terça-feira, 31 de julho de 2012

As mãos que se tocam são

As mãos que se tocam são ímãs que unem, tentando dizer-nos por sólido magnetismo que a distância que cremos haver entre parto e outro inexiste quando da aproximação entre outro e corpo, alma e outra. O sôpro que roça o rosto à frente, antes de penetrar por vias áereas e imiscuir-se ao outro próprio — qual alquimia da inspiração mútua —, conta-nos que dentro da união de dois se dá a síntese de teses socialmente incomuns, através da percepção da complementaridade de polaridades aparentemente incompatíveis, contracanto polifônico de vida e arte. Nesse sentido, sincronicidades e co-incidências servem para empurrar-nos adiante um ao outro, rumo ao caminho que sabemos ser certo e que julgamos ser difícil por vermos ser diverso. Tantos outros já trilhamos, muitos tantos tão comuns, que somente o breu que se faz atrás dos olhos ambos mostra o vazio por trás das formas duas — convite às planícies do eterno, onde me vês o que sou e te sou o que és, onde perfumamos laranjeiras em flôr, num eterno caminhar da trilha sempre virgem por debaixo das sombras adocicadas de nós mesmos. Imantados à beira de um palco qualquer, que nos serve de barco por ser o que é, lentamente — o corpo agora todo ímã —, sutis movimentos pendulares rumo ao outro aproximam-nos mais, e mais, e mais. Quedamo-nos tão próximos que, as faces, quase que elas se fazem, paladar. Reina absoluto o silêncio da comunicação plena — e se existem palavras, são vento do eterno louvar àquilo que faz de nós, em nós, por nós, a perfeição: amor. Nele o que há é sussurro, e o chiado lumínico da energia que corre por dedos que abraçam, canta que as mãos enlaçadas são velas infladas, insuflando-nos corajosamente rumo ao novo e a nós. Os corpos por fim se unem, em abraço de amigo ou amor, em beijo à face ou lábio — por tempo cuja finitude se apresenta rapidamente, após segundos ou milênios, enquanto adentras aquele em torno ao qual estávamos à beira, agora sob olhares tantos que não meus. Só, permaneço ímã em meio à escuridão, vendo-te ainda por detrás do breu da íris, entre campos e planícies, um calor no coração.

Nenhum comentário: