terça-feira, 4 de dezembro de 2012

not Romeo and Juliet

(ou "Não podemos dizer que não temos nada")

Two heart-souls, age-alike in unity
in fair Verona, where we do not live,
from both their cores find one true love to be — 
their lips unite and they at last perceive. 
From forth two different times that seem apart 
a pair of star-bound lovers meet and know 
that obstacles along lie not in heart — 
'tis what their lives intend themselves to show. 
Yet, sure, problems shall come along the way, 
but them their joyful times will counteract. 
Sometimes troubles seem bigger than can say 
but greater's love than any side-effect. 
And now, with their permission and with yours, 
we shall proceed, heart-souls made one in cores.


quinta-feira, 22 de novembro de 2012

So

"Even without you, my arms fold about you."
- Cole Porter*

So? Face may fake and mouth say "fine",
but heart lies not — and screams it needs
thine lips in mine.

And whilst my feet are wandering 'round
the mind, cross-sea, is there with thee —
so lost, yet found.

These hands so long to touch your skin,
caress your face, your fingers lace
and breathe you in.

Same hands that were so wild and free
are now just glad to pour, for love,
some poetry.


London, 22 de novembro de 2012
[*http://www.youtube.com/watch?v=QDLevsbqZkw]

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

amármore

amantes
no mármore de Rodin:
dois corpos entrelaçados
são almas que,
enlaçadas,
se fazem uma
com o mármore de que são feitas. 

Musée Rodin, Paris, 4 de novembro de 2011


domingo, 23 de setembro de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

Benedicti

para a benta.

As mãos que acariciam são flores cheiro laranja, o rosto que se apresenta à carícia é água doce francesa, e a irrupção que recorre em risos juntos nos vibra o outro, enquanto estacionamos o tempo diante de um portão qualquer. Olhos que te miram te querem, lábios que te falam te adoram, e os sôpros que se penetram são a amálgama do amor do imaterial. Quisera que os deuses todos, tantos, testemunhassem essa mais absoluta ausência da necessidade de categorizar; sonhei arcanjos verem que o quanto se tem ultrapassa a nomenclatura que se dá. Aplaudiriam-nos todos, entusiasmados, a bravura em caminharmos sem mapas conhecidos, ou pontos de chegada e de partida — contariam que, contrário ao que se pense, aqueles que assim trilham suas vidas, andam preenchidos de sentidos e significações, tendo por companhia o impulso vital da carne da totalidade. De nossa parte, iríamos contar-lhes (aos deuses e arcanjos) que no plano onde nos encontramos há, entre e em torno a aparentes dois, um. Um que lhes é a ambos e a nenhum — e que se faz em conformidade a si, aquém e além das vontades. Um que é tempo: ciclo, duração verdadeira da vida em muitas voltas. Um que é espaço: cosmos, estrutura em ordem natural daquilo que é inteiro. Um que se mostra na surpresa que sinto, quando me arrancas de devaneios tantos com lábios quentes a se fazerem um; e quando, em meio à madrugada solta, nos tornamos todo-ouvidos a esse ser-nós, que conta do que somos / e temos / e vamos. Quando ambos os ombros servem de apoio às faces duas, quando as mãos de dois se encontram por entre seus cabelos, quando cantores ou silêncio preenchem o ar à nossa volta, aquele mesmo um — em forma de calor no coração — segreda-nos que somos, não partes passíveis de classificação, mas totalidade apenas abrangida pelo amor silencioso da alma que se reconhece em outra — e que para o que é todo real e vivo, não há possibilidade de categoria e nome, não há diferença entre repetição e ineditismo, não há escolha entre amizade e romance. Só o que existe, para aquilo que somos, é o aceitar-lhe qual verdadeiro e inominável sim.

Rio, 16 de setembro de 2012

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sobre as Sementes do Mundo Qualquer

"La Clarvoyance" (1936), René Magritte
Essa Semente nº1 é uma tentativa. Uma tentativa de compartilhar, nesse espaço, não apenas o produto final (se é que pode-se chamar assim) dos processos de escrita, mas também aquilo que muitas vezes é o vislumbre inicial de uma árvore por vir, os primeiros movimentos de um texto em germinação. Muitas destas sementes não chegarão a ver a luz do dia, seja por não encontrarem solo fértil, ou por serem completas e concretizadas em si mesmas, ou por demonstrarem total infertilidade individual. No entanto, permanecerão existindo, encapsuladas em suas potencialidades genético-literárias (quem sabe sejam plantadas por outros jardineiros?). Algumas, por outro lado, podem vir a florescer e dar frutos e flores e côres e gôstos os mais variados — e penso que, justamente nesses casos, seria interessante ter também em mãos uma memória do vislumbre inicial. 

Em resumo, as Sementes são uma espécie meio-termo entre os Aforismos e as Prosas, Poesias, etc. São aforismos que projetam-se proliferados. Mas se concluem seus quatrocentos mil projetos ou não, aí já é outra questão...

Semente nº1

Quisera compor-te um acalanto — ser pássaro que, com seu canto, seca o pranto do outro.

