quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um pássaro

Um pássaro alçou vôo.
Anotei-lhe um poema.
Quem escreveu —
ele ou eu?


(para Dilip e Sri A., para Indira e Mira)
Rio, 26 de abril de 2012
*editado em 8 de maio de 2012*

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Inspir.

Soubesse que aquela seria a última lufada de ar que ventaria pulmões adentro, teria sentido-lhe o gosto de vida cálida. Soubesse que dentro de poucos minutos seu corpo estatelado estaria estirado no mesmo chão sobre o qual agora se encontrava, teria pisado melhor a rugosa sensação da madeira nova de uma sala ainda sem cheiro de casa. Soubesse que nunca mais observaria a si mesmo no espelho que agora o encarava cansado e recomposto, teria visto o que é. Mas não sabia. E no instante seguinte, quando seu diafragma novamente se contrairia, espremendo vísceras e expandido pulmões, quando suas narinas mais uma vez não-sentiriam a carícia luminosa do ar, comungando com o mundo e desfazendo dualidades, quando o coração saberia o que fazer, ritmando órgãos e banhando carne e espírito de vida sempre nova — nada aconteceu. Por um eterno instante, não soube bem o que fazer. Inerte, diante de um espelho onde a única coisa que havia mudado era o leve embaçar produzido por sua expiração costumeira, que agora se encaminhava à não-existência, voltando a ser mero reflexo límpido e potencial, o pensamento lhe abandonara. Seu universo-ilha, por uma fração de segundo, se aquietou. Estivesse outra pessoa na sala com ele, talvez um homem de letras ou de mares, lhe diria que certamente se fazia presente o prenúncio de uma realidade a debater-se sobre si mesma em vórtices tortuosos e completos rumo a um ponto que ninguém, de fato, sabe o quê. Estava sozinho. Não havia ninguém para lhe afagar a face e dizer que tudo ficaria bem, ninguém para beijar-lhe o rosto como despedida, ninguém para olhar-lhe nos olhos e ver-lhe como vida saindo pela coroa. Apenas seu próprio reflexo, no espelho novo e ainda sem cheiro de casa, continuava a observar-lhe, estupefato e silencioso diante do inesperado espetáculo interno. Espectador e protagonista, vivia o único drama que jamais imaginara ver encenado. Por linhas tortas e inteiras, sem rimas ou barcos, o aviso do poeta ou descobridor se confirmou. Debatendo-se sobre as dobras de seu próprio corpo nada saudável, forçou narinas e pulmões e todas as partes que conseguia alcançar com suas mãos-vontades. Tentou gritar e era ausente o ar com que dar o grito ensurdecedor que ecoava e enlouquecia em sua mente. Seus pés se encaminharam para um ponto que ninguém, de fato, sabe qual — apenas para ceder sob o peso insustentável da ausência de força. Sua mãe depois diria que certamente ele se dirigia ao telefone, para fazer-lhe uma ligação e dizer o quanto lhe amava. Seus amigos o tomariam se dirigindo para a janela, para lhes gritar por socorro e aguardar o auxílio fraterno dos grandes desconhecidos de sua vida. Sua esposa imaginaria que ele se encaminhava para a foto dos dois, a fim de abandonar o mundo abraçado a uma imagem daquela que escolhera dividir e não-dividir. Trocariam tais informações entre si durante o velório, ao lado do corpo acizentado, e ao ouvir a versão do outro, balançariam a cabeça em concordância, secretamente gargalhando diante de tamanha pretensão projetada. Na verdade nenhum deles sabia — e tampouco o próprio morto acizentado, subjugado que fora, diante do espelho, por instintos antigos, anteriores mesmo ao elo nunca-encontrado. O que se sabe, e as fotos grampeadas em um arquivo perdido dentro de gavetas policiais velhas comprovam, é que a posição de seu corpo indicava a tentativa de fuga do espelho — aparências e evidências diziam que rastejara por alguns centímetros, em esforço hercúleo, para longe da porta de armário aberta que lhe encarava, o bafejado da última expiração ainda se desfazendo, enquanto seu reflexo, platéia das mais atentas, observava tranquilamente a cena, inspirando normalmente o ar vítreo que deveria existir do lado de lá. O corpo tremeu por inteiro, numa última tentativa de desobstruir as narinas e artérias e meridianos e veias, e reconquistar o inspirar. Um deus que estivesse ao lado do corpo saberia lhe dizer que foi um caso de abandono de inspiração dos mais raros: a saída súbita e completa, gerada por anos ou séculos de inércia. A inspiração agora se punha ao lado do deus, vibrante e sadia uma vez livre dos impedimentos de uma vida já morta há muitos anos. Sairia a voar e certamente procuraria, por camas e gemidos e prazeres ou lápis e pincéis e partituras, um casal ou artista com quem se jungir. 

 Rio, 20 de abril de 2012