoda o chorar
Penetra os segredos de vilarejos todos, e volta a seu curso correto,
Seu caminho reto, sempre tortuoso, agora outro por tudo que é.
E sorri. E vive.
Mas... que cheiro é esse?
É cheiro de algo outro, que nunca sentiu, um misto de amor com sal e paz!
Sente por perto a alegria de uma imensidão profunda forte suave doce e mais.
Segue cauteloso, pé ante pé, e vislumbra ao longe algo sem fim.
Se aproxima e beija os pés daquele gigante
Lambe e é por ele lambido
Se fazem um e outro e o mesmo e sempre
Juntos, correm uma lágrima agridoce.
Agora ele já não caminha 
por caminhos quaisquer 
(retos ou tortos, certos ou errados)
Mas apenas existe em todos os lugares onde está.
O rio, agora mar, por tudo que vê, é.

Rio, 25 de dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aforismo nº 21

Não há nada que você seja que não seja o que você é.


Rio, 21 de dezembro de 2011

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

(para F.N. e D.R.)

No primeiro dia 
havia ovelhas.

No segundo dia 
um pastor se fez. 
Uniu as ovelhas 
em um rebanho só. 

No terceiro dia 
não há mais pastor — 
e, num só rebanho, 
todas as ovelhas. 

No quarto dia 
há tantos rebanhos 
quantas são ovelhas — 
e nenhum pastor. 

No quinto dia 
há alguns rebanhos, 
alguns pastores, 
algumas ovelhas. 

No sexto dia
haverá ovelhas, 
pastores, rebanhos.
E os três, um só. 

No sétimo dia
haverá lã.

Então 
tudo cessa —
nada é —
tudo pode. 

No primeiro dia 
haverá cavalos. 

Gabriel M. Falcão 
Campinas, 10 de dezembro de 2011

sábado, 3 de dezembro de 2011

Tornar-se

para R.

No sonho que o sonho me faz
Sou a praia e você e o cais
Com ciência e espírito em paz
E o vento à janela que traz
Árvores tortas demais
Seres frente ao vento atrás
Flores que exalam lilás
É a dança d'Iansã que jamais
Desperdiça o momento que jaz
E assim num instante fugaz
Tornou-nos tornados de nós.


Campinas, 3 de dezembro de 2011

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Retir.

O que poderia ter sido e o que de fato foi
Apontam para um mesmo fim, que é sempre presente.
(T. S. Eliot - "The Four Quartets")


No retirar-se por um constante e inequívoco momento eterno, em meio à vida outra que rodeia o lugar, propiciam-se a cair por terra as máscaras e armaduras e peles segundas; nas labaredas antropomórficas de um fogo que sai de si sem nunca se perder, queimamos nós e cordas que nos prendem ao conhecido, ao velho, ao medo; no caminhar silencioso por sobre a lama em meio à mata, ouvimos tudo aquilo que nunca foi dito por nenhum humano, e que a natureza nunca pára de sussurrar; ao longe, o ressoar de um tambor, o chacoalhar de um pandeiro, o canto de vozes cristalinas — tudo anuncia a presença de seres que se reúnem em sua diversidade prismática para formar um novo todo, em eterno desequilíbrio manifesto de um plano potencial onde nada existe, onde nada falta; sem palavras, sem imagens, sem símbolos — e portanto com tudo isso — um Alguém nos convida ao desapego último, o de si mesmo, à entrega final, a do conhecido, ao eterno redescobrir de um Ser que se faz sem nunca se fazer, que é nunca algo e no entanto nunca deixa de sê-lo... Assim, caminhamos inexoráveis, ainda que em meio a tropeços e retomadas de máscaras antigas, rumo ao ímã último, que nos conclama a perceber que ele e o ímã primeiro são um e o mesmo, e no entanto dois e diferentes — e no entanto um, e o mesmo.


Campinas, 2 de dezembro de 2011