Rio, 31 de agosto de 2012

domingo, 26 de agosto de 2012

Sínchronos

Estamos sós, os dois. Sentados dentro de um carro memorável / ou deitados em nuvens de sonhos dos quais acordamos na mesma hora / ou apenas mergulho nos olhos do outro... estamos sós. Talvez seja caverna, lago cristalino a refletir o céu que nos cobre a face de sol, pinturas rupestres vivas em meio a tintas impressionistas e flores, sons de pequenos sinos orientais e ruídos de sussurros nos túneis — ou talvez não. Não importa. Só o que importa é a mensagem que nos traz o seráfico emissário de um deus ainda desconhecido. Nos pede, estranho!, que nosso olhar seja atento, nossa escuta aguçada e nosso pensar um sentir. Implora que saibamos discernir entre tendências internas dilacerantes; que reconheçamos não a disponibilidade que julgamos ou dizemos ter, mas a que de fato temos e demonstramos no relacionar. É serafim que, antes de terminar sua extensa lista, desaparece — e é como se nunca tivesse existido de verdade. Por trás de si (ou do si que ali havia), vislumbramos, acho que ao mesmo tempo, um duplo trono circular, digno de sábio chinês. Dividem-no duas figuras de deus, e temos medo ao vermos que nossos olhares cegam diante do abrangê-las de uma só vez. Demoramos a nos acostumar com a totalidade do que vemos ser inteiro, onde o simples enxergar já é compreender. O deus que nos mira é um senhor barbas brancas e uma criança nua e real, e em ambas as vestimentas é Chronos. Lágrimas nos olhos, ajoelha-se e vem dizer da separação que nos fez em parto. Sorriso aberto no rosto eterno, aponta-nos e mostra, por sincronicidades tantas, que as inumeráveis conjunções dos tempos nossos mira a união de almas e mentes e córpos e dois. O deus sabe dançar, e cada movimento seu é pista que desfaz a impressão de separação, por meio da percepção de repetida união nossa. Em verdade, somos nós que dançamos, e o bailar é tanto que faz o próprio tempo encurvar-se quando sob o jugo de lábios juntos. Caminhamos nós, os dois. Nós e ele. Assim, somos quatro a trilhar um caminho que é vida além de definições e circunscrições de pensamento e conformidade. Parafraseando o eu de tempos idos e ainda presentes: o deus, um e dois, nos conclama a lançar o olhar além do tempo-duplo horizontal que parece ter-nos separado em dias diferentes de hospitais distantes, até que encontremos a temporalidade vertical que repetidamente nos une em instâncias tantas que nem sei mais, para que nossos ouvidos vejam o tempo-uno que nos incita à conjunção de nós, a fim de que transformemos aparentes paradoxos de convenções (de um e outro e entre) em uma totalidade frásica, na qual imagens social e superficialmente antitéticas não se opõem, e sim mostram-se vital e sincronicamente complementares — justo por terem tanto pontos em comum quanto pontos incomuns. E por quanto nos tem mostrado e sentido, para que prossiga seu caminhar, Chronos pede que digamos, apenas e tanto, sim. Sim?

 Rio, 26 de agosto de 2012

sábado, 25 de agosto de 2012

O meu peito tem poetas

O meu peito tem poetas
profetas
amantes,
com poesias de amores
de côres
e setas,
que escrevem por sussurros
com urros
e letras,
cujos sonhos diamantes
gigantes
se fazem,
tintas soltas pelas ruas
das tuas
carícias,
riscos que não cantam mágoas
mas águas
na vida,
que se inspiram com insetos
e certos
te beijam,
são presença não-imposta
que gosta
da tua,
têm os olhos sempre atentos
sedentos
profundos,
vivem tempos que se pedem
se perdem
no gêlo,
mas sorriem com migalhas
qu'espalhas
no canto,
e derramam o reverso
do pranto
por ti.

Rio, 25 de agosto de 2012

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

transiç.

casulo: 
lagarta, 
túmulo. 

casulo: 
borboleta, 
útero. 

casulo. 

Rio, 2 de agosto de 2012

sábado, 11 de agosto de 2012

os lábios juntos

os lábios juntos
são só
lábios juntos
e no entanto
são tanto
que o quanto são
é tudo.
os lábios juntos
são sol.


Rio, 11 de agosto de 2012

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Ainda não tudo (I)

(A esperança ainda vive[,] na poesia.)

Auréolas ao lixo! Cortei
as asas que me voavam.
Deixa-me descer e deitar
ao lado teu sob o céu
só nosso e só parte.

Nudez do ser inteiro!
Para nós não há mais túnica
agora. Deixa que te sinta
o roçar da pele em outra
sem plumas ou seda.
Carne, saliva, suor e sim.

Para ser sábio,
centauro — trespassar teu corpo todo;
certeiro — flecha única à alma tua.
Ser teu — e sou,
teu ser — e só,
é tudo quanto quero.

Para ser santo,
ser puro —
não por extinção
imaculada do querer —
mas pelo aceitar
viver
as máculas todas
tantas
de todos eus 
que sou.

Para ser anjo,
ser homem.
Desejo ser-te o fogo que Teresa sentiu,
o querubim feroz
feliz
de Bernini —
lança apontada ao coração da santa,
calor andante
ardente
em passagem mais ou menos longa
por tua Ávila.

Fazer ver que eu
(te juro!)
não sou anti-
nem sobre-
humano:

que centauro é
sábio ainda animal,
quadrúpede do tiro ao alto;
que santo é
o olhar no olho à altura mesma,
o amor à carne e alma;
e que angelitude é
a plenitude da
humanidade.

