quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Impoesia


Nunca se faz nem nunca é feito,
é dado pelo Sol tal qual é em si mesmo,
na plenitude rabiscada de uma aquarela qualquer,
na imperfeição característica do sal da terra
onde faz e vem e come e morre e nasce.
São minhocas rastejantes pelos corpos decompostos,
vermes assegurando a continuidade da vida,
são sapos e serpentes que se devoram por amor e fome.
São teus olhos, e os meus também,
é a descida e a subida, é o sem-segundo,
o que não há e mesmo o que há,
o que haveria e o que não existe,
seu sopro e meu ser.
É alguém que, sendo qual é, não sabe o que ser
quando crê precisar se tornar aquilo que pedem que seja
por pedintes sem rosto, que se escondem por trás,
que se espalham nos muitos, que não são indivíduos,
feitos eles também por outros não-indivíduos,
e assim até o começo, quando um casal nu
descobriu que era impuro por inventar a pureza
e suplicaram por exílio da terra do imerecido ideal
que eles mesmos haviam criado.
Chegando ao mundo novo e o mesmo,
sujaram os pés de lama e se embebedaram,
procriaram e tiveram filhos antinômicos,
exatamente igual a um poema que.

Rio, 4 de janeiro de 2012

3 comentários:

Chico Cabral disse...

Curti, muito bom!

Gabriel M. Falcão disse...

Valeu, Chico!

Leticia Pereira disse...

Gostei mut dessa sua Impoesia
Gabriel.