terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Desfolhar-se

(para Phanindra e Rajashrii)

Lançou-se do galho a folha seca.

Desalojada da árvore mais alta, na montanha ou no vale, impelida por desejos de mudança, destruição, transmutação, Shiva, por rodopios incessantes descreves inconstantes círculos mágicos no ar à nossa frente, fazendo-te dançarina da brisa divina, essa mesma que escorre tua vida rumo ao novo. Vejo e chamo-te, mão estendida para tua translação em torno de si, através da qual observo supernovas e labaredas. Vem, vai, e vai. Vem, vai, e vai. Somos quatro, três e tu, e te chamamos desejosos de um toque da tua secura calorosa, buscadores de algo por trás de tudo, apenas para encontrá-lo em tudo mais, inclusive no que se desfaz. 

Teu planar é ciclo, começou simultâneo ao Universo e quem sabe quando terminará?, pois o destino é manter-se una consigo, trilhar sempre um caminho novo e mesmo, por voltas e voltas em torno de tudo que se mantém, permanência, sustentação, Vishnu, e por longas eras sua estrutura é não outra que não aquela que sempre foi antes de se tornar o que será. Vem, vem, e vai. Vem, vem, e vai. Sopras num sussurro qualquer que és eterna, e que nós sabemos ser o que somos agora. Diz que estás no meio do caminho, não-obstáculo, apoio, suporte — desces a nós, desacelera teu vibrar, faz-te matéria, apenas para segurar nossa mão em momentos difíceis, avatara.

Por um caminho-desenho que suas veias seculares saberão desenhar quais poesias aéreas, pinturas-brisas, melodias rodopiantes, faz-te também criadora, geradora, artista, Brahma, enquanto permitimo-nos a feitura de nós mesmos pelo teu chamado à observação de si. És tu a criatura criadora das forças opostas que perfazem o círculo de luz primeira, da qual és portadora. Vai, vai, e vai. Vai, vai, e vai. Nós, que desatamos quais vendavais nossos tortuosos laços atados à velha floresta que nunca existiu, sempre outra e cópia fiel do ordenado-caos superior, sussuramos para ti o desejo de talhar na madeira e na lama nossas pegadas e marcas. Emanação do Ser, Rainha de Si, Rei do Saber, em verdade és tu o sussurro e também o sussurrar. 

A folha que se havia desprendido do alto da árvore e rodopiado à nossa frente, por fim tombou ao chão, agora inerte e sempre viva, tendo antes passado perto o suficiente para nos excitar e longe o bastante para não nos permitir tocá-la. Ainda assim, onde havia quatro, agora há Um, Absoluto, Brahman, que diz: abandona teu ser ao vento e a vida é sopro. 

Vrajabhumi e Rio, 21 e 24 de janeiro de 2012

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