E, sim,
parte de mim. 
Mas ainda não tudo.

Rio, 7 de agosto de 2012

terça-feira, 31 de julho de 2012

As mãos que se tocam são

As mãos que se tocam são ímãs que unem, tentando dizer-nos por sólido magnetismo que a distância que cremos haver entre parto e outro inexiste quando da aproximação entre outro e corpo, alma e outra. O sôpro que roça o rosto à frente, antes de penetrar por vias áereas e imiscuir-se ao outro próprio — qual alquimia da inspiração mútua —, conta-nos que dentro da união de dois se dá a síntese de teses socialmente incomuns, através da percepção da complementaridade de polaridades aparentemente incompatíveis, contracanto polifônico de vida e arte. Nesse sentido, sincronicidades e co-incidências servem para empurrar-nos adiante um ao outro, rumo ao caminho que sabemos ser certo e que julgamos ser difícil por vermos ser diverso. Tantos outros já trilhamos, muitos tantos tão comuns, que somente o breu que se faz atrás dos olhos ambos mostra o vazio por trás das formas duas — convite às planícies do eterno, onde me vês o que sou e te sou o que és, onde perfumamos laranjeiras em flôr, num eterno caminhar da trilha sempre virgem por debaixo das sombras adocicadas de nós mesmos. Imantados à beira de um palco qualquer, que nos serve de barco por ser o que é, lentamente — o corpo agora todo ímã —, sutis movimentos pendulares rumo ao outro aproximam-nos mais, e mais, e mais. Quedamo-nos tão próximos que, as faces, quase que elas se fazem, paladar. Reina absoluto o silêncio da comunicação plena — e se existem palavras, são vento do eterno louvar àquilo que faz de nós, em nós, por nós, a perfeição: amor. Nele o que há é sussurro, e o chiado lumínico da energia que corre por dedos que abraçam, canta que as mãos enlaçadas são velas infladas, insuflando-nos corajosamente rumo ao novo e a nós. Os corpos por fim se unem, em abraço de amigo ou amor, em beijo à face ou lábio — por tempo cuja finitude se apresenta rapidamente, após segundos ou milênios, enquanto adentras aquele em torno ao qual estávamos à beira, agora sob olhares tantos que não meus. Só, permaneço ímã em meio à escuridão, vendo-te ainda por detrás do breu da íris, entre campos e planícies, um calor no coração.

domingo, 29 de julho de 2012

Eva

Pequenos olhos teus me vêem
(menores, profundos, sorriem)
e sou feliz.

Quero ser tua mente-irmã, ser
teu ombro-amigo, ser teu peito-amor.
Quero ter tuas mãos em laço, ter
teu corpo-seda, ter teus lábios junto.
Quero ver tua alma toda, ver
teus olhos dentro, ver teu sôpro nu.

Junto a ti sentar-me, de volta às casas:
e amparar teu fardo com meus braços,
e secar tuas lágrimas com meus olhos,
e beijar-te a testa com meu ombro.
P'ra sempre queria-te assim, aqui.

Pensei mesmo em ser-te
aquilo que acho
que queres que seja.
Pensei mesmo em ser outro:
achar o que buscas,
me pôr a destino.
Pensei mesmo em ser só
ver que sou novo,
já teu todo outro.

E vi: o único eu que ressoa em ti
o único que te é algum que precisas,
único que te quero ser sempre,
não é outro senão o que sou —
e tudo que ele é.

E por quanto tenho pensado,
efeito de uma mordida
na maçã nunca-proibida,
lançaste-me em meio à Terra
(o sempre-novo mundo do sentir) —
tal qual Eva nessa minha vida.

Pequenos olhos teus me vêem
(menores, profundos, sorriem)
e, de novo, sou feliz.

domingo, 15 de julho de 2012

Eden revisited (II)

(para as duas, ainda)

[parte I: http://www.omundoqualquer.blogspot.com.br/2012/07/eden-revisited-i.html]

No caminho, passaram por eles diversos rios caudalosos ou calmos, seguindo incessantes rumo ao oceano do ser. Adão e Lilith notaram que progressivamente a correnteza diminuía sua força (ou talvez fossem os remos e lemes os culpados), e atingiram — pela primeira vez em sua vida juntos — um lago, rodeado por uma planície onde apenas a relva fofa crescia em abundância, pronta a imortalizar-lhes cada passo atrás. Fez-se imóvel a jangada divina, diante do cenário inóspito; fez-se assombro no olhar de Adão, diante da ausência de movimento; fez-se um brilhar nos olhos de Lilith, ao ver a superfície vítrea do lago — e, ali, a si mesma e a seu companheiro, pela primeira vez congelados em um reflexo estático que já não é. O olhar de Adão ia longe — talvez em direção ao Sol que se punha, a caminho de dourar campos outros que não mais aqueles — e por isso, não viu que ela se ajoelhara, hipnotizada pela imagem oferecida pelo espelho líquido abaixo de si. Aportaram em terra firme, e sob um esparso manto de pontos-luz, adormeceram. A ausência de luminosidade impediu que Adão notasse Lilith, deitada diante dele, rainha de um olhar marejado de lágrimas diferentes. Houvesse ele atentado ao prenúncio silencioso das janelas fechadas, saberia que naqueles olhos tão familiares se delineava o começo de um fim. Mas adormeceu sem notá-los — e repentinamente foi acordado como que de um pesadelo frio que nunca experimentara. Naquele dia o Sol não nasceu. Nada parecia se mover por toda a volta de si — o mundo havia parado. Lilith, que adormecera a seu lado, sumira; e apenas a relva fofa, marcada pelos contornos de seu corpo nu, denunciava que algum dia estivera ali. Ele se levantou, temeroso e consciente do porvir, e sem perceber que seus passos desfaziam a anti-escultura gramínea, partiu à procura de sua outrora amada, apenas para encontrar-lhe onde soprara o vento que estaria: à beira do mesmo lago — profundo, escuro e silencioso como a noite sem luar que não fazia.

