sexta-feira, 25 de maio de 2012

Retrá.

A fotografia na parede não nos diz mais de nós, que a miramos. Sobre o agora se imprime sua inércia, simples momento em morte sem fim, imortal pois eternamente cadáver — e porquanto busque sua renovada perpetuação através de tudo aquilo que não deseja vir-a-ser, mostra-nos apenas o que de nós já fomos. Caminhamos perdidos por labirintos os mesmos, saltando entre diminutos pontos coloridos de algo que já não somos. Fazendo-nos fotografia, vivemos em contínuo impedimento do porvir, nos tornamos a interrupção do rio-vida. No retrato que nos olha, não há espaço para o todo que somos, em pulsões antinômicas e pulsares antifônicos. O registro é recorte, e nele não cabe o ser inteiro. Qual singela apreciação de tudo aquilo que queremos, mostra-se transcrição infiel daquilo tudo que, em nós, é. Habita nele apenas o que se enquadra na moldura dezporquinze, padronizada (em forma e conteúdo) por pessoas sem rosto, jamais fotografadas elas mesmas, individualistas e despersonalizadas que paradoxalmente sãomos. Seguindo as diretrizes imagéticas propostas por quem quer que não-seja, a foto talvez nem nos conte de tudo que éramos quando sentamos diante de um pintor ou fotógrafo para deixarmos nossas marcas na linha pictorológica do tempo do mundo. Em verdade, a fotografia não nos diz nem do que fomos ontem, pois ontem não olhávamos para ela, e sim um ao outro. Mirávamos olhares inteiros, mais profundos do que mostra a pele. Olhos e mãos alcançavam o que de tantos se fez um. Meu olhar em girassóis encontrava terra fértil ao cultivo de flores novas, vislumbrava lençóis freáticos divinos por debaixo da tua alma, justo em tempo de ofertarem a si mesmos. O chamado era da terra, sempre nova, revolvida a cada vez, nunca aquela que já foi quando não víamos que era. O mero observar a torna outra, e as mãos, que preparam seus sulcos para o cultivo, agem, queiramos ou não — e justamente por isso devemos atentar a seus movimentos mais sigilosos e suaves, irreconhecíveis às vezes. O fato é que a fotografia diz a nós, com precisão, quem éramos e quem somos, quando em face a um observador que lhe transveja a matéria. As sombras e as luzes de vidas outras, próximas e pretéritas, adornam ainda hoje os contornos da obra do pintor de cara séria e barbas brancas que, dedo em riste qual pincel, toca-nos buonarotticamente o indicador, e ri e chora colorindo os rascunhos do que de nós sempre fomos, sem nunca tê-lo sido.

Rio, 25 de maio de 2012

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