quinta-feira, 7 de junho de 2012

Sattra

(para Mahavir e D.R.)

Vendo o mundo de olhos fechados, em sístole-diástole do pulsar do ser, percebe o que de fato é e presenteia, à mente que fala, um brinquedo com o qual se entreter. Inicia tua caminhada para trás, para dentro, para antes. Há um lugar que é nada — quarto escuro onde apenas existe o vazio, cheio do amor de um eterno abranger de todas as formas. Um espaço onde as formas cessam, onde o próprio formar não é senão vontade, ainda desprovida de matéria-primordial, pequena brecha através da qual o que existe surge. Teu caminho é sem fim, pois que deságua em oceano de potencialidade infinita, de eterno poder-ser, de onde tudo pode, tudo vem; lá no mar mora a virgem-mãe, solitária e sempre outra em seu manto translúcido, onde micro-vidas vibram, oscilantes entre o surgir e o permanecer, nervosas e tagarelas, a se concretizarem ou não. Nesse lugar não há mais eu, a entidade auto-referente cessa, por não haver mais fronteiras que a delimitem e às quais possa se referir, quando sobre si mesma. A separação, inventada e temporária e relativa e necessária, finda quando da percepção de que somente pode-se chamar isso de isso e aquilo de aquilo porque algo delimita aquilo e o diferencia disso. Transcendidos os limites, tudo é um e o mesmo. Em um país sem fronteiras não pode haver estados. E no fim do caminho — assim como em seu início — o que há não é um fim, mas o caminho inteiro. 


 Rio, 7 de março de 2012

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