[continua...]

Rio, 15 de julho de 2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Eden revisited (I)

(para as duas)

No princípio, era Lilith a contraparte de Adão — e os dois tinham-se companheiros complementares por tempos em que o próprio tempo era ainda bebê, cambaleante nas primeiras tentativas de levantar-se do eterno engatinhar a que se lançara, uma vez fóra do útero oceânico de sua mãe sempre virgem. Caminhavam juntos por estradas novas, desbravando espirais cromáticas e gerando saltos quantos por sobre outros si mesmos. Rumo ao não-rumo, os dois bandeirantes de uma pátria única e humana trilhavam a perpétua transmutação do mundo, e sorriam em face ao novo, que lhes era sempre. Tinham por pavimento a água do rio, onde flutuavam em plena aceitação das correntezas e bifurcações e afluentes e mais. Sua jangada não era outra senão a própria carne de Deus, impulsionada por remos numinosos e guiada pelos lemes do espírito. Mapeavam-se, a si e à trilha, através do manto de luz em pontos que cobria o cair da escuridão, de onde tantas vezes cantos e corpos e outros antepassados lhes guiavam a alma. Todos os dias adormeciam embalados pelo canto da Natureza, exuberante de cores e fragrâncias tantas, que olhos e narinas eram êxtase em meio a tamanho banquete sensório-vital. Acordavam pelo chamado sereno de um Sol sempre amoroso, que tinham por pai — e lhes ensinava, sem palavras, a arte de arder em doação toda de si a outro. E assim seguia a vida primeira de um canto qualquer que, por falta de opção ou costume, cantamos por Eden.

[continua...]

Rio, 6 de julho de 2012

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sattra

(para Mahavir e D.R.)

Vendo o mundo de olhos fechados, em sístole-diástole do pulsar do ser, percebe o que de fato é e presenteia, à mente que fala, um brinquedo com o qual se entreter. Inicia tua caminhada para trás, para dentro, para antes. Há um lugar que é nada — quarto escuro onde apenas existe o vazio, cheio do amor de um eterno abranger de todas as formas. Um espaço onde as formas cessam, onde o próprio formar não é senão vontade, ainda desprovida de matéria-primordial, pequena brecha através da qual o que existe surge. Teu caminho é sem fim, pois que deságua em oceano de potencialidade infinita, de eterno poder-ser, de onde tudo pode, tudo vem; lá no mar mora a virgem-mãe, solitária e sempre outra em seu manto translúcido, onde micro-vidas vibram, oscilantes entre o surgir e o permanecer, nervosas e tagarelas, a se concretizarem ou não. Nesse lugar não há mais eu, a entidade auto-referente cessa, por não haver mais fronteiras que a delimitem e às quais possa se referir, quando sobre si mesma. A separação, inventada e temporária e relativa e necessária, finda quando da percepção de que somente pode-se chamar isso de isso e aquilo de aquilo porque algo delimita aquilo e o diferencia disso. Transcendidos os limites, tudo é um e o mesmo. Em um país sem fronteiras não pode haver estados. E no fim do caminho — assim como em seu início — o que há não é um fim, mas o caminho inteiro. 


 Rio, 7 de março de 2012

terça-feira, 29 de maio de 2012

comple-

universo em
evolução é
construção do
espelho de
                  .


Rio, 28 de maio de 2012
(para P.R.S.)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Retrá.

A fotografia na parede não nos diz mais de nós, que a miramos. Sobre o agora se imprime sua inércia, simples momento em morte sem fim, imortal pois eternamente cadáver — e porquanto busque sua renovada perpetuação através de tudo aquilo que não deseja vir-a-ser, mostra-nos apenas o que de nós já fomos. Caminhamos perdidos por labirintos os mesmos, saltando entre diminutos pontos coloridos de algo que já não somos. Fazendo-nos fotografia, vivemos em contínuo impedimento do porvir, nos tornamos a interrupção do rio-vida. No retrato que nos olha, não há espaço para o todo que somos, em pulsões antinômicas e pulsares antifônicos. O registro é recorte, e nele não cabe o ser inteiro. Qual singela apreciação de tudo aquilo que queremos, mostra-se transcrição infiel daquilo tudo que, em nós, é. Habita nele apenas o que se enquadra na moldura dezporquinze, padronizada (em forma e conteúdo) por pessoas sem rosto, jamais fotografadas elas mesmas, individualistas e despersonalizadas que paradoxalmente sãomos. Seguindo as diretrizes imagéticas propostas por quem quer que não-seja, a foto talvez nem nos conte de tudo que éramos quando sentamos diante de um pintor ou fotógrafo para deixarmos nossas marcas na linha pictorológica do tempo do mundo. Em verdade, a fotografia não nos diz nem do que fomos ontem, pois ontem não olhávamos para ela, e sim um ao outro. Mirávamos olhares inteiros, mais profundos do que mostra a pele. Olhos e mãos alcançavam o que de tantos se fez um. Meu olhar em girassóis encontrava terra fértil ao cultivo de flores novas, vislumbrava lençóis freáticos divinos por debaixo da tua alma, justo em tempo de ofertarem a si mesmos. O chamado era da terra, sempre nova, revolvida a cada vez, nunca aquela que já foi quando não víamos que era. O mero observar a torna outra, e as mãos, que preparam seus sulcos para o cultivo, agem, queiramos ou não — e justamente por isso devemos atentar a seus movimentos mais sigilosos e suaves, irreconhecíveis às vezes. O fato é que a fotografia diz a nós, com precisão, quem éramos e quem somos, quando em face a um observador que lhe transveja a matéria. As sombras e as luzes de vidas outras, próximas e pretéritas, adornam ainda hoje os contornos da obra do pintor de cara séria e barbas brancas que, dedo em riste qual pincel, toca-nos buonarotticamente o indicador, e ri e chora colorindo os rascunhos do que de nós sempre fomos, sem nunca tê-lo sido.

