segunda-feira, 19 de março de 2012

Plan.

As sombras passadas do mundo
é tudo o que vejo.
Nada além me chega
pelos olhos girassóis em campos verdes.
A luz antiga de um mundo morto
é onde finda meu olhar.

Queria descortinar a vida,
tirar-lhe a roupa de madame velha
e sentir seu toque
em seda outra que não a de ontem.
Intento ser perfurador de realidades antigas,
perscrutar a fundo
o que em torno de tudo
há.

Desejo não ser a lesma de mim mesmo,
que nunca vê o planar que existe.
Quero vê-lo.
Não apenas som e luz em velocidades diferentes,
mas a própria luz como
velocidade limitada —
e correm as lágrimas.

Rimbaud o queria;
eu também o peço.
Fazei de mim um cego, um surdo,
tirai-me os sentidos da ordem sempre insuficiente.
Onde estão os olhos de
Van Gogh?
Foi com eles que vislumbrou a realidade
de girassol e homem?
Com esses olhos que não mais são
revelou-se o olhar eterno
do artista sobre o mundo,
olhar que rasga 

e revela,
trans-visão poética que antecipa o devir
e se faz contemporânea do brotar.

Os olhos, ele os devolveu à terra,
em oferenda de larvas e cinzas,
e devem
agora nutrir campos verdes
de girassóis novos.
O olhar nunca se vai,
por nunca ter vindo,
é sempre presente novo
e concreto na obra,
qual parto da possibilidade de revelação.

Uma águia,
pequena linha negra
contra um céu
um todo azul.

Não quero ver o planar que já se foi.
Quero sê-lo onde é.

Rio, 19 de março de 2012
versificado em Rio, 14 de junho de 2016

quarta-feira, 7 de março de 2012

pões.

é um eterno não-criar
de formas outras que não tuas
fazê-las tuas ainda outras
para outros ainda tuas
tornar-se palavra
(e tudo que é, ser)

são navios num cais de papel inventado e
gotejam lentos na boca de quem lê
invisível e eterno, o poeta chora
(lágrimas de mar e tinta)
a dor que nunca foi sua
e que deixou de ser nunca

Rio, 17 de janeiro de 2012