Rio, 25 de maio de 2012

segunda-feira, 14 de maio de 2012

atmn

ó ser, 
de sopro e lama, 
quê te fez da alma 
seta ao infinito? 

Rio, 13 de maio de 2012

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Sobre cores e cotas

('Discriminar' é, segundo o dicionário Aurélio, “1. Distinguir, discernir, diferençar. 2. Separar. 3. Estabelecer diferenças”, e de acordo com o dicionário Michaelis, “1.Discernir. 2.Diferençar, distinguir. 3.Separar. 4.Classificar especificando; especificar. 5.Tratar de modo preferencial, geralmente com prejuízo para uma das partes”.)

As cotas raciais baseam-se no pressuposto de que o modelo de desenvolvimento escravocrata, que existiu amparado pela legislação brasileira até 1888 (meros 124 anos atrás), gerou uma situação nacional de desigualdade racial. Segundo os defensores das cotas, a partir de uma política afirmativa de auxílio ao ingresso no ensino superior público, essa antiga dívida seria reparada. Alega-se que as estatísticas comprovam a pouca presença de negros nas instituições superiores e nos cargos de maior visibilidade. A proposta julgada constitucional pelo STF diz respeito à reserva de 1/5 das vagas de ingresso às universidades públicas para tais cotistas, tornando-se necessária a criação de comissões responsáveis por avaliar se o candidato é ou não negro. Esclareço que respeito totalmente as opiniões e o conhecimento (absurdamente maior que o meu em matéria de legislação) dos excelentes ministros. Mas, tão respeitosamente quanto aceito suas opinões, delas discordo. 

Antes de mais nada, parece claro que as estatísticas sobre a baixa presença de negros nas universidades e em cargos “de relevo” (nas palavras do ministro-relator) são indiscutíveis, sendo nelas que se baseia, de um modo geral, toda a argumentação e fundamentação das cotas raciais. Ou seja: o problema foi identificado. Um país com grande número de negros, que não conte com igual proporção de negros e brancos nas posições mencionadas, deve ter algo de — tememos até o som da palavra — racista. E se não há uma igualdade, certamente a legislação deve se inclinar em favor de estabelecê-la, como afirmam os votos de quase todos os ministros. Cabe, no entanto, como em qualquer diagnóstico, identificar a origem de tal problema e retratá-lo pela raiz. 

Aí começam os equívocos. Essa origem é corretamente apontada como sendo o modelo escravocrata de desenvolvimento socioeconômico, desencadeador de uma situação de absurda desigualdade, que resiste até hoje. No entanto, é ingênuo julgar que tal modelo afetou apenas negros e escravos. Certamente este é um de seus aspectos mais odiosos, mas tomá-lo por único seria diminuir a magnitude do problema — e torná-lo menos odioso e menos combatível. A história prova que foram igualmente afetados índios e outros grupos sociais, talvez não diretamente pela escravocracia (embora às vezes sim), mas por seus muitos desdobramentos. Todas as múltiplas fases e faces desse processo são significantes, no sentido de terem contribuido para tornar o país o que é hoje. Olhar apenas para o processo inicial (que de inicial não tem nada, sendo a violência aos índios anterior à escravização dos africanos) é ser míope e exclusivista. Assim, ao negarmos tantas de suas partes constitutivas, o problema como um todo é negligenciado. 

Precisamos entender o que é uma cota. Só faz sentido instaurar um regime de cotas quando se julga que, sem ele, alguns candidatos estarão desprivilegiados em relação a outros — e não conseguiriam ingressar no campo a que se propõem. Logo, a cota (sendo um auxílio aos desprivilegiados) deve apontar justamente aquela característica que seja o fator diferenciador entre as capacidades dos candidatos. Qualquer outra valoração será injusta para com alguns, tanto ao auxiliar os que não tem necessidade, quanto ao negar auxílio os que necessitam. Exemplificando: suponhamos que 100 corredores vão disputar uma corrida, 50 deles tem problemas nas pernas, e desses 50, 40 tem cabelos castanhos. Os organizadores propõem, então, que eles iniciem a corrida algumas centenas de metros à frente dos que não tem dificuldades de se locomover. Qual deve ser o critério avaliador de quem vai começar adiante: a cor dos cabelos ou os problemas na locomoção? Se decidirmos pelo primeiro como critério, qual será o destino daqueles com problemas nas pernas e que não tenham cabelos castanhos, ou o local de início daqueles que tenham cabelos castanhos e nenhum problema nas pernas? Parece claro que a desigualdade continuará existindo — agora inclusive legitimada pelos organizadores do evento. 

Então, cabe olhar atentamente o processo sobre o qual discorreram os ministros: o ingresso à universidade. Este se dá mediante uma prova, de conhecimentos gerais e/ou específico, acrescida de uma produção textual. Ou seja, o que está sendo avaliado é a capacidade, por parte do candidato, de elucidar as questões propostas e desenvolver um argumento dissertativo. Diante de estatísticas, algumas pessoas afirmam que certos vestibulandos não têm a mesma capacidade do que outros. Logo, deve-se buscar justamente aquilo o que os torna (supostamente) menos capazes. E a resposta que os defensores das cotas encontram é: a “raça”?! Não será talvez a qualidade da formação prévia a que o candidato tenha tido acesso? Onde entra a suposta “raça” no processo do vestibular? O professor responsável pela correção da prova receberá um aviso de que o aluno é agregado sob tal denominação racial? Muitos argumentos se estruturam baseados na ausência de negros em empregos específicos — mas ao contrário de uma entrevista de emprego, onde o candidato é avaliado presencialmente e pode, sim, ser discriminado por seu lugar na escala cromática, em uma prova de vestibular a avaliação, impessoal por natureza, é completamente isenta de preconceitos. Ou pelo menos, era até agora. 

Dizendo claramente, o que os defensores das cotas raciais propõem é isso: separar pela cor os estudantes, para que os de certa cor tenham privilégios sobre os de outra cor. Se isso não é discriminação, não sei o que é (nem o Aurélio ou o Michaelis sabem). Essa discriminação, míope porque não enxerga de fato o alvo de sua atenção, não se percebe como discriminação justamente por ter seus olhos fixos na escravocracia e, envergonhando-se do que cometeram nossos tatataravós a nossos outros tatataravós (porque a miscigenação é quase regra no Brasil), busca reparar uma injustiça e acaba cometendo outra. 

Cabe, então, a pergunta sobre o que seja o fator que possa ser apontado como o principal definidor do resultado em uma prova, para que sejam auxiliados pelo poder público apenas e tão somente aqueles desprivilegiados em relação a esse fator, caso ele exista por (ir)responsabilidade do poder público. Não será talvez a formação prévia do aluno? Será que a política de cotas não serve para tapar com uma peneira (bem furada) o buraco que é o ensino público brasileiro? Será que mirando a causa que não é causa, resolveremos o problema? A resolução do problema não estará talvez em olhar para o ensino público brasileiro de hoje com a mesma fixação que olhamos para o regime escravocrata brasileiro de um século atrás? Dirigimos nosso pensamento a uma situação antiga, ao invés de analisarmos o quadro que se apresenta atualmente. Olhamos minuciosamente a semente e o tronco, e negamos tantos galhos e espinhos... 

É certo que o problema não possui uma resolução instantânea (o que a cota racial finge ser) — seria impossível e até mesmo indesejável, da magnitude que é. Mas enquanto não revolvermos as terras mais profundas do sistema educacional público brasileiro, os problemas continuarão. Entretanto, nesse meio tempo continuarão a ser prejudicados aqueles a quem o Estado não atende, por não cumprir seu papel constitucional de fornecer educação gratuita de qualidade? Não parece certo. Portanto, cabe sim a aplicação de medidas paliativas para que aqueles que não tem a menor culpa (a saber, os estudantes — tanto do ensino público quanto do ensino particular) não sejam prejudicados. Para mim, é absolutamente válida a implementação de cotas para estudantes de ensino público, pois elas mostrariam o Estado reparando uma injustiça estatal. 

No fim, essas questões sociais só serão resolvidas quando não mais nos discriminarmos pela cor ou por qualquer outro fator, seja para privilegiar ou desprivilegiar grupos específicos. E em se tratando de relações humanas, só começarão a se resolver quando tivermos o discernimento de olhar-nos uns aos outros como iguais e percebermos que não é a “raça” que torna alguém capaz ou incapaz de realizar o que quer que seja.

Rio, 1º de maio de 2012

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um pássaro

Um pássaro alçou vôo.
Anotei-lhe um poema.
Quem escreveu —
ele ou eu?


(para Dilip e Sri A., para Indira e Mira)
Rio, 26 de abril de 2012
*editado em 8 de maio de 2012*

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Inspir.

Soubesse que aquela seria a última lufada de ar que ventaria pulmões adentro, teria sentido-lhe o gosto de vida cálida. Soubesse que dentro de poucos minutos seu corpo estatelado estaria estirado no mesmo chão sobre o qual agora se encontrava, teria pisado melhor a rugosa sensação da madeira nova de uma sala ainda sem cheiro de casa. Soubesse que nunca mais observaria a si mesmo no espelho que agora o encarava cansado e recomposto, teria visto o que é. Mas não sabia. E no instante seguinte, quando seu diafragma novamente se contrairia, espremendo vísceras e expandido pulmões, quando suas narinas mais uma vez não-sentiriam a carícia luminosa do ar, comungando com o mundo e desfazendo dualidades, quando o coração saberia o que fazer, ritmando órgãos e banhando carne e espírito de vida sempre nova — nada aconteceu. Por um eterno instante, não soube bem o que fazer. Inerte, diante de um espelho onde a única coisa que havia mudado era o leve embaçar produzido por sua expiração costumeira, que agora se encaminhava à não-existência, voltando a ser mero reflexo límpido e potencial, o pensamento lhe abandonara. Seu universo-ilha, por uma fração de segundo, se aquietou. Estivesse outra pessoa na sala com ele, talvez um homem de letras ou de mares, lhe diria que certamente se fazia presente o prenúncio de uma realidade a debater-se sobre si mesma em vórtices tortuosos e completos rumo a um ponto que ninguém, de fato, sabe o quê. Estava sozinho. Não havia ninguém para lhe afagar a face e dizer que tudo ficaria bem, ninguém para beijar-lhe o rosto como despedida, ninguém para olhar-lhe nos olhos e ver-lhe como vida saindo pela coroa. Apenas seu próprio reflexo, no espelho novo e ainda sem cheiro de casa, continuava a observar-lhe, estupefato e silencioso diante do inesperado espetáculo interno. Espectador e protagonista, vivia o único drama que jamais imaginara ver encenado. Por linhas tortas e inteiras, sem rimas ou barcos, o aviso do poeta ou descobridor se confirmou. Debatendo-se sobre as dobras de seu próprio corpo nada saudável, forçou narinas e pulmões e todas as partes que conseguia alcançar com suas mãos-vontades. Tentou gritar e era ausente o ar com que dar o grito ensurdecedor que ecoava e enlouquecia em sua mente. Seus pés se encaminharam para um ponto que ninguém, de fato, sabe qual — apenas para ceder sob o peso insustentável da ausência de força. Sua mãe depois diria que certamente ele se dirigia ao telefone, para fazer-lhe uma ligação e dizer o quanto lhe amava. Seus amigos o tomariam se dirigindo para a janela, para lhes gritar por socorro e aguardar o auxílio fraterno dos grandes desconhecidos de sua vida. Sua esposa imaginaria que ele se encaminhava para a foto dos dois, a fim de abandonar o mundo abraçado a uma imagem daquela que escolhera dividir e não-dividir. Trocariam tais informações entre si durante o velório, ao lado do corpo acizentado, e ao ouvir a versão do outro, balançariam a cabeça em concordância, secretamente gargalhando diante de tamanha pretensão projetada. Na verdade nenhum deles sabia — e tampouco o próprio morto acizentado, subjugado que fora, diante do espelho, por instintos antigos, anteriores mesmo ao elo nunca-encontrado. O que se sabe, e as fotos grampeadas em um arquivo perdido dentro de gavetas policiais velhas comprovam, é que a posição de seu corpo indicava a tentativa de fuga do espelho — aparências e evidências diziam que rastejara por alguns centímetros, em esforço hercúleo, para longe da porta de armário aberta que lhe encarava, o bafejado da última expiração ainda se desfazendo, enquanto seu reflexo, platéia das mais atentas, observava tranquilamente a cena, inspirando normalmente o ar vítreo que deveria existir do lado de lá. O corpo tremeu por inteiro, numa última tentativa de desobstruir as narinas e artérias e meridianos e veias, e reconquistar o inspirar. Um deus que estivesse ao lado do corpo saberia lhe dizer que foi um caso de abandono de inspiração dos mais raros: a saída súbita e completa, gerada por anos ou séculos de inércia. A inspiração agora se punha ao lado do deus, vibrante e sadia uma vez livre dos impedimentos de uma vida já morta há muitos anos. Sairia a voar e certamente procuraria, por camas e gemidos e prazeres ou lápis e pincéis e partituras, um casal ou artista com quem se jungir. 

 Rio, 20 de abril de 2012

segunda-feira, 19 de março de 2012

Plan.

As sombras passadas do mundo
é tudo o que vejo.
Nada além me chega
pelos olhos girassóis em campos verdes.
A luz antiga de um mundo morto
é onde finda meu olhar.

Queria descortinar a vida,
tirar-lhe a roupa de madame velha
e sentir seu toque
em seda outra que não a de ontem.
Intento ser perfurador de realidades antigas,
perscrutar a fundo
o que em torno de tudo
há.

Desejo não ser a lesma de mim mesmo,
que nunca vê o planar que existe.
Quero vê-lo.
Não apenas som e luz em velocidades diferentes,
mas a própria luz como
velocidade limitada —
e correm as lágrimas.

Rimbaud o queria;
eu também o peço.
Fazei de mim um cego, um surdo,
tirai-me os sentidos da ordem sempre insuficiente.
Onde estão os olhos de
Van Gogh?
Foi com eles que vislumbrou a realidade
de girassol e homem?
Com esses olhos que não mais são
revelou-se o olhar eterno
do artista sobre o mundo,
olhar que rasga 

e revela,
trans-visão poética que antecipa o devir
e se faz contemporânea do brotar.

Os olhos, ele os devolveu à terra,
em oferenda de larvas e cinzas,
e devem
agora nutrir campos verdes
de girassóis novos.
O olhar nunca se vai,
por nunca ter vindo,
é sempre presente novo
e concreto na obra,
qual parto da possibilidade de revelação.

Uma águia,
pequena linha negra
contra um céu
um todo azul.

Não quero ver o planar que já se foi.
Quero sê-lo onde é.

Rio, 19 de março de 2012
versificado em Rio, 14 de junho de 2016

quarta-feira, 7 de março de 2012

pões.

é um eterno não-criar
de formas outras que não tuas
fazê-las tuas ainda outras
para outros ainda tuas
tornar-se palavra
(e tudo que é, ser)

são navios num cais de papel inventado e
gotejam lentos na boca de quem lê
invisível e eterno, o poeta chora
(lágrimas de mar e tinta)
a dor que nunca foi sua
e que deixou de ser nunca

Rio, 17 de janeiro de 2012

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Desfolhar-se

(para Phanindra e Rajashrii)

Lançou-se do galho a folha seca.

Desalojada da árvore mais alta, na montanha ou no vale, impelida por desejos de mudança, destruição, transmutação, Shiva, por rodopios incessantes descreves inconstantes círculos mágicos no ar à nossa frente, fazendo-te dançarina da brisa divina, essa mesma que escorre tua vida rumo ao novo. Vejo e chamo-te, mão estendida para tua translação em torno de si, através da qual observo supernovas e labaredas. Vem, vai, e vai. Vem, vai, e vai. Somos quatro, três e tu, e te chamamos desejosos de um toque da tua secura calorosa, buscadores de algo por trás de tudo, apenas para encontrá-lo em tudo mais, inclusive no que se desfaz. 

Teu planar é ciclo, começou simultâneo ao Universo e quem sabe quando terminará?, pois o destino é manter-se una consigo, trilhar sempre um caminho novo e mesmo, por voltas e voltas em torno de tudo que se mantém, permanência, sustentação, Vishnu, e por longas eras sua estrutura é não outra que não aquela que sempre foi antes de se tornar o que será. Vem, vem, e vai. Vem, vem, e vai. Sopras num sussurro qualquer que és eterna, e que nós sabemos ser o que somos agora. Diz que estás no meio do caminho, não-obstáculo, apoio, suporte — desces a nós, desacelera teu vibrar, faz-te matéria, apenas para segurar nossa mão em momentos difíceis, avatara.

Por um caminho-desenho que suas veias seculares saberão desenhar quais poesias aéreas, pinturas-brisas, melodias rodopiantes, faz-te também criadora, geradora, artista, Brahma, enquanto permitimo-nos a feitura de nós mesmos pelo teu chamado à observação de si. És tu a criatura criadora das forças opostas que perfazem o círculo de luz primeira, da qual és portadora. Vai, vai, e vai. Vai, vai, e vai. Nós, que desatamos quais vendavais nossos tortuosos laços atados à velha floresta que nunca existiu, sempre outra e cópia fiel do ordenado-caos superior, sussuramos para ti o desejo de talhar na madeira e na lama nossas pegadas e marcas. Emanação do Ser, Rainha de Si, Rei do Saber, em verdade és tu o sussurro e também o sussurrar. 

A folha que se havia desprendido do alto da árvore e rodopiado à nossa frente, por fim tombou ao chão, agora inerte e sempre viva, tendo antes passado perto o suficiente para nos excitar e longe o bastante para não nos permitir tocá-la. Ainda assim, onde havia quatro, agora há Um, Absoluto, Brahman, que diz: abandona teu ser ao vento e a vida é sopro. 

Vrajabhumi e Rio, 21 e 24 de janeiro de 2012

Drastuh


Por debaixo da fala
incessante e alheia,
por detrás das máscaras
ilusórias e velhas,
ao fundo da ação
viciada e sem sentido,
ao longo do caminho
tortuoso e inteiro,
existe aquilo que quero:
o silêncio sincero
das mentes cansadas
de mentir.

Rio, 17 de janeiro de 2012

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

sejer.

esse tal querer 
que as coisas sejam 
o que seriam e não 
o que são é

criado pela não- 
compreensão que

se o que é
não fosse,
o que será
não seria.

Rio, 17 de janeiro de 2012

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Impoesia


Nunca se faz nem nunca é feito,
é dado pelo Sol tal qual é em si mesmo,
na plenitude rabiscada de uma aquarela qualquer,
na imperfeição característica do sal da terra
onde faz e vem e come e morre e nasce.
São minhocas rastejantes pelos corpos decompostos,
vermes assegurando a continuidade da vida,
são sapos e serpentes que se devoram por amor e fome.
São teus olhos, e os meus também,
é a descida e a subida, é o sem-segundo,
o que não há e mesmo o que há,
o que haveria e o que não existe,
seu sopro e meu ser.
É alguém que, sendo qual é, não sabe o que ser
quando crê precisar se tornar aquilo que pedem que seja
por pedintes sem rosto, que se escondem por trás,
que se espalham nos muitos, que não são indivíduos,
feitos eles também por outros não-indivíduos,
e assim até o começo, quando um casal nu
descobriu que era impuro por inventar a pureza
e suplicaram por exílio da terra do imerecido ideal
que eles mesmos haviam criado.
Chegando ao mundo novo e o mesmo,
sujaram os pés de lama e se embebedaram,
procriaram e tiveram filhos antinômicos,
exatamente igual a um poema que.

Rio, 4 de janeiro de 2012